04 agosto 2007

ovos podres

há algo de podre no reino da Dinamarca. e a Dinamarca é aqui. a ciência avança, a tecnologia avança, os índices de analfabetismo diminuem. em tese, vivemos em uma sociedade cada vez mais civilizada, em oposição a uma era que teria deixado de ser primitiva. não é, porém, o que se percebe no comportamento cada vez mais autocentrado de grande parte das pessoas.

ontem estávamos esperando um sinal abrir, em meio ao trânsito caótico da Cristóvão Colombo. uma calçada destruída, como a maior parte das calçadas da Porto Alegre de Fogaça, era páreo duro para um cego que tentava caminhar. e lá vinham três garotas adolescentes, com suas mochilas caras e suas roupinhas caras. em vez de guiar o cego, o que teria tomado uns 40 segundos de seu precioso tempo, elas riram dele. não, elas gargalharam. na cara dele. que é cego, mas não é surdo. e tem sentimentos, vejam só que coisa incrível.

não é difícil imaginar que espécie de crianças sem limites e sem noções de compaixão estas garotas foram, nem é difícil supor em que tipo de mulheres elas irão se transformar. de certo modo, elas serão como a grande massa de seres de seu tempo.

hoje leio que Boninho, aquele gênio que nos deu de presente o maravilhoso Big Bosta Brasil, o programa que vai do nada a lugar algum e que enche de dinheiro a Rede Globo e as companhias de telefonia, aparece em um vídeo no Youtube dizendo que se divertia atirando ovos podres “em muita vagabunda em São Paulo”. claro, como é um ser altamente qualificado do ponto de vista moral, ele sempre esteve apto a fazer a crítica do comportamento alheio, inclusive uma crítica ovística. e, sim, do alto de seu prédio ele também sabia identificar se uma mulher era “vagabunda” (seja lá o que isso significa, perguntem para ele) ou não era. só não sei se joga ovos na tela da TV enquanto assiste ao programa que ele mesmo dirige todo ano na Bobo. a Rede Globo disse que Boninho não falou sério. estava brincando e “sendo irônico”. aham. a gente notou. não precisavam nem ter se dado ao trabalho de explicar.

no mesmo vídeo que circula no Youtube – e que misteriosamente desaparece de forma sistemática –, a relevante socialite de nome auto-explicativo Narcisa Tamborindeguy confessa que também adora jogar ovos e comida nos outros. mas ela também joga flores. ah, bom.

o dia lá fora é cinza e úmido, e confesso que combina com minha percepção sobre o vazio e o prazer imediato que move muitas pessoas. a alteridade é um conceito em baixa. o outro não existe, portanto não tem sentimentos. talvez seja mais fácil viver assim, pois não preciso parar para pensar se meu prazer sobrevive aos limites do outro. não sei que espécie de sociedade, de modo geral, estamos construindo. infelizmente, Shakespeare continua atualíssimo.

17 comentários:

carmen abreu disse...

É impressionante como o ser humano consegue ser insensível, tem dias que eu fico totalmente descrente da sociedade. Estamos vivendo em um mundo onde os sentimentos alheios são inexistentes, o que importa é o meu umbigo o do outro que se dane. Fica complicado visualizar um futuro diferente, mas é preciso ter esperança.

clarice disse...

Será que o Boninho atira ovos nas participantes do Big Brother, antes de cada tomada??????????

Maroto disse...

não é o outro, no sentido de a outra pessoa, que não existe - é o outro neurônio, no sentido de conseguir dois para fazer uma mínima conexão e raciocinar um pouquinho que seja! O analfabetismo diminui e a ciência avança, como você disse lá no início, mas a burrice só aumenta.

As pessoas não sabem a diferença entre não ter padrões de comportamento impostos a elas e não ter necessidade de balizar o próprio comportamento. Depois que deus morreu, o pessoal passou a achar que pode rir de cego, jogar ovo nos outros e tudo o mais que sabemos porque, bem, não se vai pro inferno mesmo.

Maroto disse...

ôps, melhor alertar - não inventem de ressucitar o cara, porque um deus zumbi também tem tudo pra não dar certo

Luciana S. F. disse...

É verdade.. coisas desse tipo acontecem todo o dia. Houve épocas em que eu perdi a esperança e achei que não pertencia a esse mundo, bem, ainda acho isso! Mas por outro lado, há pouco tempo atrás me surpreendi em conhecer pessoas maravilhosas, adolescentes e adultos com uma cabeça que me fizeram acreditar que nem tudo está perdido, então vamos continuar acreditando que ainda tem solução..

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

ahh isso me irrita e me deprime ao mesmo tempo.. tu não tens idéia do quanto...

Penkala disse...

de início, isso me choca. depois eu fico puta comigo mesma, de estar chocada. afinal, a humanidade não é lá muito gente boa o suficiente pra uma coisas dessas ser surpresa. daí me dá uma profunda depressão. porque eu não creio mais no mundo e porque eu estou perdendo a capacidade de pensar que pode ser possível arrumar o mundo.

esses tempos acompanhei três episódios de um programa onde uma inglesa extremamente bem engajada tenta entrar numa família e transformar todos os hábitos mais anti que eles têm (ensinando desde como economizar água até como separar resíduos e desperdiçar menos comida). não acreditei quando em DOIS PROGRAMAS duas pessoas diferentes tinham o mesmo hábito: jogar fora as roupas que não usavam mais ("novas, mas fora de moda" ou "já cansei delas"). eu GRITAVA na frente da televisão. me revoltou o estômago. e eu permaneço o tempo todo assim, revoltada. no fim das contas, a gente adoece e fica amarga por dentro por conta da "diversão" que os outros encontram em serem CRETINOS.

(desculpa, Pinta, ocupar esse espação. eu meio que acabo não medindo quando desabafo)

Maroto disse...

logo na Inglaterra vão jogar roupa fora... eles têm uma rede de brechós lá, criada pela Oxfam, que vende roupas de segunda mão super maneiras e a grana vai para projetos na África (tipo ensinar a limpar a água dos poços para beber, programas de alfabetização, de amamentação, umas coisas super legais). Mas, como eu disse, falta inteligência - também foi na Inglaterra que aprendi a expressão 'to have more money than sense'. Parece que quanto mais money menos sense :(

ederson disse...

pois estava eu a assistir uma canal de TV a cabo, um tal de VH1, quando me deparei com um programa feito numa escola tradicional da Inglaterra (ou seja, só pra ricaços). Me espantei não só com as roupas à la Harry Potter que eles usam, mas com toda uma educação impressionante que eles têm e um conhecimento de coisas que nem chegam a passar pelos pensamentos de um professor de primeiro grau daqui.
e daí eu dei uma leve comparada com os estudantes das escolas ricas daqui e pensei "ih, que bosta!".

Reges.ts disse...

espero que isso dure até a estréia do próximo BBB e que as manchetes não esqueçam de relembrar em alto e bom tom quem é o diretor do programa. se servirá para alguma coisa. por menor que seja, já vale.

Fabi disse...

Tenho pena de pessoas assim... vazias.
Mas o povo gosta, né?
Como é bom ver o circo pegar fogo...

Lamentável.

Cida disse...

Tá parecendo que o prazer estar em humilhar pessoas menos favorecidas. Onde estão os valores familiares e humanos dessas pessoas que apareceram no vídeo?
o Marcelo Tas conseguiu uma fonte que mostrou a "diversão" dessas pessoas vazias.
http://marcelotas.blog.uol.com.br/arch2007-08-01_2007-08-15.html#2007_08-03_13_46_28-5886357-0

Graziana disse...

é lamentável.
pra não falar daqueles guris que bateram na empregada doméstica no RJ, aqueles que queimaram o indio em brasilia, entre outros casos que nem são divulgados, que aocntecem diariamente...

Rosamaria disse...

a gente fica indignada, né, pinta? mas hoje ouvi uma pior ainda: os destroços do avião da TAM foram saqueados e entre muitos objetos e documentos roubados, num celular teria o apelido de um deles: pretinho, ou negrinho e, claro, o nº da mulher dele. pois tu acreditas que alguém teve a coragem de ligar pra ela, se passando pelo marido, que ela sabia que estava morto?
eu teria coragem de arrancar cada fio de cabelo deste vagabundo - com pinça.

o boninho que se cuide!

Rosamaria disse...

ops! não foi da TAM, foi da GOL.

Sean Hagen disse...

*



não tenho pena de gente escrota.
e não acredito na redenção dos humaninhos.
quem é mau, é mau.
e merece porrada.


sempre que posso, eu bato.
pouco me importa se o cabelo roxo e as pérolas da vovozinha vão voar longe, se o mp4 da adolescente sarada se esaptifar no chão, se o terno caro do executivo se manchar de sangue.
adoro uma briga.
e com gente escrota, mais ainda.
porrada neles.
u-hu!




*

Lu disse...

Acho que o pior ainda não são as escolas e sim as familias, a sociedade que não tá nem aí pra ninguém. Cada um cuidando do seu umbigo.As pessoas não tem o mínimo de respeito por nada. Outro dia quase fui atropelda na Riachuelo quando um carro IA entrar á direita, o que é proibido. Parei na frente dele e mostrei a sinalização de que era proibido. Ele deu meia volta e seguiu a Borges. Como isto foi um MILAGRE, não me arrisco a fazer mais,mas boto a boca, mesmo que não me ouçam, ou finjam que não.