18 janeiro 2007

palavras

são duas e meia da manhã. cheguei de uma festa, fui direto ao banho, não posso dormir. céu fechado e sem estrelas. um pouco, ou muito, de champanhe na cabeça me obriga a escrever, talvez postar, o que sinto neste momento. tenho uma amiga que concluiu hoje seu doutoramento, e é da festa dela que volto agora.

não é uma amiga qualquer. é alguém que admiro por muitos motivos. e que faz meu coração ficar apertado, um pouco doído, quando penso nela. porque, ao pensar nela, penso em mim e nas pessoas que eu amo.

a vida tem um tanto de dureza e um tanto de doçura. a dureza se manifesta nas coisas sobre as quais não temos controle, mas que nos forçam a tomar nas mãos a vida que temos, seja lá como ela for. a doçura se revela em gestos pequenos, gestos de delicadeza, gestos que fazem toda a diferença em meio ao céu revolto das tempestades interiores.

quando penso na vida, é com uma estranha freqüência que penso nesta amiga. e me vêm à mente os caminhos tortuosos da vida um tanto dura e um tanto doce, os caminhos que me levam a certas pessoas capazes de fazer toda a diferença. a aridez do mundo só se dissipa quando me sei perto de alguém de gestos precisos e gentis, o bastante para fazer tudo valer a pena. e em minha mente um pouco alucinada tudo se mistura, se dilata e se fortalece.

há pessoas que não sabem o que é viver. pessoas que se lamentam por um copo que se quebra ou por um bilhete que se rasga. pessoas que sofrem desmesuradamente diante de suas pequenas dores. pessoas pouco dignas dos presentes cotidianos que recebem.

mas há pessoas que entendem o sentido de cada sol que desponta. pessoas que, embora sofram, se levantam a cada manhã porque compreendem que a vida é única, bela e merece ser sorvida. pessoas que não têm receio de dizer que estão ali, bem ali, ao alcance de sua mão. pessoas que, para dizer de modo um pouco cafona, têm um coração.

a esta amiga eu seria capaz de dedicar mil palavras. ela diz que as palavras são mágicas, e eu só posso humildemente concordar. sim, são mágicas, porque por meio delas podemos enfim dizer: não vá embora, não me deixe, eu sou pouco mais que nada sem a sua presença gentil. o amor, este sentimento confuso, nem de longe se compara ao entendimento do que seja uma verdadeira amizade. aquela que nos faz íntimos e despidos de controle. a esta amiga, que todos os dias me lembra o valor do sol que desponta, eu só posso dizer obrigado. ao amigo de belo cavanhaque e gestos gentis, eu só posso dizer obrigado. chove lá fora, e eu chovo um pouco por dentro. e talvez agora possa dormir.

23 comentários:

La Carmencita disse...

E hoje, querida? Como acordou?
Como se sente?

Incluindo o título, foram 476 palavras.

Um grande beijinho!

Graziana disse...

que texto lindo Marcia!
acho que estás falando de uma das professoras de rp da FABICO que mais admiro, por tudo, ela é uma pessoa linda, admirável!
fiquei muito feliz que ela tenha conseguido terminar o doutorado ;)

Sean Hagen disse...

*


quando nem o excesso de champanhe tira a lucidez, e nem os dedos cambalentes empanam a tua verve, só se pode falar em sensibilidade e talento.
sensibilidade pra compartilhar amor com teus amigos, e talento pra transformar isso em uma pequena peça eterna.
lindo como sempre.



*

Maitê disse...

Marcia, que bonito esse teu texto!!!!!!

marcia disse...

Carmencita, era um belo prosecco, mas acordei com uma banda tocando no ouvido. o duro é que ninguém leu meu destino nas bolhas da minha taça. :(

Grazi, sim.

Xon, os olhos são para ver.

Maitê, thanks. confesso que postei e depois me arrependi um pouquinho, é excessivamente íntimo. mas foi só um pouquinho, e foi rapidinho. :)

Ana disse...

Pinta!
Lindo demais! Perfeito!
Bom de ler, reler e agradecer, porque existem pessoas como tu, que usam tão bem as palavras, e como a tua amiga, por tudo que ela te inspirou!

Vou ler outra vez!!

E outras tantas!!

Rosamaria disse...

lindo como sempre, pinta!

eu sempre leio mais de uma vez os teus textos e peço licença pra colocar um trechinho deste no meu perfil. adorei!
pode continuar tomando champanhe, pois não interfere no que escreves.

piu, piu.

Maroto disse...

amizade intensa, champagne idem!

Leonardo disse...

...

La Carmencita disse...

*


"ninguém leu meu destino nas bolhas da minha taça"

Não é só o destino, mimosa.
São também todos os pontos de partida dessa viagem.


*

Thelma disse...

Idem...sensibilidade e talento!

vagem again disse...

é nessas horas de intensidade fraterna que lamento haver deixado os copos e taças pra lá. borbulhas e demais fermentações só uma, no máximo duas, vez por ano. que o aa não nos intercepte, mas um espumante honesto faz um bem pra pessoa que vou te contar...

rogerio christofoletti disse...

Foi um texto de entrega, íntimo, devassador... mas belíssimo... que troço bacana isso de chover por dentro... gostei.

Sean Hagen disse...

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EI!

EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEI!

chama a polícia ou chamo eu?
a CARMENCITA roubou meus asteríscos na mão grande.
essa espanhola tá pensando o quê?

no passara!



*

La Carmencita disse...

Tome-os de volta:

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> [ eRRuD!tO ] ... disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
> [ eRRuD!tO ] ... disse...

Tu ainda tá querendo muito... assim... escrever como o Leminski? Tá tão bom...
E já que pisamos no terreno das revelações, confesso que sou como a Rosamaria, não leio só uma vez. :o)

Nanachara C. disse...

São 5:55 da manhã. Nao voltei de festa, nem tomei banho. Mas precisava ler coisas lindas assim.
:*

Aleksandra Pereira disse...

Pinta, Pintinha,
não sabe como esse teu texto me ajudou hoje. Com o calor que faz por essas bandas a noite foi longa e quente (noutro contexto, isso seria muuito bom), e de sequela, uma dor de cabeça daquelas. Tenho uma festinha de aniversário, 2 anos, da filha da minha melhor amiga, daquela amizade mais forte às vezes que irmão.

Estava quase ligando para me desculpar, avisar que não iria poder, que a dor que dilacera é real e não inventada para consolar uma ausência. Mas te ler me fez lembrar tudo o que ela já fez por mim e que, mesmo em suas horas mais difíceis, continuou fazendo. Das palavras amigas que me surpreendiam nos momentos em que mais precisei, do riso solto falando besteira, da simples e tão gratificante presença.

Estava esquecendo que não existe melhor remédio para dor do que uma verdadeira amizade.

Já estou saíndo.
Beijo.

clarice disse...

Pinta
Como disse a Rosa ,teus textos são para serem lidos e relidos!A delicadeza para falar de uma amizade me emociona, assim como me faz dar boas risadas com um genocídio de formiguinhas!
Parabéns!

Devaneios em Série disse...

como é bom encontrar pessoas que conseguem materializar em palavras um sentimento tão bonito como a amizade. Sem amigos eu realmente nada seria...

adoro ler teus textos :)

Anônimo disse...

Pinta amiga,

O teu texto foi um brinde para a minha alma! Aliás, a vida é um grande brinde, a amizade também! Receba meu abraço intenso, emocionado e conta comigo para brindar contigo eternamente...
Ver...ah!!!

Luis Filipe disse...

*



Meninas, eu vi.


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