05 julho 2007

seis por meia dúzia

poucas coisas são mais equivocadas, no Brasil, do que as eleições para senador. primeiro, porque o mandato é de oito anos, e não quatro. quem conseguir me convencer de que quatro anos é pouco tempo para um mandato legislativo ganha um doce. segundo, porque o eleito leva consigo um suplente de chapa. é a famosa eleição dois-em-um. se o titular morre ou renuncia, assume o suplente, e não o próximo eleito da fila.

este é um modo perverso de criar políticos obscuros. geralmente, os suplentes de senador vão na carona de nomes com mais tradição política e apelo popular. alguns são mesmo ilustres desconhecidos, mas detentores de grande capital. o fato é que sempre existe a possibilidade de que um suplente de senador assuma.

Joaquim Roriz (PMDB) acaba de renunciar a seu mandato no Senado. assume o suplente, Gim Argello (PTB). como diz José Simão, este é o país da piada pronta. só mesmo aqui poderíamos ter um senador chamado Gim Argello. pois Gim Argello (ai, meu deus) tem uma carreira esfuziante na política. ele foi deputado distrital. sim, foi deputado da Câmara do Distrito Federal por duas vezes.

Gim Argello (ai, me segura) é acusado de corrupção e de causar um prejuízo de R$ 1,7 milhão à Câmara Legislativa do DF. ele tem também uns probleminhas com a Receita Federal e uns outros processos correndo na Justiça. pensando bem, pode-se dizer que tem um currículo compatível com o Senado. Gim Argello (ai, cristo) é também um dos vice-presidentes nacionais do PTB. mas vou me abster de analisar esta parte do currículo do vivente.

Roriz renunciou quando percebeu que seria denunciado por quebra do decoro parlamentar ao Conselho de Ética do Senado. vale aqui a velha sabedoria popular, meu caro: “quem não deve não teme”. se renunciou, de pouco valem os discursos inflamados e a retórica contra “o furor da imprensa”. é incrível como alguns parlamentares, desacostumados a dar satisfação sobre seus atos, gostam de culpar o jornalismo quando ficam em maus lençóis. esquecem que ocupam cargos públicos, são pagos com dinheiro público, executam verbas públicas e por isso são homens públicos.

eu teria ficado um pouco feliz com a saída de Roriz, porque esta é uma grande derrota para um mau político como ele, embora preferisse vê-lo sendo julgado e punido, se isso não significasse a ascensão de um político do mesmo quilate. o que importa, porém, é debater uma reforma política que corrija uma grave distorção, e que está na raiz da eleição para o Senado. nenhum eleitor vota “numa chapa”. geralmente, o nome do suplente sequer é divulgado nas campanhas eleitorais. é propaganda enganosa. o eleitor é ludibriado e nem se dá conta. e o cara ainda fica oito anos no predinho do Niemeyer. sem contar o nome, né? o nome.

10 comentários:

Leonardo disse...

lamentável...

Alex Primo disse...

Corria o boato ontem em Brasília de que não apenas Roriz iria renunciar, mas também seus suplentes. Desse modo, novas eleições precisariam ser chamadas. E, claro, Roriz teria grandes chances de ganhar de novo, tendo em vista sua política populista de distribuir terrenos ao redor de Brasília.

marcia disse...

Leozinho, aqui a gente já tá meio acostumado. quer dizer, eu não. :P

Alex, ele bem que tentou esta renúncia em bloco. esqueceu que tinha um suplente louco para assumir e mais esperto que ele.

Maroto disse...

ah, como seria bom se esse tipo de coisa acontecesse só lá nos prédios do neméiar! Vejo, no entanto, o mesmíssimo comportamento nos locais de menor reputação arquitetônica e menor repercussão jornalística pelo Brasil afora. Queria mesmo era um milagre dos bons: a maioria sacana cai dura e verde no chão e os demais surtam e concordam em começar do zero ao invés de correr para as cadeiras vazias e continuar a festa. Pensando melhor, a arquitetura do neméiar também é uma droga, melhor o milagre incluir a derrubada daquela tranqueirada toda também.

Maroto disse...

putz, tô um baita urubu mau-humorado hoje, né?

Sean Hagen disse...

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e se botar mais gelo no gim, será que a gente o congela?



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Rosamaria disse...

Gin??? só com tônica!

Graziana disse...

e a saída pro Brasil nem pode ser mais o aeroporto..so se esperarmos horas e horas e ter sorte pra conseguir um lugarzinho num vôo

Ana disse...

Tudo culpa da imprensa! Humpf!

Carlos Eduardo Carrion disse...

O velho Catilina ficaria com inveja desta tua catilinária, só que, evidentemente, tu não és corrupta como Catilina era.