18 fevereiro 2007

e pronto

dei uma oficina de texto esta semana na Fabico. na primeira aula, uma aluna disse: “é difícil, as palavras sempre fogem”. na hora me lembrei de um poema do Paulo Leminski:

RAZÃO DE SER

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

escrevo porque preciso. preciso porque estou tonto. e pronto. não tem que ter por quê.

por puro prazer, reli recentemente “Seis propostas para o próximo milênio”, do Italo Calvino. um livro inteirinho dedicado aos valores literários que, na opinião dele, deveriam ser preservados no século 21. um deles me diz muito, o que ele chamou de visibilidade. o texto é sempre uma tentativa de tornar visível uma idéia mental, de materializar discursivamente uma imagem. para escrever, é preciso ter coragem de viver a imaginação.

quando, há algum tempo, decidi estudar este campo magnífico do imaginário, as motivações não me eram muito claras. dizia para mim mesma que o motivo era minha crença de que o jornalismo expressa nossa humanidade, e nossa humanidade ancora-se em uma ancestralidade ou universalidade que é anterior à cultura. internamente, porém, eu sabia que meu interesse era egoísta, mundano e nada tinha a ver com a academia. eu estava interessada em nossa constituição arquetípica, que se revela em tudo aquilo que a ciência despreza: as cartas do tarô, as linhas da mão, as lendas, os mitos, os rituais, as bruxas, os enigmas, os sentimentos que atravessam a história sendo sempre retomados e recontados.

ao ler com mais afinco Jung, Bachelard e Durand, compreendi por que a imaginação foi sendo sistematicamente desprezada e encurralada no canto escuro da sala ao longo dos tempos. a igreja e a política não toleram a imaginação, pois esta é amoral. para uma sociedade regrada, parece fundamental transformar a imaginação na “louca da casa”.

o fato é que todos nós, em algum momento, ficamos tontos. e então precisamos expressar esta condição. as palavras nos fogem porque é difícil expressar exatamente o que sentimos, pensamos e desejamos. e também porque liberar nossos monstros internos tem um quê de perigoso: nunca se sabe o que o outro, em seu próprio gesto de interpretação, vai pensar de nós.

a maior parte de nós, porém, vive aprisionada na caricatura de um personagem que foi lentamente criado pela cultura e que nos diz como devemos ser e agir. o custo de permanecer na dramaturgia deste papel social é perder a chance de viver todas as outras personas que vivem em nós.

quando alguém me diz “não sei escrever” ou “não tenho talento”, eu vejo ali um sujeito criativo cerceado por uma crença: a de que as palavras fluem sem dor e sem esforço para quem “tem talento”. é um equívoco imaginar que escrever seja uma tarefa fácil. Hemingway reescreveu o parágrafo final de “Adeus às armas” trinta vezes.

por tudo isso, sou fascinada pelo mundo maravilhoso dos blogs. navego muito e sempre caio em páginas de que não gosto. para mim isso não importa. o que importa é que alguém escreveu o que queria, da forma como escolheu se expressar. se não gosto, não volto. se gosto, volto. e cada um que seja feliz com seus textos e suas palavras fugidias. eu mesma tenho outros dois blogs (não, não dou o endereço), onde exercito outras faces da minha imaginação. ninguém é um só. a imaginação é libertária. por trás de um anônimo ou de um personagem fake, existe uma faceta da personalidade de alguém real.

por isso, quando você quiser escrever, apenas escreva. reescreva. e pronto. não tem que ter por quê.

28 comentários:

Sean Hagen disse...

*



safadinha.
escondendo o ouro dos bandidos.
libera os endereços aí.
ou vamos ter que descobrir por meios escusos?




*

Rodolfo De Carli disse...

minha mãe sempre diz que, quando temos alguma coisa pra escrever, temos q fazê-lo. acredito que seja pra ninguém perder uma parte do seu eu.

Thelma disse...

Yessssss!!!! Nao queremos utilizar os meios obscuros que somos capazes de usar....e sao tao obscuros! Ficou com medo? Entao, fica...
Marcia, tu és uma artista da palavra! Quero participar de uma das tuas oficinas de texto. Seria o máximo! Admiro tua maneira clara de explicar as coisas...é a tua arte!

La Carmencita disse...

.




新年快乐 (S) / 新年快樂 (T) / xīnnián kuàilè (novo ano feliz)

La Carmencita disse...

"as cartas do tarô, as linhas da mão, as lendas, os mitos, os rituais, as bruxas, os enigmas, os sentimentos"

Esqueceu de mencionar a borra de café e as bolhinhas de espumante.

Há, porém, muitos cientistas que defendem fervorosamente mitos e rituais daquilo que vêem como onipresente. "Só esses é que valem".

A propósito, você prefere ser anônima ou fake?

Ah! Bem na hora. Acabo de receber um recado para você não se esquecer de levar lavanda. Um travesseiro, talvez.

Um grande beijinho!

Anônimo disse...

que belo poema, que belo texto.
obrigada por essas palavras. estou aqui, escrevendo minha dissertação durante o carnaval e esse post foi super inspirador.

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

marcia, tb tenho meus blogs anonimos/fakes...rs e adoro o calvino!!

Anônimo disse...

Logo eu, que mal sei mexer nesta tal de internét. Como é que eu vou achar estes endereços?

Maroto disse...

quase perfeito, pinta, só faltou acrescentar mais uns verbos: além de escrever, dançar, cntar, brincar, desenhar (já viu coisa mais reprimida que a nossa capacidade de desenhar)?

Rosamaria disse...

maroto disse tuuudo, pinta!!!

tu sabes como me sinto em relação a escrever, né?
eu pinto, mas sou limitada, não consigo transmitir nem na pintura o que sinto e não sei, definitivamente, desenhar.
dançar, agora, além de tudo, tenho os limites da idade, já não consigo sambar até lá em baixo e voltar, hehehe.
cantar, nem se fala, sou uma desfinada nata.
fui criada na época de repressão total. seria essa a causa, que, embora eu me esforçe, não consigo?

então, amiga, não te reprimas, passa o endereço dos teus blogs, todos vão adorar!

piu, piu.

vagem again disse...

ah, pinta, bem doutrinada pelos ensinamentos do rilke ao franz kappus, eu acho que tem que ter por quê, sim. ainda que isso só faça sentido ao próprio escriba.
o que não tem que existir é o como - num sentido bem menos amplo, é verdade. afinal, cada um sabe a dor e a delícia de escrever o que seja, do jeito que for. exceção feita, é claro, ao sujeito que alimente pretensões genuinamente literárias. neste caso, é mais do que recomendável que o candidato comece a aprender o caminho das pedras em gabaritadas oficinas de criação textual, como deve ser a vossa. voilá!
agora passa já as urls dos blogs, que é quase maldade falar do ouro sem mostrar o mapa da mina, sua danadinha!

Leonardo disse...

CAMPANHA PRÓ-PRIVACIDADE GALINÁCEA!!!

Pinta, não revele os endereços prá ninguém e continue curtindo suas personas levemente.

O puxa-saco,

Beijo,

La Carmencita disse...

Alguém poderia me definir essa persona de que tanto falam?
Isso é bom ou ruim?

Graziana disse...

escrever é difícil, mas também é um prazer que descobri com o blog
;)
adorei teu texto!

>> [eRRuD!To] ... disse...

ah... faz a oficina de novo. eu tb quero fazer... :o)

gledwood disse...

Um blog intelectual no português!

Por que é assim muitos deles aparece em sua língua quando eu pressiono a tecla seguinte aleatória? Blogging parece ultra popular em Portugual & em Brasil.

Alguém disse-me uma vez que os brasileiros (e americanos sul no general) não gostam realmente de ler livros - assim que lêem blogs preferivelmente? Há certamente uns muitos deles para fora lá.

O poço I faz um blog demasiado: é gledwood2.blogspot.com e você é a maioria de boa vinda a deixar cair perto se você gostar. Diga-me o que você pensa.

Ciao agora e todo o mais melhor a você.

Gledwood

La Carmencita disse...

You can leave your text in English, Gledwood.
Automatic translation tools don't work properly and the text becomes awkward.

Ana disse...

Entendi!!
Todas as palavras que fogem por aí se refugiam contigo, Pinta! E depois tu nos encanta, com cada uma delas!!
Tô na campanha do "libera os endereços dos outros blogs"!!!
:))

Carlos Eduardo Carrion disse...

Este trecho do Leminsky me remeteu a um outro que o Vargas Llosa usou como introdução do "El escribinhador".
Escribo, escribo que sueño que escribo, que sueño que escribo que sueño que escribo,...
Ou seja, que para escrever é necessário deixar o pensamento livre, poder pensar o impensável e treinar, treinar muito o por no papel. Sem ter medo de ler, reler, rasgar, rasurar, re-escrever. E, memo que mais tarde chegue a conclusão de que podia ter escrito melhor saber que nem sempre somos os melhores críticos de nós mesmos.
Carrion, o que ainda prescruta dentro de si para ver se descobre o prêmio Nobel da Literatura que é possível de existir num cantinho, ainda hoje inacessível, deste universo que é o cérebro de cada um. Ou pretensão pouca é bobagem.

Aleksandra Pereira disse...

Grande, Pinta!
Deve-se mesmo por para fora o que pensa, o que sente.
Se um determinado textou ou estilo não me diz nada, não significa que não dirá para outros, uma hora ele encontra seu público.

O que não podemos é nos cercear a imaginação só por pensar somente no final da corda, em como pensará quem estará lendo. Isso não é previsível, depende de tantos fatores... Eu mesma já li o mesmo texto em determinadas fases da vida, e tirei conclusões completamente diversas sobre conteúdo, mensagem...

O que vale é expressar, sentir. É mágico esse poder de assumir outras personalidades ou ainda mesmo facetas da nossa própria, e não experimentar ao máximo a potencialidade desse recurso, é uma pena.


Beijo grande para todas as suas facetas, minha querida.

Vivien disse...

Belo texto , Márcia.
Tb gosto muito de Calvino, to relendo Se um viajante e me deliciando com as redes, as indas e vindas do texto.
Mas outra coisa..outros dois blogs...olha so...fiquei curiosaaaaaaaaaa....rs

Ana Luisa disse...

tia to escrevendo só pq tu pediu...
hehehehehehehehehe

kpaz...

amo te...

bjooooo d'eu

ederson disse...

a clarice lispector tem inúmeras frases sobre escrever (são tantas, que ela deve se contradizer em várias). Uma delas diz algo como: escrever é como querer fotografar o perfume. Acho que faz um sentido imenso.

La Carmencita disse...

Como é que é? Já voltou?

Um grande beijinho!

La Carmencita disse...

Ainda estou esperando, dedilhando impaciente ao lado do teclado... Qualquer hora o esmalte vai lascar.
Sempre uma desculpa para experimentar uma cor nova.

Um grande beijinho!

Larissa disse...

na próxima oficina de texto, me avisa. sério.

Maitê disse...

Pinta, se vc quiser ser entrevistada, é só falar. Bjim

Anônimo disse...

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lolikneri havaqatsu