31 agosto 2007

os senhores



fui apresentada ao texto do angolano Gonçalo M. Tavares ao ganhar “O Senhor Kraus” (editora Casa da Palavra) como presente de aniversário. após ler este primeiro livro foi inevitável comprar outros dois, e assim já devorei “O Senhor Juarroz” e “O Senhor Brecht”. até o início de agosto, eu nem sabia que Tavares existia. hoje me pego pensando como, diabos, eu podia não saber que texto tão irônico andava por aí, me esperando de modo tão paciente.

Gonçalo Tavares é um escritor jovem e de raro talento. tem um texto rápido, do tipo que admiro. sua erudição está nas idéias, e não em um estilo empolado. não escreve sem antes ter arquitetado um jogo complexo do pensamento. a partir disso, são narrativas curtas. o que é preciso dizer está contido nesta arquitetura de um conceito que ele planejou criteriosamente.

é assim nesta coleção que Tavares chama “O Bairro”, em que cada personagem ganha o nome de um romancista, poeta, dramaturgo ou filósofo: Pirandello, Voltaire, Eliot, Calvino, Beckett, Woolf, Gogol, Rimbaud, Mishima, Borges, Proust, Pessoa, Breton, Wittgenstein, Brecht, Juarroz, Kraus.

Tavares busca nessas referências algo de particular para desenvolver, em seus personagens, partes de nossa humanidade. em Kraus, jornalista e poeta austríaco de fala ácida e cortante, busca a crítica à burocracia e à burrice do ser humano. é de Karl Kraus o famoso aforismo: “o diabo é um otimista, se acha que pode tornar as pessoas piores do que já são”. é neste espírito que Tavares cria o irônico “O Senhor Kraus”, em que o personagem observa o cotidiano de um Chefe e seus Auxiliares no exercício do poder.

coloco abaixo dois trechos do livro. são emblemáticos da estupidez que grassa em certos meios. eu, pelo menos, identifico o refinamento que o escritor alcança ao expor de modo cru um certo pensamento obtuso que parece surreal, mas que por vezes é palpável, real, cotidiano e inacreditavelmente concreto.


"O chefe que gostava de movimento — 1"

O chefe gostava da mudança porque não gostava de estar parado. E não gostava de estar parado porque gostava de mudança. Eram estas as suas idéias sobre o assunto. O Chefe tinha outras idéias, mas sobre outras questões. Sobre estar parado e movimentar-se eram estas as suas idéias. Duas.

Tentava alternar. Por vezes orgulhava-se de uma delas, outras vezes da outra. O Chefe dizia:

— Chama-se a isto propriedade comutativa da linguagem. Tal como dois mais três é igual a três mais dois, não gostar de estar parado é igual a gostar de movimento. E mais: gostar de movimento é igual a não gostar de estar parado. Não sei se me entenderam?

Os dois Auxiliares tinham entendido.

— Portanto — disse o Chefe, apontando para um deles — você!
— Eu?!
— Sim, você!
— Que fiz eu?
— Nada. É esse o problema. Precisamos fazer coisas. Não podemos estar parados. Já vos expliquei a questão da propriedade comutativa?
— Já, Chefe. Gostamos muito! Dá cinco. Três, mais dois, dá cinco.
— Pelos vistos não percebeu. Não importa o resultado. O que importa é o movimento. Entende?

Os dois Auxiliares entenderam. Pela segunda vez.

— Pois bem. Os dois, agora, mantendo-se sentados, vão bater com os pés no chão, muitas vezes, até eu mandar parar. Não param até as eleições!
— Que bela idéia, Chefe!


"O Chefe que gostava de movimento — 2"

Permanecendo sentados, os dois Auxiliares estavam há vários dias a bater com os pés no chão. A sola dos sapatos parecia lentamente desaparecer e, por dentro das meias, cujo tecido praticamente evaporara, os pés ardiam, como próximos de uma lareira. Um e outro já tinham várias feridas nos pés. No entanto, o sorriso aberto na cara dos dois Auxiliares jamais afrouxara. Era preciso movimento, movimento! — dissera o Chefe. Até as eleições.

— Alto! — gritou, de súbito, o Chefe, levantando o braço.
— Lembrei-me de que poderíamos fazer um movimento que implicasse uma mudança no espaço.

Os dois Auxiliares ficaram espantados, boquiabertos.

— Com mudança de espaço!
— Espaço, como?
— Oh, Chefe, mas isso...
— ... não poderá ser... precipitado?
— Os nossos adversários não estão à espera de um corte brusco — disse o Chefe. — De vez em quando temos de mudar por completo os nossos objetivos e a nossa forma de agir.
— Mas são quatro da tarde...
— É o momento de se levantarem.
— Excelente idéia, Chefe.
— Muito bem.
— Pensei então nisto. Vejam lá o que vos parece esta minha solução. Os dois vão trocar de cadeiras — continuou o Chefe. — O Excelentíssimo Auxiliar vai para a cadeira do Excelentíssimo Auxiliar. E o Excelentíssimo Auxiliar vai para a cadeira do Excelentíssimo Auxiliar.
— Chefe, não percebi exatamente como...
— Eu também... — murmurou o outro.
— Explicando melhor. O Excelentíssimo Auxiliar da minha direita vai para a cadeira do Excelentíssimo Auxiliar da minha esquerda. E o Excelentíssimo Auxiliar da minha esquerda vai para a cadeira do Excelentíssimo Auxiliar da minha direita. Isto, ao mesmo tempo.
— Ao mesmo tempo?
— Sim, e vice-versa.
— Vice-versa?
— Exatamente. Depois ficam na nova cadeira uma hora, hora e meia...
— Muito bem.
— ... sempre a bater com os pés no chão.
— Os pés...
— ... e depois: vice-versa outra vez.
— Vice-versa outra vez como, Chefe?
— Mudam outra vez de lugar.
— Só há duas cadeiras, Chefe.
— Vice-versa duas vezes — questionou ainda, com um leve murmúrio, o outro Auxiliar — não é o mesmo que ficar tudo como estava antes?
— Não, porque é vice-versa ao mesmo tempo. Ou seja. Você troca de lugar com o seu colega, ao mesmo tempo que o seu colega troca de lugar consigo. Entendeu? É um vice-versa ao mesmo tempo. Um conceito estratégico.

Apesar de um ou outro engano, os dois Auxiliares cumpriram depois escrupulosamente as instruções.

Vice-versa simultâneo e movimento no espaço!, como o Chefe estava contente.

7 comentários:

Penkala disse...

é no surrealismo que se acham as maiores verdades sobre o mundo, né?

fora que, bom... falta bem pouquinho pra esse texto ser descritivo de qualquer relação chefe-vassalo.

eu quase me senti uma exma. auxiliar aqui.

Telejornalismo Fabico disse...

*




tanta coisa pra ler, ver, ouvir, fazer.
e tão pouco tempo.
mais um anotado.




*

Reges Schwaab disse...

Saramago diz que é uma covardia alguém de 30 e poucos anos escrever tão bem.

Li Jerusalém. Se quiser, está "Alceu Dispor".

Esses livros são do tipo "coxudos".

Anônimo disse...

Hauiahuai! Bem lembrado, Reges!!... Gostei da doideira sobre movimento.

Principalmente a primeira parte! Me explicou a dialogia como as baratas explicaram semiótica pra Penkala! :P

Eu não sei, você sabe? disse...

dica anotada...!

beijos pra boa pinta.
tita

Anônimo disse...

Comprei o Sr. Kraus e o Sr. Brecht! Que 'ótiminhos'... Amei a dica! Brigadita, Pinta querida!

Anônimo disse...

ha! apurado. apuradíssimo!