02 julho 2007

gritaria

pelo bem de sua natureza pública, o jornalismo deve parar imediatamente de usar o eufemismo ridículo “crise do setor aéreo” e começar a usar o termo que define o modo como as pessoas vêm sendo tratadas nos aeroportos: crime.

viajar não é um luxo. é um direito, ponto. você comprou sua passagem? pagou por ela? quando pagou por ela, não pagou também pela famosa taxa de embarque nos aeroportos que vai usar? então acabou a discussão. é seu direito entrar no avião e chegar a seu destino. inteirinho e com sua bagagem. ninguém faz favor algum ao lhe entregar este serviço. é regrinha básica do capitalismo. não queriam ser capitalistas? então que sejam.

não me interessa como o governo vai resolver a esculhambação e a falta de civilidade que está reinando nos aeroportos. não é problema meu, nem seu, nem de ninguém que compra e paga por sua passagem. eu suponho que as companhias aéreas só ofereçam os vôos para os quais estejam autorizadas. e suponho também que alguém se responsabilize por isso. não é o consumidor que detém este controle. o consumidor só controla sua agenda, sua conta bancária e suas opções de vôo. cada macaco no seu galho, e vamos parar com esta zona.

você chega ao aeroporto uma ou duas horas antes de seu vôo, mas não sabe quanto tempo vai ficar em pé numa fila. não recebe informações, e agora os painéis da Infraero também não estão sendo atualizados. quando você finalmente entra no avião, depois de horas esperando em condições absurdas, o fato é que o comandante também estava esperando e também está exausto.

Martha Suplicy deveria ter sido exonerada sem perdão depois da frase do “relaxa e goza”. a frase não foi “infeliz” (é o jornalismo dos eufemismos), como li em vários lugares. a frase foi estúpida, de uma ignorância inadmissível para uma ministra de Estado. Lula deveria tê-la demitido por justa causa. ela foi de uma mediocridade que ultrapassou muito o razoável, pois demonstrou que não compreende minimamente como funciona a economia de um país, muito menos como funciona o turismo, pasta que está sob sua responsabilidade.

as pessoas viajam pelos mais variados motivos. viajam a trabalho. viajam para ir a congressos. viajam para estudar. viajam para ir a funerais, ver pessoas doentes, fazer seus próprios tratamentos de saúde. viajam para ir a casamentos, namorar, se divertir, descansar e conhecer outros lugares. e tudo isso movimenta a economia de um país. mas nada disso importa. o que importa é: as pessoas viajam porque é seu direito, ponto. e pagam muito por isso. portanto, ninguém que tenha comprado uma passagem tem que se explicar ou ir para uma fila, com uma passagem na mão e malas atadas aos pés, gritar para embarcar.

a cobertura da chamada “crise do setor aéreo” virou uma grande burocracia. agora temos pequenas notícias com boletins fornecidos pela Infraero, e estes boletins nos dão estatísticas: a porcentagem de vôos normais, com atraso e cancelados. pessoas perdem embarques em seqüência, perdem compromissos, desistem de viagens. mas estas pessoas não existem para o jornalismo dos eufemismos. eu mesma já fiquei retida no aeroporto e perdi uma viagem para Recife. ao contrário do que Martha Suplicy possa pensar, eu ia a trabalho.

o que eu sei, e o que qualquer jornalista com um mínimo de sensibilidade pode ver, é que pessoas estão sendo tratadas como lixo nos aeroportos. isto não é crise, embora certamente seja caos. isto é crime. e crime merece responsabilização e punição. confesso que eu estou indignada com tudo que estou vendo acontecer. como diz a Penkala: bandiputo. tá na hora de começar a gritaria.

atualização: o primeiro texto da ombudsman do UOL, Tereza Rangel, é exatamente sobre este tema. você pode ler aqui.

15 comentários:

Alex Primo disse...

Não importa tanto que se fale em "crise do setor aéreo" ou "crime". Tanto faz. O brasileiro continua sentado assistindo a notícia. Apenas se revolta em silêncio. E quando alguém se irrita e faz alguma manifestação no aeroporto, a mídia mostra o cara como um mero descontrolado.

marcia disse...

pois é... é incrível como somos cordatos e conformados (como povo, de modo geral).

mas sabe que eu acho que faz diferença o modo como as pessoas são denominadas? "crise" parece uma coisa passageira (sem trocadilho) e inevitável. já crime traz a idéia imediata de quem alguém é responsável e deve ser julgado e punido, pois existem vítimas.

a tal "crise" se arrasta desde o início de novembro do ano passado. são oito meses de caos intermitente. se você tiver sorte, vai pegar um dia bom. se tiver azar, vai ficar horas em pé e chegar atrasado e exausto.

deixou de ser só um desaforo. está virando um baita desaforo.

marcia disse...

ops... como as "coisas" são denominadas, e não as "pessoas". :P

Rosamaria disse...

supimpa como tudo o que escreves!

eu esperei só 5 horas e não tinha compromisso, imagino o raivão que dá em quem tem.

Maroto disse...

Agora está mais evidente nos aeroportos, mas as pessoas são tratadas como lixo no Brasil há um bom tempo. Há tempo demais. Enquanto reagirmos a isso tratando-nos uns aos outros também como lixo, não haverá solução possível.
É por isso que eu digo, minha prima Pinta: aves, uni-vos, porque os humanos não voam mais nem de avião e não parecem ter garra suficiente para piar.

marcia disse...

Rosa, vc pintou as unhas, que eu sei. vê se pode. haja paciência.

Priminha, é isso aí. Lady A. escolhe a trilha. Xon cria as palavras de ordem. MC pinta as faixas. eu toco a cornetinha.

maristela bairros disse...

Parabéns! Passageiro de avião também é gente, ué. Só porque não quis enfrentar 40 horas de ônibus tem de ser discriminado?
bj
maris

Maitê disse...

Oi Marcia. Acho que vc está super certa. Um ministro chegou dizer que o caos teria sido provocado pela prosperidade do brasileiro. Pessoas, tipo eu, podem pagar por passagens. Sabe, isso me revolta. Ninguém ssabe o que estão fazendo. Os controladores estão brincando com milhares de vida e os bananas não fazem nada. Imagina passar mais do que um dia em um aeroporto, onde tudo é o triplo do preço também, pra mim, já bastaria para eu entrar na justiça;. O problema do Brasil é esse. Enquanto não ocmeçarem a processar o governo, a coisa não vai andar. A gente tinha que fazer que nem os americanos, nesse sentido. Tudo ia melhorar. Bjo

Luís Felipe disse...

e não é que o Juremir vai escrever quase todo dia para o jornal do bispinho?

(retomando tema antigo)

>> [eRRuD!To] ... disse...

e não é um problema passageiro.

Leonardo disse...

Veja aí, neném:
Vôo da Delta

Leonardo disse...

http://youtube.com/watch?v=R06dAgpmmbg
:'\

ederson disse...

no programa da kátia suman alguém escreveu reclamando que a imprensa só fala de problema de classe média. ninguém vai na rodoviária dizer que os ônibus para Morro Reuter estão atrasados.
eu, obviamente não concordo. mas continuo achando ônibus uma opção de transporte mais acertada. a paisagem na janela muda a todo minuto e ele já está no chão.

Graziana disse...

bom, devido o caos e a falta de promoções vou de ônibus, ver a paisagem é bacana, levo uns livros pra ler, umas musiquinhas pra escutar....

concordo com tudo que disseste. parece que ninguém faz nada pra organizar o espaço aério e a tv sempre mostra as pessoas reclamando, como se fossem descontrolados, como mesmo disse o Alex... é uma vergonha...

Daniela disse...

Eu lembro quando viajava muito a trabalho e achava boa a perspectiva da viagem. Agora, é um suplício, quando dá tudo certo você se estressa igual, porque fica na expectativa dias antes de que vai dar tudo errado. Chique é viagem de ônibus, sai no horário, raramente atrasa, e ainda tem paisagem. O problema é quando é muito longe. Ou não, porque tem gente demorando 2 dias para vir do Rio até Porto Alegre.