23 agosto 2011

adiós, muchacha


você fica atordoado diante da morte. talvez não de qualquer uma, mas certamente diante da morte qualificada. o sujeito que te deixa a ver navios, ele mesmo tão desamparado, e que neste desamparo diz, inclemente como é de seu feitio: "acabou, meu amigo".

este sujeito qualificado, melhor do que você em sua valentia. o sujeito que resiste e vai embora relutando, um pouco emburrado, gritando em seu olhar que não é justo. que ainda não é hora. que ainda há tanto a fazer. ainda há tanto a dizer, viver, dividir ou recolher, ainda há tanto a. 

este sujeito cuja fragilidade física parece emprestada, de tanto que lhe cai esquisita. sujeito amoroso, belo, sarcástico, inteligente. sujeito imenso. este sujeito que não quer ir, que se agarra à vida como um filósofo do concreto, e que só vai obrigado, arrancado, sem ceder um milímetro em sua dignidade.

você fica atordoado diante dos vagos discursos sobre a morte. não importa quais nem que crenças eles acionem. então, em seu atordoamento, ouve a sabedoria sentada a seu lado sussurrar: "para ela, caberia uma música melhor: adiós muchachos, compañeros de mi vida...". e sim, para ela apenas um tango bem chorado, um tango bem dançado com direito a fenda na saia e rosa na boca. 

não importa o que você acha que sabe. diante da morte que registra em sua mente o futuro de ausências, você entende que não sabe nada de nada de nada. você volta para casa encolhido e de coração pesado. você não encontra as palavras, embora precise tanto delas. o que será depois desta experiência? não há como apenas retomar, esta é uma das mentiras da existência. você não retoma e não refaz. você segue. ainda atordoado, ainda se sentindo um tanto de nada em um mundo estranho. 

porque aquele sujeito qualificado esteve em sua vida de um modo impressionante. e você é o muchacho que fica procurando algo dentro de si mesmo para avançar em uma estrada que se modificou para sempre.  


[para Vera Gerzson]



 

11 comentários:

Rogério Christofoletti disse...

Triste. E lindo.

Nina disse...

Belíssimo. Incomparável.

Não sei o que mais dizer. Se souber, eu volto. Se não, fica o silêncio, acompanhando a ausência.

Se algo houver que eu possa fazer, no entanto, diga-me.

Beijo

Dalys disse...

adioses definitivos dejan un vacío sin opciones. después del desconcierto, a veces la resignación llega.

lo siento mucho.

un abrazo grande con todo mi cariño, para ti

Rosamaria disse...

"A morte nos ensina a transitoriedade de todas as coisas".
Leo Buscaglia
Bjim

Nina Shô disse...

Vera, vc não sabe mas enterrei meu pai em abril. Escolhemos Adiós Muchacho para dizer adeus a ele. Ao ler esse teu texto, confesso, chorei. Parece que foi feito para ele, escrito por nós para ele. Realmente perder ou deixar ir é igual para todos.
Você não sabe, mas nesse momento você falou a ele o que meu choro não deixou dizer. Muito Obrigada.

Dâni disse...

Obrigada.

Anana disse...

belo texto. quantas vezes a minha estrada foi modificada... mas ah, essa morte não é somente física, é? acho que todo fim nos deixa que nem esse muchacho...

Anana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Penkala disse...

engraçado. escrevi um texto esses dias e não tinha lido este aqui. tem muito a ver. essa coisas de NÃO ADIANTAR NADA A GENTE SABER MUITO...

:(

Anônimo disse...

não tem como não dizer que o mundo é injusto diante desta perda qualificada...

Eduardo disse...

Belas palavras.

É duro aceitar a morte, mas é justamente esse mergulho repentino no vazio que torna a vida tão "sagrada", que torna cada instante vivido uma experiência única e digna de reverência... é uma pena que muitas vezes a gente não se dê conta de toda essa riqueza e acabe deixando a vida rodar em modo stand by.