28 junho 2007

surdez e voz baixa



li um post na Adriana, sobre uma carta do tarô, o Eremita, e escrevi um comentário tão grande, que resolvi fazer outro texto. esta é uma das características dos blogs, os comentários que rendem posts (e sem pagar royalties).

todos os arcanos maiores são cartas importantes. um de meus livros permanentes de cabeceira é “Jung e o tarô: uma jornada arquetípica”, em que Sallie Nichols, que foi aluna de Jung, analisa cada arcano como uma etapa da jornada individual. este livro está esgotado, mas, se você encontrar em algum sebo, eu recomendo.

o Eremita é o Velho Sábio. é um arquétipo que fala de uma sabedoria interior, aquela que você não busca nos livros, nos amigos e nos falatórios das ruas, mas dentro de si mesmo, em uma quietude solitária. este velho não é sábio porque tem 90 anos, na verdade estamos falando de um tempo interno, que independe de qualquer contagem óbvia. todos nós, tenhamos 15, 40 ou 80 anos, em algum momento nos recolhemos para uma montanha imaginária em busca de uma resposta existencial.

o Eremita chama a atenção para uma sabedoria que eu chamo de “surdez e voz baixa”. quando você pára de ouvir os outros e pára de gritar o que pensa, porque é hora de ficar quieto para se deixar ouvir, como se você fosse uma outra pessoa e tivesse uma vida de experiências importantes a relatar para si mesmo. Jung diz que nosso inconsciente retém tudo o que nos interessa, como se tivéssemos uma visão periférica que guarda tudo o que vê. arquivamos milhares de informações sobre o mundo e as pessoas, ao longo da vida, porém não estamos acostumados a confiar naquilo que chamamos de “intuição” — a capacidade de tomar uma decisão sem base racional, mas que na verdade está fundada em um conhecimento anterior que está armazenado em algum lugar.

é este Velho Sábio, que surge de vez em quando, quem nos diz que é hora de ficar sozinho e ouvir o que temos guardado. não é preciso abrir um livro, nem recorrer ao melhor amigo, nem ir ao divã. é preciso ter coragem de ficar alguns momentos nesta montanha imaginária, observando o mundo, em silêncio, um pouco surdo aos apelos dos outros, para descobrir o tamanho real de nossas angústias. só então poderemos encontrar uma resposta autêntica — a resposta que serve a nós, e não importa se serve aos outros.

na iconografia do tarô, o Eremita geralmente carrega um lampião e um cajado. a luz representa sempre uma crença no futuro e a capacidade de encontrar um caminho, mesmo que o ambiente pareça soturno. um sábio nunca tem medo da noite e da escuridão, pois de certo modo contém uma verdade iluminadora. na mão, o cajado de quem não teme percorrer o mundo e sabe que a jornada é cheia de caminhos íngremes e áridos. quando mais sábio, mais movente.

para quem não conhece o tarô, esta carta parece um pouco assustadora. ela parece dizer que você está sozinho e não tem com quem contar. no entanto, é o oposto disso. esta é uma das cartas mais impressionantes dos arcanos maiores. significa que você pode contar com a melhor pessoa de todas: você mesmo. significa que você contém uma enorme sabedoria, mas talvez não esteja confiando plenamente no que já aprendeu, no que já reteve de informação sobre o mundo. esta carta representa sua capacidade intuitiva, sua voz baixa e poderosa, a necessidade de quietude para adquirir confiança em suas decisões. e significa, especialmente, que nada do que você viveu foi em vão: todos os seus aprendizados estão retidos, em algum lugar muito importante de sua mente, e é hora de fazer valer sua enorme inteligência para se fazer surdo aos valores dos outros e atento aos seus próprios rumores interiores.

8 comentários:

Cida disse...

Esse teu post parece que foi escrito para mim. Tô precisando me encontrar com esse eremita....E como depende somente de mim, já tô indo..
Obrigada pela aula de tarô e pelas reflexões que me deixaste.
Um abraço

Maroto disse...

fui identificada com essa carta em duas ocasiões diferentes e pensava que era sobre eu ser emburrada e solitária. Depois desse texto fiquei tão cheia de mim mesma que provavelmente virei uma carta menos bacana

Sean Hagen disse...

*




pois é.
em alguns momentos todos vivemos o eremita.
e até tiramos ele no tarot.
o aprendizado é constante.
e o caminho longo.




*

Rosamaria disse...

pinta, tu és tdb (tudibom, como diz a Thelma)!
um dia ainda vais colocar cartas do tarô pra mim.

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

obrigada márcia, obrigada mesmo!!! rs agora tô que nem a urubua...rs cheia de mim.. não, brincadeira... estou tirando meu tempinho pra ouvir a vozinha interna e não me contaminar pelos outros ...bjocas

Graziana disse...

ja tirei esta carta algumas veze e só agora, depois do teu texto estou entendendo tudo ;)

MC disse...

bah o alex tá viajando mesmo hehehe adorei o post! nunca botaram cartas pra mim, até pq nunca pedi pra ninguém e pq não entendo nada de tarô, mas adorei teu texto :)
ps: tu bota cartas? qto custa? te pago com uma caixa de doces de pelotas!!!! :P

ricardo disse...

caramba acabei de saber que este arcano e regente do meu nome e se fosse diferente com certeza nao pareceria tanto comigo seu post relatou exatamente quem sou, estou pasmo com tamanha coincidência.