10 fevereiro 2007

ser banido




vi há alguns dias “A Noiva Síria”. é reconfortante assistir a um filme em que a música narra a cena, com força e precisão, ao contrário das orquestrações onipresentes que têm sido tão habituais no cinema hollywoodiano. música que sabe estar e sabe calar, na medida para tocar seu emocional. o árabe é tremendamente sonoro e belo, e então ouvir o filme é também ver o filme.

a história transita entre o drama e o humor — como a vida. lá estão representadas a burocracia burra e negligente, a morte em vida, a geopolítica que separa irmãos, a intransigência de uma religião moralista, a submissão imposta a certas mulheres, a falsa sabedoria dos conservadores.

o que poderia ser confuso para quem não vive cotidianamente a expatriação e as distinções entre drusos, sírios e israelenses torna-se inteligível. e torna-se inteligível porque o fio condutor são temores universais: de ser banido por uma decisão que outros não compreendem, de ser apartado de uma terra que você sabe ser sua, de ser tolhido pela força ilegítima, de ser julgado por outra cultura, da saudade terrível e antecipada de quem se ama, da política de gabinete que desconsidera o fluxo da vida.

a direção, do israelense Eran Riklis, não chega a ser um primor. mas o roteiro constrói diálogos econômicos e norteadores sobre as personalidades, os contextos e o que vai dentro de cada um. com uma fotografia árida, o filme cresce em direção à intimidade. o final é emocionante porque escorre para dentro do personagem central – que não é a noiva, nem a irmã. o protagonista é este herói arquetípico que decide enfrentar sua jornada. finalmente decide.

6 comentários:

Rodolfo De Carli disse...

o cinema de todos os países árabes é realmente impressionante. a trilha sonora marcante realmente conta um filme, que, normalmente, tem as dunas como cenário e a tristeza, a desgraça e a discplina como tema. outro filme de que me recordo é "Filho do Paraíso". só vendo para entender...

La Carmencita disse...

Com você, assim, tão romântica nos seus últimos posts, falando de noivas e enlaces, e depois eu percebendo que você (também) colocou meu nome na sua página (ainda que com letra minúscula), tudo o que me cabe neste momento é ficar com os olhos lacrimejando.

Shukran.

Um grande beijinho!

La Carmencita disse...

Ay! Me desculpa pela emoção. É que ainda é um choque lembrar daquele menino do Rio.

Nanachara C. disse...

quero ver...

Maroto disse...

esse teu post vai me dar a maior despesa - agora vou ter que gastar com baby-sitter, entrada de cinema, pipoca... depois ainda perguntam porque é que eu sou um urubu tão rabugento

Vitor disse...

pois falava com uma amiga agora mesmo sobre "exílio", do tony gatlif. viste? se não, veja. e me conta depois. teu texto, de certa forma, remete a este filme.