02 janeiro 2007

o Rio de Janeiro continua lindo

o novo governador do Rio, Sérgio Cabral, quer as Forças Armadas na rua. honestamente, eu também quero. não suporto ver pessoas inocentes morrendo apenas pelo azar de estar no lugar errado na hora errada. tenho amigos que moram no Rio. fico imaginando onde andam Fernando Resende, Sylvia Moretzsohn, Luciano Medeiros, Marcos Pereira. se estão seguros, se estão na rua, se podem sofrer algum tipo de violência.

hoje o Luciano fez 60 anos. é um engenheiro de extrema inteligência que conheci na Bahia. Luciano fez um doutorado canadense e jamais esquecerei do que conversamos sobre viver no Canadá, um sonho distante que ainda tenho. Luciano caminha de manhã, chega feliz para o café, conta piadas, está aberto ao mundo, tem uma casa com cachorros.

Fernando é especial. estuda o que eu estudo, lê mais do que eu, sabe mais do que eu e compartilha sem receio aquilo que sabe. é engraçado, tem um olhar silencioso, palavras certeiras, um jeito seguro e suave de fazer a crítica. Fernando tem projetos, um deles comigo, e de modo muito egoísta eu não quero que nada de ruim aconteça a ele.

Sylvia? bem, a Sylvia só conhecendo para entender. aquela risada peculiar, a língua destravada, sempre debochando do meu sotaque. mas bah. poderosa Sylvia, de idéias limpas e força doce. piadista sem freio, patife por natureza.

e o Marcos, gaúcho que zarpou como ave migratória para trabalhar na Petrobras. filósofo, jornalista, mente aguda. é gremista e no momento está um tanto obcecado pela vitória do meu time, mas isso passa. piu piu.

o que os meus amigos têm a ver com o tráfico de drogas, a formação de milícias, a corrupção da polícia, a lentidão da Justiça? nada. portanto, Cabral, bota o Exército, a Marinha e a Aeronáutica na rua. gente de coturno e arma na mão, fazendo alguma coisa que interessa para um país que não está em guerra e não precisa de centenas de militares jogando truco nos quartéis.

20 comentários:

Solon disse...

eu, por minha vez, acho que botar o exército na rua a fazer trabalho de polícia é só piorar o problema de "inocentes morrendo apenas pelo azar de estar no lugar errado na hora errada".

militares são treinados para subjugar um inimigo, não para policiar o povo. ao colocá-los a fazer trabalho de polícia, qualquer civil passa a ser um inimigo em potencial, digno de tomar um tiro primeiro e responder perguntas depois (basta ver a maneira com que exércitos do mundo inteiro têm lidado com o terrorismo). além de considerarem que eventuais mortes "por engano" são "casualidades da guerra".

de minha parte, tenho arrepios toda vez que ouço falar em "forças armadas na rua". criei bastante respeito pelo Lembo depois que ele insistiu em não deixar tropas federais entrarem em São Paulo para lidar com o PCC. e acabo sempre me lembrando que o posse comitatus act é mais uma lei norte-americana que eu adoraria que existisse por aqui.

marcia disse...

é, Solon, concordo que é uma decisão extrema e obviamente preferia que isso não fosse necessário, pois fazer policiamento não é função das Forças Armadas. mas, quando a polícia (não menos truculenta, diga-se) não consegue fazer o que lhe compete e as pessoas estão à mercê de uma criminalidade que não tem qualquer pudor ou critério, o que se deveria fazer? esperar?

Vini disse...

De minha parte, garanto q as balas passaram perto (sem metáforas). E a obsessão deu lugar à sindrome do pânico... mas tenho o corpo fechado!
Porém, estranho mesmo, é sentir-se seguro apenas bem longe, muiiiito longe da polícia.

Maroto disse...

traficantes, milícias, militares e polícias - pra mim todos cheiram a carniça. Quem dera posicionando todos para um confronto extremo eles conseguissem se extinguir uns aos outros.

Solon disse...

MARCIA: fazer a polícia funcionar. claro, mais fácil falar do que fazer. tivesse eu alguma idéia de como fazer isso e não estaria aqui comentando em um blog, e sim tentando fazer parte da solução.

mas é que parece que essa mania de chamar o irmão mais velho toda vez que se começa a perder o jogo é, também, uma bela maneira de se mudar o foco da discussão dos reais problemas.

tudo que sei da realidade do Rio de Janeiro é o que vejo na TV ou leio nos jornais e blogs. então, longe de mim querer dizer se a intervenção das Forças Armadas é realmente a única ou mais viável alternativa neste momento.

eu só acho, mesmo, que lugar de Forças Armadas é cuidando de fronteira ou participando de guerra, e que o brasileiro anda meio acostumado demais com essa idéia de tanque e soldados armados até os dentes subindo em morro e atirando no que enxergam pela frente.

Sean Hagen disse...

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precisamos, de uma vez por todas, acordar para a nossa realidade. não somos um país europeu e temos tremenda dificuldade em nos associar aos nossos vizinhos. já tivemos ditaduras estúpidas e sangrentas e mantemos um contingente enorme de forças armadas que serve apenas pra deleitar o ego e a necessidade de afimarção de virilidade de meia dúzia de generais. consomem fortunas do orçamento e nada fazem de concreto pelo nosso dia-a-dia - quem sabe daqui a 300 anos não teremos uma nova guerra do paraguai, não é mesmo?

é preciso mudar a constituição direcionar parte das forças armadas para uma maior integração à sociedade: trabalho social em rincões ermos, construção de estradas e pontes, assistência médica. e combate ao terrorismo. combate ao tráfego de drogas. combate ao terror social que tira vidas e muda o modo de viver e pensar de milhões de pessoas.

quando bazucas, granadas, morteiros, metralhadoras, fuzis e o que há de mais moderno é usado contra os cidadãos, está na hora, sim, das forças armadas agirem.

temos presidente, temos ministro da segurança, temos congresso, temos constituição. chega de ter medo de ser chacinado pelos bandidos ou de sumir na mão do exército. está na hora de dar um basta e devolver a vida a quem lhe é de direito.

o que não dá mais é pra ficar com medo, seja lá de quem for. e pra isso, um primeiro passo tem que ser dado.

e tem que ser agora


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Sean Hagen disse...

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vc esqueceu de dizer que a sylvia canta maravilhosamente bem.

e que o marcos se vendeu ao imperialismo.
:p



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Graziana disse...

Marcia, também estou com o coração na mão, tenho pessoas queridas lá.
quero exército na rua também!
chega de terrorismo com as pessoas de bem.
pelo menos lula no discurso de posse tratou de dizer que vai fazer algo, assim como o novo governador do RJ, a esperança é a última que morre, enquanto isso ficamos pensando se nossos amigos estão bem, seguros, na rua e em suas casas...

Maitê disse...

Tomará que alguém faça alguma coisa Márcia e que não fique apenas no discurso de posse. Quanto a viver no Canadá, acho que todo mundo têm esse sonho. Ainda mais nesse verão escaldante.... Abs

Leonardo disse...

Sei não, neném... esta discussão parece uma confusão de conceitos e funções: forças armadas que são diferentes de guarda nacional que é diferente de polícia, que também pode ser civil, militar ou outras subcategorias pardas, que é diferente de seguro... é... desses que o sujeito adquire quando compra um automóvel.

Anyways, chega uma hora em que podar os galhos doentes é inevitável, seja como for... mas a médio/longo prazo há que se tratar da raiz.

Beijo,

PS. Gostei do sonho canadense... ;)

Leonardo disse...

Maitê,

Calor escaldante? Sonhos gélidos?? Ando querendo escrever um post sobre o assunto. Assim que sobrar um tempinho sai... ;)

Solon disse...

SEAN: "trabalho social em rincões ermos, construção de estradas e pontes, assistência médica" não me parece, de jeito nenhum, trabalho de Forças Armadas. não vejo necessidade nem de Força, muito menos de Armada, para fazer quaisquer dessas coisas.

terrorismo e tráfico de drogas, o crime organizado como um todo, por sua vez, me parece o tipo de coisa que se combate melhor com ações de inteligência - tipicamente policiais - e não de força bruta - tipicamente militares.

quanto à primeira proposta, se for o caso, me parece muito melhor que se diminuam as Forças Armadas e se repasse essa verba para quem possa fazer integração social, estradas e coisas do tipo direito.

quanto à segunda, reitero minha impressão de que isso é trabalho da polícia e não de militar. estes até podem servir de apoio logístico ou para atuar na interceptação de aeronaves e quetais. mas o grosso do trabalho deve ser feito por forças policiais.

claro, a polícia não funciona. eu sei. e por isso, talvez, uma intervenção de tropas federais seja a melhor pedida para um curto prazo. eu só tenho medo é de ver sempre tanta gente aplaudindo a ação militar, ao invés de cobrar dos governos que façam alguma coisa para a polícia fazer seu trabalho.

ou, então, de repente acaba-se com a polícia de uma vez, se ela só serve para criar milícias tão maléficas quanto o tráfico nos morros.

Vini disse...

Não me gusta ter de conviver ao lado de fardas. Desde piá, la na vila vera cruz, em passo fundo, qdo aparecia milico a gurizada saía correndo...
Mas o tipo de ação do narco no rio e em sampa não parece ser um simples caso de polícia. O terror campeou direto, sobretudo no dia posterior aos atentandos, é uma sensação que contagia, sintoma de uma doença social muito séria...

Vini disse...

Sean: Um índio torena não se vende às potências estrangeiras...

Rodolfo De Carli disse...

concordo.
eu sempre digo isso. o exército não faz nada além disso: jogar truco. como aluno do colégio militar, já pensei em virar milico, mas desisti por ser uma vida monótona e sem nada!

Jousi disse...

A única coisa que a inteligência do exército brasileiro soube fazer muito bem nos últimos 10 anos foi cuidar de sem-terra. e nem sei se fez com competência. hshshshs

tirando o que parece piada inevitável, é sério.

nem eles seguram os trafi do rio. se vacilar, vai ser aquele fiascão que nem foi o roubo das armas nas barbas dos coronéis.

o bicho vai pêga!

Sean Hagen disse...

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enquanto ficamos teorizando e cheios de "se", as pessoas morrem.

se a polícia fosse mais bem aparelhada e paga não seria corrupta. se forças especiais fossem cridas, o exército ficaria na caserna. se educação, trabalho e moradia houvesse pra todos, nada disso aconteceria.

se, se, se, se, se. tira o se e não fica nada.

ter medo das forças armadas é dar poder a elas. aceitar que possam rasgar a constituição é dar poder a elas. aceitar que estão acima de qualquer instituição é dar poder a elas.

agora, fazê-las trabalhar e devolver à sociedade tudo o que tomam é enquadrá-las no devido lugar. é dar o primeiro passo pra mudança, é deixar de ser condicional pra ser ação. com a casa mais bem organizada, voltamos ao "se" e discutimos que destino a polícia e as forças armadas devem ter, que dotação orçamentária, que contingente, que funções.

mas chega de 'se' e de falta de ação. quem gosta de concidional é quem compactua com o poder estabelecido.


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vagem again disse...

como o marcos, tenho um pavor ancestral da milicada. seqüela de quem nasceu e cresceu em meio à duradita.
como todos, tenho um medo contemporâneo do narcoterror.
como a márcia e o sean, acho uma merda, mas há que se ordenar aos olivas que estanquem a hemorragia e tratem dos sintomas de agora.
como o leonardo, acredito que o paciente só se salva se sobrevier (presto! presto! presto!) um bom tratamento sistêmico (educação! educação! educação!).
como a jousi, temo que o narcoterror suplante toda e qualquer medida de segurança.
como todo brasileiro, eu tento não desistir jamais, mas os bracinhos gélidos do hemisfério norte bem que tentam me carregar pra lá.
como amante confessa do rio de janeiro e zelosa amiga de quem vive por lá, queria que tudo terminasse bem. veremos, veremos.

Thelma disse...

As "Forças Armadas" deviam desaparecer e a fortuna empregada nestas "forças" deveria ir para a educaçao e a saúde do povo. Estas duas áreas é que fazem a força de um país. E, antes que desapareçam, os militares deviam, sim, trabalhar para a harmmonia da sociedade - seja em projetos de integraçao, seja na construçao de casas para os desabrigados, seja em pontes...Se nao é funçao deles, que passe a ser. O salário deles é pago por toda a sociedade. Entao, que se beneficie a sociedade de todos estes marmanjos. Que os militares sejam formados para trabalhar também no crescimento do país, e nao só para guerras hipotéticas.

Nanachara C. disse...

também me preocupo com os amigos no Rio... Marcos, Zé, Alexandre R, Millan, Van, Cora... :(