06 março 2007

nada e coisa alguma

o que o livro Fábulas Italianas, de Italo Calvino, tem a ver com o Big Brother Brasil? tudinho. uma semana de repouso forçadíssimo longe da internet, sem me mexer para nada além do básico (leia-se tomar banho e fazer xixi), bastou para ter certeza disso.

passei dias intercalando a leitura de Calvino, que neste livro reconta as fábulas que circulam oralmente na Itália desde tempos imemoriais – antes dos irmãos Grimm –, com loooongos períodos à frente da TV. meu sono incontrolável diante de episódios repetidos, receitas culinárias mal traduzidas e documentários sobre o sexo selvagem dos leopardos só arrefecia quando eu parava na Rede TV. com Sonia Abrão, a alquimista que comanda um negócio das arábias chamado “A tarde é sua”, tive um intensivo de como transformar o nada em coisa alguma.

durante duas horas e meia, ela vende duas motos em um “leilão ao contrário”, em que ganha quem der o lance mais baixo – o lucro, é claro, vem das ligações dos proponentes. ela também vende câmeras digitais e outras coisinhas, sempre sorrindo e se equilibrando em saltos altíssimos e um vestidinho questionável.

e sobre o que fala Sonia Abrão, no tempo em que não está vendendo coisinhas? ela fala sobre o Big Brother. a Rede TV gasta as tardes falando de um programa da Rede Globo. praticamente um pool televisivo. Sonia “debate” com dois convidados “especialistas” em BBB, sempre gente que pensa como ela. colunistas de TV e ex-brothers ficam ali, comentando o que acontece na casa, falando ao mesmo tempo, tonteando o telespectador e atacando de psicólogos de quinta categoria. Sonia é a rainha do requentado. não produz nada: lê textos publicados em blogs, mostra cenas do programa, xinga uns jogadores, exalta outros, e no rodapé da tela vemos aquela tarja permanente dos programas de baixo nível, com frases sensacionais que sempre prometem mais sensação do que podem entregar.

meu lema é “em Roma, faça como os romanos”. e assim fui conhecendo mais de perto os personagens desta edição do BBB. a casa está dividida entre a “turma do mal” e a “turma do bem”. exatamente como nas fábulas narradas por Calvino. Diego-Alemão, um loiro sarado que oscila entre o cafajeste e o bom moço, foi eleito galã. um príncipe loiro pelo qual suspiram as moçoilas românticas. todo príncipe requer uma princesa, e esta figura lendária foi encaixada, meio a força, na loira histérica Íris-Siri. peguei o episódio em que os apaixonadinhos foram emparedados pela turma do mal. depois, o dia em que a princesa foi defenestrada e seu herói jurou vingança. mais tarde, o episódio em que a turma do mal continuou sendo pérfida e colocou o príncipe de novo no paredão, agora com sua amiga Flavia, remanescente da turma do bem.

aos poucos, os maus eliminam os bons, mas o herói vai ficando para cumprir sua jornada. e ficará até o fim, a menos que cometa algum erro estratégico, pois parece que os brasileiros que votam (ah, como sorriem a Globo e as operadoras de telefonia) já caíram de amores pelo príncipe injustiçado. o povo adora fazer justiça, então deve dar 1 milhão de reais ao mártir bonitão.

o enredo é típico das fábulas, o mesmo mote repisado nas novelas e nos filmes heróicos. puro romantismo final de século, só que agora, como convém às histórias modernas, em vez de uma princesa que joga as tranças, temos mulheres que mostram a calcinha e rapazes que andam sem cueca. fala-se muito de sexo, mas praticar, que é bom, nada. a liberalidade é retórica, pois todo mundo tem medo de se queimar diante da alma puritana dos brasileiros que votam. e, convenhamos, a brincadeira vale 1 milhão.

a todas essas, eu já decidi. estou pronta para ganhar o BBB do ano que vem. cumpro todos os requisitos!!! minhas peninhas são loiras, portanto darei uma boa princesa. sou PhD em galinhagem. meu caráter também oscila entre uma pinta ingênua e uma galinha sacana. falo sobre sexo, mas, como sou apenas uma pintinha, só atiço e não faço nada porque papai não deixa. fico linda com qualquer fantasia de festa, rebolo como ninguém e levo todo mundo no bico. com aquele gramadão todo à disposição, acharei minhas próprias minhocas e nem vou precisar disputar comida. além disso, o prêmio é um milhão, e o povo não vai deixar de dar um baita milho a uma pintinha simpática. nada seria mais justo.

como perceberam, eu aproveitei o intensivão com a alquimista que transforma o nada em coisa alguma. e fiz um post enorme sobre absolutamente nada. piu piu.

14 comentários:

La Carmencita disse...

"nada além do básico (leia-se tomar banho e fazer xixi)"

Já pensou em usar Actívia?


Um grande beijinho!

ederson disse...

este ano estou me recusando terminantemente a ver o Big Brother.

e estou percebendo o grande poder do programa, que é assunto e notícia em todas as partes, e assim eu vou me inteirando das coisas que eu jurei não assistir...

quanto a Sônia Abrão, a lembrança mais marcante que tenho dela é do dia em que morreu o Claudinho (do Bochecha). Ela tentou, de todas as formas, fazer com que a esposa do cara caísse em prantos ao vivo. mas não conseguiu.

Maroto disse...

isso é que é ser eficiente, em plenas férias e aprendendo coisas importantes sobre a mídia brasileira e as estratégias comunicacionais. Estende o post mais um pouquinho que dá um paper :P

Rosamaria disse...

precisa saber transformar nada e coisa alguma num post como este, pinta. só tu mesmo!

piu, piu.

nana disse...

Puxa que saudade!!!

Só uma especialista consegue ver Sônia Abrão e ainda por cima falando de BBB....

beijinhos

Leonardo disse...

Começou o post ASPONE, terminou chefe.

Beijo,

Sean Hagen disse...

*



hedonismo.
decadência.
escatologia.
bestialidade.
luxúria.

deixa eu mostra isso pro teu pai.




*

Graziana disse...

adorei!
só vc pra transformar bbb e sônia abrão num texto ótimo ;)

>> [eRRuD!To] ... disse...

Arrume logo um amigo global, ano que vem acaba o contrato da Globo com a Endemol. E quando você ganhar pegue o microfone do Bial e recite "Use Filtro Solar". O Brasil merece essa vingança!

Ana disse...

Tu vai ficar sequelada, Pinta!

Mas um dia passa!

:P

rogerio disse...

Já vi que essas férias não fizeram muito bem. Como taxidermista-neo-apocalípto receito: volte ao repouso e dobre a dose de Sonia Abrão. Vai ver que dá mais certo.

Jousi disse...

A carnavalização do niilismo, que orgulho Marcita!

Que bom que voltou. Fez falta na blogosfera.

E um brinde a Baudrillard!

>> [eRRuD!To] ... disse...

obrigado =D

TARCIO VIU ASSIM disse...

Tem comentários que valem tanto quanto o post. O de la carmencita e o de Xon pegam o(a) piado(a) pelo rabo!
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Não vou ficar aqui tecendo elogios pra tu, mulé, quem sou eu? Cê sabe o que pode...
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a propósito, já pensou em mandar o texto pra Sonia ler no programa?
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:-)