25 Julho 2010

dia limpo



o dia está limpo, claro, mas promete chuva. para mim, tanto faz. é meu dia, é meu aniversário. adoro envelhecer. perceber como o mundo é. o que a gente pode mudar, muda. o que não pode, aceita. ou desvia e segue em frente. e o que é bom, abre os braços para receber. esta é a única vida que tenho. ou a única da qual tenho consciência, o que dá na mesma. e esta vida, eu vivo até o talo.

17 Julho 2010

do que eu não quero saber *

não quero saber se parece tolo. existe uma única verdade nas datas que ficam vazias: elas doem todo-santo-ano. faça chuva, solaço ou granizo. não importa. o dia está lá, bonito ou não. mas uma pessoa não está. a morte é este reverso da delicadeza. ela arranca o que havia de mais valioso e devolve o nada sobre o qual você irá reconstruir o que puder e o que souber. 

não quero saber se existe limbo, inferno ou paraíso. se existe vida depois da morte, uma luz brilhante que ilumina o caminho ou duendes ou magos ou estrelinhas em neon. o que dói, dói agora. a vida que temos, temos agora. fotos na gaveta, cartas, cartões, bilhetes. presentes. a memória cheia de coisinhas engraçadas, e um vazio implacável que sempre se reposiciona. 

não quero saber se existe aí algum aprendizado memorável. se a tristeza reforça o caráter, se a ausência revela o precioso, se existe uma moral nas curtas fábulas do desaparecimento. é um instante único, irrepetível, e apesar disso retorna todo-santo-ano. retorna em momentos variados, imprecisos, aquele horrível instante acionado por qualquer coisinha tola. e retorna, de forma mais extensa, nas datas agora vazias. 

não quero saber o motivo, a explicação, se existe algum tipo de justiça que os humanos não podem compreender. é injusto, e pronto. dói, e pronto. não faz sentido, e pronto. a única coisa que posso saber, a única coisa que aprendi é que certas lacunas nunca serão preenchidas. não há o que colocar nelas. 

assim têm sido os meus 17 de julho. aniversário do meu irmão. sem o que colocar neste sem-fundo, que não se permite preencher com as argamassas da filosofia. tudo que quero saber é o que vivi com ele. o que não vivemos, o que teria sido, o que talvez estivesse reservado: disso eu não quero saber. especialmente, não quero saber como superar o insuperável. você não supera a morte, você apenas a aceita. e aceita de frente, sem nada a explicar, a ninguém, sobre um dia que pode ter chuva, solaço ou granizo e que será sempre, de um jeito só seu, aquele dia maldito e lacunar.



* postagem temática proposta pelo Sintonizados

01 Julho 2010

o explorador

toda criança tem prazer em explorar. um lugar, um jogo, uma narrativa; uma invenção, uma possibilidade. esta maravilha de explorar se mantém ao longo da vida, nas grandes ou pequenas aventuras de descobrir e conhecer. 

não me parece que nas relações seja diferente. continuamos a ser um tanto infantis, um tanto medrosos, um tanto excitados neste exercício de avançar e recuar que é típico da exploração de um território. você tenta um caminho ou uma abordagem. dá certo, descobre algo que agrada, vai em frente. então se depara com um imprevisto, com um obstáculo, não sabe como agir ou que rumo tomar. desiste um pouco, avalia o custo, sente-se tentado a continuar. por aqui, por ali, quem sabe por lá?

se o território a ser explorado é um cérebro fascinante, a aventura vale por si mesma. é a brilhante fala de Eduardo Galeano: "a utopia está no horizonte. me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. caminho dez passos, ela se desloca dez passos. por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. então, para que serve a utopia? para isto: serve para caminhar". 

o cérebro fascinante é este que constrói um horizonte. se revela e se esconde, fala e se deixa em suspenso. e então nos pomos em movimento, vamos atrás do que ele contém. é a aventura de ver algo que antes não estava lá, porque aquela pessoa não estava lá. é a maravilha de vislumbrar outras luzes e outras sombras, que não as suas próprias. explorar este território é exercer uma vontade, permitir-se uma delicadeza, dar-se um presente. com mais pressa, com menos pressa, que importa? é quase impossível expressar o prazer da aventura de explorar um cérebro fascinante.   

08 Junho 2010

enquanto ama


de todas as ilusões humanas, a idéia de andar só ou andar acompanhado é a que mais me fascina. não importa que idade você tenha, ou quanto Nietzsche de verdade tenha lido em sua vida. não importa o quanto você saiba que está sempre sozinho em suas decisões. não importa o quanto você saiba que seu mundo interior é o único mundo que você realmente pode conhecer, e ainda assim com imensas restrições.

é difícil aceitar que, embora o mundo exterior seja concreto, seus significados não passam de fantasmagoria. você não pode acessar os mistérios de outro ser humano, a não ser pela observação dos gestos e pela interpretação destes gestos a partir de seu próprio mundo interior. todo movimento que fazemos, como seres humanos, é sumariamente imaginário - e só ocorre a partir do único referencial que conhecemos, o nosso íntimo.

o amor é um destes lugares da imaginação em que recriamos a ilusão de não estarmos sós. não falo da relação concreta que envolve o amor, com suas grandes maravilhas e seus pequenos desastres (ou, às vezes, pequenas maravilhas e grandes desastres). falo do sentimento que nunca pode ser inteiramente expressado porque é de uma riqueza inacessível para o outro. o amor é um daqueles lugares do indizível, porque não há palavra, imagem ou gesto suficientemente preciso para representá-lo. não há vocabulário ou acervo capaz de fazer o outro compreender o quanto de amor há ali. é por isso que repetimos tanto e de tantos modos diversos, tentando cercar o outro de uma soma constante do nosso amor.

no entanto, por mais que exista um outro a quem amar, e que ele seja merecedor do nosso cuidado e do nosso tempo, a maior façanha do amor é esta ondulação interna que ele provoca. esta sensação de estar pleno de sentimentos fortes, intensos, reais. a sensação de estar vivendo. na expressão do amor, podemos ser mais ou menos generosos, mais ou menos dedicados, mais ou menos criativos. não importa. o que importa é esta qualidade que nos conferimos ao amar alguém. quando digo "você é especial" - por palavras, gestos ou olhares silenciosos -, estou dizendo "você é especial para mim, sou eu que te faço assim". e, se sou capaz de te fazer especial, é porque tenho esta riqueza interna inigualável ("caso você ainda não tenha percebido o quanto sou único").

somos todos passionais. uns mais, outros menos. uns gritam suas angústias, pedem explicitamente, atacam o objeto de amor. uns esperam, recolhem, se encolhem. seja como for, é um mundo intenso que está sendo vivido e experienciado. o mundo interior do qual partimos para todas as nossas aventuras e ao qual sempre retornamos, com mais bagagem e coisinhas a guardar.

as relações raramente acabam junto com o amor que sentimos. acabam antes, acabam depois. quando uma relação acaba, sofremos porque temos que enfrentar um processo longo de reacomodação. mas o que nos deixa perplexos, de fato, é quando percebemos que o amor que sentíamos acabou. quando olhamos uma pessoa e buscamos acessar aqueles velhos arquivos que nos faziam vivos pelo simples fato de estarmos os dois ali. não reconhecemos mais os conteúdos desses arquivos, eles agora parecem inadequados. não acompanhamos mais o andar singular daquela pessoa pelo corredor, ou entre as mesas de um restaurante, porque já não importa muito vê-la caminhar e importa menos ainda saber para quem ela está olhando. é neste momento que percebemos que algo do nosso interior já não está mais lá, onde costumava ficar.

neste momento, de uma estranha epifania, você finalmente sabe que o único mundo em que você pode navegar é o de suas emoções. você pode se guiar por metas, objetivos e planos. mas são as emoções que te fazem vivo. ao final o amor é esta capacidade interna de se sentir único. você quer ser ser vital, necessário, quer fazer a diferença (para alguém). o que você ama, em suma, é aquilo no qual você se torna enquanto ama.

02 Junho 2010

seu sonhador


Gustave Doré


"A tinta de escrever, por suas forças de alquímica tintura, por sua vida colorante, pode fazer um universo, se apenas encontrar seu sonhador."

(Gaston Bachelard)

06 Maio 2010

opa

e então você diz: "opa". e opa significa muita coisa. o horizonte era um deserto. as mesmas idéias cansadas, as mesmas encarquilhadas ambições. os mesmos ventos, as mesmas poeirinhas. você andava por ali, um pouco contagiado pelo cenário indigente. mas aí, opa.

é uma soma de gestos? de palavras? não sei. mas nada nesta vida, nada, é mais estimulante do que um espírito complexo.

18 Abril 2010

alfabeto enfurecido


obra de León Ferrari



obra de Mira Schendel


palavras me fascinam desde sempre. não acho que digam apenas pelo que "significam". dizem também por seus tons, vaguezas, lacunas. e, no caso de León Ferrari e Mira Schendel, dizem também por suas cores, disposições e espaços a ocupar.

a exposição "Alfabeto Enfurecido", que está na Fundação Iberê Camargo, me tomou por completo. não gostei de tudo igualmente, e não seria necessário. a força de ambos está ali, nas diferentes fases e nos diferentes materiais. há uma concretude plástica que, de algum modo, revela sempre a dificuldade de cada tela ou cada escultura. todas as peças exibem, para mim, este trabalho "industrioso", como diria Bachelard. este trabalho que é o bastidor da arte, normalmente invisível. e que, nestas obras, pude ver nitidamente, como formas translúcidas em alto relevo.

a palavra exige trabalho e investimento. jamais tem um encaixe perfeito, inevitavelmente deixa uma lacuna. não é suficiente conhecer seus significados, é preciso dominar os modos de disposição no tempo e no espaço. dizer é mais do que falar. dizer é um ato estético que me faz sujeito. dizemos com palavras, mas também com elipses. com hesitações, desmembramentos, rupturas. dizemos mesmo quando as palavras se retraem. e dizemos com cores.

há um componente político de tamanha força na obra de León Ferrari, que é impossível não ser tocado por ele. uma dor pujante, animal, visceral. inconformidade e crítica, no que estes conceitos possuem de mais autêntico. mas vai além. suas narrativas letradas me colocaram em posição de alerta sobre o quão intensos podem ser nossos sentimentos indizíveis.

a grafia desenhada, tremida, diversa de Ferrari. sua potência discursiva, seus mundos imaginados. talvez o que tenha mais me perturbado, e por isso fascinado imensamente, seja o não-dito que está escrito ali. o por-dizer.