15 maio 2006

menos, coronel

vamos botar ordem no galinheiro. a cada um, o seu quinhão. a polícia que trate de garantir a segurança da população. o governo de São Paulo que trate de gerenciar sua polícia com competência, tendo em vista os altíssimos impostos que o estado mais rico do país recolhe em seus cofrinhos. e a imprensa que trate de entregar ao leitor o máximo de informação confirmada que puder coletar.

na confusão em que São Paulo mergulhou há quatro longos dias, mais de 80 pessoas já morreram. os paulistanos, evidentemente, entraram em pânico. escolas suspenderam aulas. lojas e igrejas fecharam. ônibus saíram de circulação. a situação é caótica, crítica, inusitada, aterrorizante, impressionante. cabem-lhe muitos adjetivos, menos “normal” ou “sob controle”. o comandante-geral da Polícia Militar paulista, porém, pensa diferente. o coronel Eliseu Eclair acha que o medo dos paulistanos foi causado pela imprensa, que estaria fazendo uma cobertura sensacionalista.

fico lembrando das inúmeras situações de crise que acompanhei na redação e imaginando o que os jornalistas estão passando para cobrir todos estes fatos desde sexta-feira. a polícia sonega informação porque quer deter o controle de tudo e imagina que, quanto menos as pessoas souberem, mais liberada ela fica para se concentrar no que “de fato importa”. a polícia esquece que informações vazam e que, em situações agudas, nada pode ser mais desastroso do que o boato. em vez de criar um canal de comunicação claro com os jornalistas, ela dificulta o trabalho da imprensa.

além disso, uma cobertura destas é um quebra-cabeças que se vai montando peça a peça, morte a morte, movimento a movimento, lutando para dar organicidade e sentido ao que se apresenta como puro caos. sem esquecer que os fatos são sensacionais e dizem respeito a medos, racionais ou irracionais, de todo ser humano — morrer por azar, perder um filho ou amigo, ser reduzido à mais humilhante impotência, não saber o que há na esquina seguinte.

a imprensa não é porta-voz da polícia. nem do governo. a imprensa é independente. sua obrigação é apurar fatos, cruzar fontes e entregar ao leitor uma informação verificada. sem sonegar, sem esconder, sem manipular para mais ou para menos. se um policial pára um carro em plena avenida Angélica no meio da tarde com um fuzil na mão e eu tenho esta imagem, lamento, comandante, mas é notícia. não é uma escolha, é um dever jornalístico. as imagens são muitas, porque o pânico está todo lá, acontecendo. é de causar pânico, sim, perceber o quanto o crime é organizado, o quanto os órgãos de segurança pública são incompetentes e o quanto estamos sujeitos a um rápido revés — quando o crime organizado quiser.

a cada um, o seu quinhão. a polícia que vá tratar de resolver seus históricos problemas de corrupção e de garantir a segurança da população. não faria mais que sua obrigação. e note-se que não estou julgando “os policiais”, pois isso seria leviano e injusto. estou julgando a instituição. enquanto isso, o jornalismo de verdade — não aquele que faz publicidade — que trate de nos alimentar com muita informação. não faz mais que sua obrigação.

5 comentários:

Cida disse...

Também não consigo entender como se tem a cara-de-pau de dizer que tudo está "sob controle". Só se for sob controle dos bandidos. O pior é que essa insegurança e essa violência estão tão próximas de nós,mesmo que estejamos muito distantes de São Paulo.Uma pena o que está acontecendo na terra da garoa e no nosso Brasil...
Muito bom esse teu post, assim como o da revista veja.

marcia disse...

pois é, Cida. mas foi assim: o líder do PCC mandou cessarem as rebeliões, e imediatamente elas cessaram. por telefone celular, claro. e com isso a onda de violência em São Paulo deve diminuir hoje. mas nossa certeza de que algo está terrivelmente errado só aumenta.

volte sempre. :)

Sean Hagen disse...

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estamos precisando de mais jornalistas como vc na redação, pintinha.
ética, profissionalismo e inteligência estão virando moeda rara.


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marcia disse...

xôn, se vc soubesse o tamanho da minha saudade. eu adoro aquela adrenalina.

Sean Hagen disse...

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mitu


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