15 dezembro 2007

figos

em um exercício de liberdade, troquei hoje compromissos protocolares pela abertura de uma valiosa janela no tempo. submergi na leitura de um livro pequeno, de capa branca e fotos coloridas de tamanhos variados. valiosa peça de edição criteriosa e bem cuidada, que o pai de Gabriel Pillar, Valério, teve a gentileza de me deixar em um envelope igualmente branco. um presente em papel couché cujo alcance é difícil dimensionar.

Gabriel, como muitos sabem, morreu no ano passado, aos 22 anos. em uma vida fisicamente curta, há uma perenidade que se impõe em imagens que ele registrou – o mundo, a vida, as pessoas. um fotógrafo capaz de narrar o vento. um olhar realmente prodigioso para capturar sentimentos e silêncios.

mas há mais. o mergulho nas imagens não é quase nada, emocionalmente, quando comparado ao mergulho nas palavras. sou especialmente atraída por palavras. para mim, elas dizem muito, pelo que têm de poético, subversivo, plural, escondido, promissor. sou terrivelmente seduzida por pequenos enunciados criativos, pois penso que revelam tanta grandeza interior e depositam tanta confiança na inteligência do outro, que não me é possível ficar indiferente.

em um mundo no qual todos os dias, quase o tempo todo, a indiferença e o mesmo imperam sem poesia, sem riqueza e sem esperança de beleza, mergulhar em palavras que me dizem algo é mais, muito mais, do que costumo receber.

o livro, que tem edição limitada, pode ser baixado em pdf aqui. algumas palavras de Gabriel que me fazem sorrir por dentro estão a seguir.

“A solução pra vida naquele momento parecia andar no meio da noite de lente em punho, tentando captar essas cousas que são realmente intransmissíveis.”

“Diante do Grande Nada a vastidão nos deixa introspectivos, com direito inclusive àquele papo de ‘nosso lugar no universo’, ‘existe vida lá fora?’ e até breves tentativas de descobrir a natureza da mente. Já eu e minha urbanidade ficamos comendo figos e nos deliciando com as maravilhas de acordar às 5:15 da madrugada para ver o sol.”

“Sempre escrevi pra mim mesmo. Me referia a um suposto leitor plural, mas no fundo no fundo, era apenas eu. Ou melhor, vários eus.”

“A lua insiste em parar na minha janela e prazer em conhecer-te são as únicas palavras que me restam.”

“O mundo conspira ao meu favor, e eu apenas sorrio e digo venha.”

5 comentários:

Reges.ts disse...

a vida mora nas palavras
em algumas se esconde
espera nossa busca
em outras se esbalda e sorri

sensibilidade
aí vê-se tudo isso

Maroto disse...

não conheci o Gabriel. Aliás, só ouvi falar dele depois do acidente. Mesmo assim, o que ouvi/li dos amigos me levou a gostar muito dele. Queria acreditar em vida após a morte para poder pensar que ele sente esse amor todo que jorra do lado de cá por conta do tempo em que esteve presente

Rosamaria disse...

"O mundo conspira ao meu favor, e eu apenas sorrio e digo venha.

Triste pelo que aconteceu depois.

Graziana disse...

belas imagens, vou ler o livro ;)

M.R. disse...

também amo enunciados criativos!
vou olhar o livro
beijokas