08 Julho 2009

pedagogia pós-moderna


Fernando Gonsales

táticas radicais de uma mãe divertida. clique na tirinha e aprenda como resolver problemas e criar traumas. a.m.o.

07 Julho 2009

cinquentinha

quando o Nando, meu irmão, era adolescente, ele tinha um caderno de coisinhas pessoais. ensaios. poemas. coisinhas assim. e como escrevia bem, o desgraçado. eu vivia atrás daquele caderno como um cão farejador. e ele escondia cada hora num lugar. um inferno. de vez em quando eu conseguia achar e ler rapidinho, morta de medo. morta de medo mesmo, porque um olhar do Nandinho bastava para fazer você correr léguas. hoje eu já não fujo, mas o olhar matador continua lá.

ele também tinha uma calça jeans (a gente chamava de "calça Lee") bem justa na coxa e que depois abria em cones enormes embaixo. auge dos anos 70. usava o cabelo comprido e um crucifixo. um rebelde.

uma noite ele entrou com a Brasília azul da minha mãe embaixo de um caminhão. a Brasília morreu para todo o sempre. o caminhão ficou torto. e o Nando teve um corte na testa. mas eu nunca mais parei de pensar o quanto ele faria falta.

o Nando é aquele cara que ouve e depois fala. mas, se você se alonga, ele dá uns suspirinhos. sabe aqueles suspiros? então, ele é pós-doutor em suspirinhos de tédio. se ele te faz uma pergunta, quer uma resposta objetiva. uma conversa "séria" com ele dura cinco minutos. e deu. falou uma vez, não precisa falar a segunda. prometeu, não precisa assinar e dar garantias. falou, prometeu? então tá. obviamente, o Nando virou engenheiro.

é leitor de bons romances. gosta de filmes clássicos. foi campeão de handebol. adora pegar a estrada. entende as regras do futebol americano. e entende as regras do beisebol, o que me mata de inveja. adora sua mulher e seus filhos. assa um ótimo churrasco. faz uma deliciosa caipirinha com adoçante. recebe super bem a família trapo, dando risada com as confusões e gritarias que só uma família de italianos consegue fazer. ô, italianada que fala tudo ao mesmo tempo, espicha as mãos e derruba copos na toalha. credo.

o Nando tem 90% de qualidades e 10% de defeitos. entre as qualidades, estão o caráter, a determinação, a inteligência, a perspicácia, a lealdade e a capacidade de descobrir onde se vende o melhor pastel de carne em qualquer estrada gaúcha.

hoje o Nando faz 50 anos, e olha que ele ainda tem bastante cabelo. 50 anos de um engenheiro que soube construir uma família sensacional. também soube se construir e se reconstruir, quando a vida nos deu um contragolpe. comemoramos o aniversário dele no domingo, e meu pai guardava uma surpresa: passou para ele um relógio de bolso, de ouro, funcionando perfeitamente. o mesmo relógio que meu pai havia recebido de meu avô (pai da minha mãe) ao fazer 50 anos. confesso que engasguei um pouquinho. não foi apenas bonito. foi merecido.

o que eu desejo pro Nando ele sabe. e, sinceramente, esta é a melhor parte da minha relação com ele. tá tudo ali. ele sabe, eu sei.

dois anos atrás escrevi este texto para ele. não retiro uma vírgula, continua sendo tudo verdade. porque não seguir em frente nunca foi uma opção.

02 Julho 2009

simetria

é antiga. é bobinha. e é o que eu queria ouvir hoje.

29 Junho 2009

tudo


e então tudo que posso
reter de ti é: infinito
te desejar é: novamente
e te dizer é: para sempre

28 Junho 2009

in-fer-naaallll

eu só queria saber, assim, se alguém puder me explicar, por favor. no ano que vem, teremos que ouvir durante toda a Copa do Mundo aquele barulho infernal das cornetinhas africanas? aquele zumbido de bilhões de abelhas assassinas?

não há ouvido que resista. vai me dando uma coisa, sabe, uma irritação, vai subindo um calor e eu quero sair matando quem inventou a democracia e a livre manifestação cultural.

24 Junho 2009

o outro

acabo de ler um romance pequeno e instigante, "O Outro". é do mesmo autor de "O Leitor", Bernhard Schlink. o protagonista vê sua mulher morrer de câncer e, um pouco depois, recebe uma carta surpreendente, de um homem que foi amante de sua mulher. a carta era endereçada a ela.

o resto é o desenrolar de eventos que são detonados pela curiosidade de conhecer este Outro, saber que necessidades ele havia preenchido e, especialmente, entender como era sua mulher aos olhos de um Outro. há todo um evoluir de sentimentos e percepções sobre si mesmo e a busca persistente de auto-conhecimento - que, como sempre, só vem refletido em um Outro, ou vários.

li uma vez que amar é isto: "todo dia amar, todo dia perdoar". alguma imperfeição, alguma palavra mal colocada, algum retraimento inexplicável, algum cair em silêncio, alguma súbita e suspeita alegria. todo dia amar, e todo dia perdoar. não apenas a quem se ama, mas também a si mesmo.

17 Junho 2009

o jornalista e a babá

"a comunicação de idéias há de ser permanentemente livre", disse agora há pouco o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal. já que ele autorizou e não pode me processar, vou comunicar aqui, de forma permanentemente livre, as minhas breves idéias sobre o julgamento histórico que o STF realizou hoje, derrubando a exigência do diploma para o exercício profissional do jornalismo.

foi uma exibição pública e patética da mais impressionante ignorância da elite jurídica do país sobre o que seja o jornalismo. o jornalista foi comparado a corretor de imóveis, detetive particular, designer de interiores, modelo, chef de cuisine, motoboy e babá.

ouvi os doutos magistrados dizerem que jornalismo é arte, que jornalismo é literatura, que jornalismo é poesia. mais: que jornalismo é "exercício de pura intelectualidade". citaram Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez para sustentar o que diziam. exemplos contemporâneos e bem generalizáveis, claro.

toda a argumentação dos oito ministros que votaram pelo fim da obrigatoriedade do diploma baseou-se na liberdade de expressão, um argumento totalmente equivocado. a regulamentação profissional nunca feriu o direito de expressão.

Celso de Mello perguntou: "onde está a especificidade?". olha, Mello, passa duas semanas trabalhando a fu numa redação, para ver se descobre onde se escondeu a especificidade. constrói uma rede sólida de fontes, traduz documentos para uma linguagem palatável, organiza informações que vêm na espiral do caos, edita uma primeira página, cruza informações, monta uma matéria de TV com lógica, seleciona notícias por critérios válidos. faz uns títulos aí que não recorram à Constituição de 1891, faz um texto aí sem citar Borges de Medeiros e Demétrio Ribeiro, e talvez você descubra onde está a especificidade.

bom, eu já sabia e já tinha dito aqui, em outubro do ano passado. eram favas contadas, desde que a coisa começou a ser tratada como mero corporativismo. o fim do diploma não é o fim do mundo. o jornalismo já não anda lá estas coisas, só vai piorar um pouco, ou talvez só vá piorar mais rapidamente. algumas faculdades vão fechar, alguns alunos vão desistir do curso, alguns professores vão ficar sem emprego. normal. os pisos salariais, que hoje são aviltantes, vão desabar. vai ter gente comendo fígado de gente e se vendendo por muito pouco para derrubar os colegas de seus postos. e os jornalistas que estão comemorando o fim do "resquício da ditadura" talvez um dia tenham que proteger seus fígados da massa faminta que vem por aí.

é bom também outras carreiras ficarem atentas. o STF abriu hoje a porta da desregulamentação de toda profissão "intelectual". ou seja: se não tiver um bisturi na mão ou uma lista de compêndios a decorar (com muita expressão em latim, para demarcar bem o conhecimento especializado), é provável que não haja "especificidade".

registre-se que o ministro Marco Aurélio foi o único a votar pela exigência do diploma, lembrando que vamos ter jornalistas com ensino médio ou, talvez, apenas o ensino fundamental. eu diria até: talvez sem nível de ensino algum. já pensou que maravilha, aquele dono de jornal do interior, que agora vai poder contratar o filho do amigo, porque o filho do amigo "escreve bem"? vai ser lindo. pura arte.

termino com uma citação do Barão de Itararé que descreve bem as minhas expectativas sobre os ministros do STF: "de onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada". ponto.