06 setembro 2006

Shyamalan afundou

uma ninfa traumatizada e de olhos estatelados surge da piscina de um condomínio na Filadélfia e encontra um médico traumatizado que faz as vezes de zelador. assim é a história traumatizante de “A dama na água”, filminho B do diretor M. Night Shyamalan, aquele do excelente “Sexto sentido” e catástrofes posteriores.

se você vai ver o filme, pare de ler aqui. não há como falar sobre isso sem contar a história. falando em história, perceba que a ninfa se chama Story (pegou? pegou?). e a ninfa que se chama Story passa o filme todo andando apenas com uma camisa masculina, chavão da sensualidade íntima que reina no imaginário do figurinista (?).

a história que se pretende um conto de fadas é mais cheia de furos que um coador. Paul Giamatti (de “Sideways”) se esforçou para ser ruim, e nisso ele foi mesmo muito bom. o próprio Shyamalan, que se acha um Hitchcock, faz um indo-americano bonitinho e de cílios longos que sofre e fica emocionado com a expressão de uma geladeira. Bryce Dallas Howard (de “A Vila”), a famosa Story, é uma ruiva crespa e de olhar robótico que nunca se suja e sabe o futuro. mas sua melhor mágica é, em dado momento, ficar loira e de chapinha. se ela vendesse este segredo, ficaria milionária e nem precisaria esperar pela bendita águia que vai transformá-la em uma rainha. a águia, diga-se, está sempre atrasada — o que é uma pena, pois sabemos desde o início que o filme acabará quando a águia chegar.

o zelador de Giamatti tem pulmões magníficos. ele fica looooongos minutos nadando numa espécie de caverna, obviamente desconhecida pelos engenheiros incompetentes que projetaram a piscina. quando não consegue respirar, ele usa um canudinho para sorver o ar que havia dentro de um providencial copinho emborcado. tem o desastrado cão peludo, ou melhor, gramudo, que mata a vítima errada e só arranha a vítima certa. e tem a pureza interna de todos os personagens, que acreditam em qualquer absurdo que o zelador conta, sem jamais fazer qualquer pergunta impertinente, e imediatamente se descobrem sedentos por construir um mundo solidário. morri de inveja do zelador: isso é que eu chamo de credibilidade.

eu sei que é uma narrativa do fantástico que mistura mitologias diversas, mas, tendo sido colocada no cenário da vida real, precisamos de um pouco de verossimilhança para que as coisas façam sentido e assim possamos embarcar na história. e sentido é tudo que falta a este filme. minto: além de sentido, faltam ritmo, emoção e sensibilidade para inscrever a música e o silêncio. a história de Story (pegou? pegou?) vai se apresentando de forma tão explícita e linear, que é como se carimbassem “idiota” na testa do espectador. afinal, se tudo não for bem explicadinho, você não vai conseguir acompanhar, né? pois é.

agora, se você achava Andy Warhol pop, espere para ver a hilária cena do “simbolista” ou “intérprete”. quando chegou neste trecho, o único sexto sentido que fervia dentro de mim era o da fuga: corra, pinta, corra.

upgrade: leia o que Xôn pensa deste desastre aquático.

2 comentários:

fernanda disse...

o sexto sentido foi um surto do Shyamalan, de resto foi um desastre mesmo, mas eu tava esperando algo melhor desse filme. droga, mais uma decepção, a última foi com o Superman, eita porcaria das grandes. >.<

Sean Hagen disse...

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sopinhas joseph campbell.
e nem foi plágio, apesar de vc postar primeiro.


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