30 abril 2007

na cama com ma che donna!

uma certa Urubu me passou a tarefa de listar os personagens da literatura que eu levaria para a cama. bem, eu sou um pouco tarada, então de saída eu levaria muitos, embora não ao mesmo tempo para não gerar debate literário, pedidos de aparte ou questões de encaminhamento do tipo “companheiro, está demorando muito, agora sou eu”, essas coisas. como este é um blog patife e quase sem critério, eu traçaria estes:

1. Drácula, de Bram Stocker. para quem me conhece, esta é uma escolha óbvia. consciência de si, destino, vontade, perversão e poder sexual. tudo de bom, mesmo com o risco da imortalidade notívaga. sem contar o estilo. ah, o estilo.

2. Petrucchio, de Shakespeare. é, aquele que transformou a insuportável megera Catarina numa escravinha dócil, submissa e feliz. ele foi um pouquinho rude, é verdade, mas não podemos negar que lhe sobrou personalidade. eu mandava ver sem perdão.

3. Meursault, de Camus. puro hedonismo e negação não vitimizada de deus. a Adriana diz que ele fala demais. mas nada que uma boa mordaça não resolva. há também vários modos de ocupar aquela boquinha existencialista.

4. Alex Portnoy, de Philip Roth. sarcasmo comendo até o osso. suas confissões sexuais para o analista e o mundo interior que se abre são muito excitantes. o cara é um devasso. pode entrar.

5. Philip Marlowe, de Raymond Chandler. o detetive durão que mapeia a sala com o canto do olho, protege “a pequena” e segura o sentimento no nozinho da garganta. ui ui ui.


há muitos que eu não encararia, mas vou citar só um. este, nem com um estilete no meu pescocinho de pinta:

o jovem Werther, de Goethe, que começa a sofrer já no título. detesto este povo sofredor. que porre, não?

27 abril 2007

22 abril 2007

missão introduzir

é chato ser celebridade. um dia o cara acorda e virou um vibrador. pior: virou um consolo anal. foi o que a empresa Holesome Fun fez com Tom Cruise, em uma espécie de homenagem. o objeto, por assim dizer, foi batizado com o sugestivo nome “Missão Introduzir”, em um trocadilho com “Missão Impossível”. eu diria que, a julgar pela imagem do consolo, é quase impossível mesmo, porque é tão grotesco que não tem como não cair na risada.

Tom Cruise não gostou, é claro, e está processando a empresa em 50 milhões de dólares. a mesma matéria do site O Fuxico — onde eu fico sabendo estas coisas importantes — diz que o presidente George W. Bush também virou um consolinho e que você pode ter prazer com seu Bush por apenas 50 dólares. piu piu.

nasce um filósofo

um guri de uns seis anos abre os braços grandiloqüentes no supermercado, diante de maravilhosos queijinhos:

- pai, se isso tudo fosse de grátis, tu comprava?
- filho, não é “de grátis” que a gente fala, é só “grátis”.
- tá (ainda de braços abertos). mas se fosse grátis, tu comprava?
- filho, assim: quando é de graça, a gente não compra, entende? a gente ganha.
- ai, pai... (tipo: “o que eu fiz pra merecer este pai”, e fechando os bracinhos) mas isso ia ser bom, né?
- ô, se ia ser bom...
- tá, então não interessa se eu tô falando direitinho, né?

quase trouxe o prego pra casa.

19 abril 2007

um plus a mais


o louco



de todas as cartas do tarô, a que mais me fascina é O Louco (ou O Tolo). não por acaso, é a primeira carta dos Arcanos Maiores. é o herói que inicia sua jornada, representado, nos mais diversos baralhos, como um idiota ingênuo que caminha sem olhar onde pisa. em algumas iconografias, ele caminha precisamente para um abismo, levando apenas uma trouxinha nas costas. a despeito da tragédia que o espera, está feliz. e ainda tem a companhia de um simpático vira-latas.

quem conhece o tarô sabe que estamos tratando de arquétipos. e quem conhece Jung e sua arquetipologia, sabe que isso é a vida em seu mais puro psiquismo. não se trata de reconhecer o tarô como ciência ou de lhe dar um estatuto de adivinhação sobre o futuro. francamente, esta é uma discussão que me interessa muito pouco. o que realmente me interessa é compreender a jornada arquetípica dos Arcanos Maiores e o significado dos quatro elementos (água, fogo, terra e ar), no caso dos Arcanos Menores.

o Louco está em você quando você inicia uma jornada. o pressuposto é que a vida é formada por ciclos. mas um novo ciclo só acontece quando outro se encerra, o que significa que algo deve terminar para que outro algo possa começar. e então temos as dificuldades operacionais de abrir espaço, interiormente, aos nossos Loucos.

primeiro, porque geralmente não permitimos que os ciclos se encerrem. temos grande dificuldade em deixar pessoas e projetos “irem”. às vezes isso soa como perda (e pode ser), outras vezes entendemos como fracasso. nossa cultura não nos habituou ao desprendimento, especialmente em relação ao outro. nem sempre vemos que deixar alguém ir, o passado ir, é um ato de generosidade e de coragem.

segundo, porque geralmente temos medo do desconhecido. outras rotinas, com outras pessoas, desafios, linguagens e propostas são coisas que podem nos desestabilizar. é preciso ser um pouco Louco para aceitar começar tudo de novo, colocar uma trouxinha nas costas e ver no que vai dar.

terceiro, porque não admitimos que somos seres altamente imaginativos. estamos tão empenhados em fazer sucesso, obter reconhecimento e ser desejados, que deixamos de lado qualquer coisa que signifique o risco do ridículo ou do patético. não nos permitimos ser Tolos. estamos sempre muito preocupados em olhar firme para o chão que pisamos e em levar uma mala cheia das coisas que poderemos precisar.

os Loucos que moram em nós são constantemente sufocados. alguns velhos ciclos estão pedindo aposentadoria, e ainda assim nós relutamos – por inércia, por medo, por excesso de apego, por erro de avaliação. bastaria pegar a trouxinha, chamar o vira-latas, abrir o sorriso e permitir-se ser Tolo, sob o sol, à beira do abismo. e ver o que há.

11 abril 2007

que legalzinho

é tão legal viver no Brasil, este país que vai pra frente, não tem vulcão e não tem terremoto. leio na IstoÉ que Delfim Netto foi convidado para assumir a presidência do BNDES. achou legal? tem mais surpresinha pra você. a indicação de Delfim (belisque-se) é da cota de Orestes Quércia. achou legalzinho? ah, eu também achei. fico super hiper mega tranqüila quando vejo o governo Lula loteando cargos com este pessoal da ditadura, do milagre econômico e da banda podre do PMDB. dá um toque, sei lá, de tradição. e sabemos que o Brasil tá muito precisado disso. o único probleminha a resolver, parece, é que o Delfim estaria exigindo retirar todos os petistas do BNDES. huuummmmm... não, não deve ser problema. com um presidente que nem petista é mais, para que o partido iria querer manter técnicos em lugares pouco importantes como o BNDES?

como viver no Brasil é sempre uma emoção, leio no blog do Fernando Rodrigues que hoje a Câmara dos Deputados iria discutir duas coisinhas irrelevantes. primeiro, o aumento da verba de gabinete de R$ 50.800 para R$ 65.100 por mês. coisa pouca. segundo, a redução da estafante jornada de trabalho. agora, os deputados não devem mais trabalhar às segundas-feiras. a semana começa terça e acaba quinta. três dias, né, gente? teeeerrrrça, quaaaarrrta e quiiiiinnnnta. ah, não sejam implicantes. dá pra fazer um monte de coisa em três dias. se a gente lembrar que eles estão propondo aumentar o próprio salário, fica tudo bem legalzinho.

furada



Woody Allen e Scarlett Johansson

o namoro com a Inglaterra não está fazendo bem a Woody Allen. depois do constrangedor “Match Point”, o diretor retorna com “Scoop – o grande furo”. na minha opinião, não vale o ingresso. se você é fã de Allen, pode voltar para casa encharcado de uma triste melancolia. se você é fã de Scarlett Johansson, pode passar o filme se perguntando: “quando ela vai chegar?”.

a escolha do elenco revela-se um erro. nenhum dos atores entra no tempo de Allen. Scarlett é excelente atriz, mas não parece ter timing para a comédia. o filme se pretende engraçado, mas não faz rir, a não ser em raros momentos – quando vemos uma rápida sombra daquele Woody Allen de tiradas inteligentes que cabem em qualquer lugar.

o roteiro é descuidado, os diálogos não têm qualquer requinte e os figurinos são de doer. Scarlett veste as roupas mais desastrosas do cinema. o figurinista consegue esconder sua sensualidade – na qual devemos acreditar apenas porque existe um background sobre a atriz, mas não pelo que nos mostra o personagem – e o diretor apaga sua vitalidade.

o enredo é um fiasco. não convence nem como historinha policial, nem como comédia romântica. nem vamos discutir os modos de investigação jornalística (?) dos quais a protagonista lança mão sem qualquer pudor em busca de seu furo. se ao menos estes modos rendessem bons momentos, estariam justificados pelo próprio roteiro. o fato é que você sabe exatamente o que vai acontecer o tempo todo.

esta previsibilidade de uma história linear, sem a sagacidade e a ironia que marcaram a obra de Allen até a metade dos anos 90, faz com a gente saia do cinema com aquela sensação incômoda de ver um grande diretor afundar-se, filme após filme, em um ciclo que não parece ter fim. o Woody Allen de “Zelig”, “Rosa Púrpura do Cairo”, “Um Misterioso Assassinato em Manhattan” e “A Era do Rádio”, apenas para citar alguns de seus grandes filmes, pega um atalho não se sabe para onde a partir do bobinho “Igual a tudo na vida”. este “Scoop” é, para dizer o mínimo, constrangedor. ou uma furada.

09 abril 2007

dr. house



não sei quantas vezes comecei a escrever um post sobre House. não sobre o seriado “House”, mas sobre House, o personagem. aquele que podia dizer “my name is House, Gregory House”, e eu clamaria por umas literais bengaladas.

quando comecei a perceber o fenômeno Chico Buarque – ao qual Juremir Machado da Silva chegou a propor a criação de um genial “chicômetro” para medir “a sanidade das nossas quarentonas” – e um outro fenômeno de massa, o Alemão do Big Brother, foi que me dei conta da pertinência da velha questão freudiana: afinal, o que querem as mulheres? não sei. digam aí, mulheres: o que nós queremos? eu posso no máximo falar por mim. e eu, decididamente, quero House.

por que não quero Chico e por que não quero Alemão, mas quero House? conversas de mesa de bar, banheiros femininos e corredores são sempre muito proveitosas para quem quer entender a misteriosa “alma feminina”, seja lá o que isso signifique. em princípio, parece que a alma feminina gosta de poesia, chora pelos cantos, é delicada e sonha em atirar um buquê de flores de laranjeira para as amigas menos afortunadas. de tudo isso, eu só gosto da poesia, ainda que seja da forte, curta e demolidora. talvez só uma parte da minha alma seja feminina, quem sabe. ou talvez os autores que construíram este ideal romântico tenham esquecido de incluir gostos como os meus entre os próprios das mulheres. o fato é que, em um almocinho despretensioso outro dia, uma amiga disse: “o Alemão é tudo que uma mulher quer, ele é perfeito: é cafajeste e é carinhoso”. bingo.

fico pensando no Chico e acho, bem levianamente e sem pretensão sociológica, que ele faz hoje todo este sucesso com as mulheres porque elas gostariam de ser Marieta Severo. foi com Marieta que ele dividiu a cama e os segredos. o sucesso um tanto histérico com as mulheres não advém exatamente, ou apenas, de sua música. um cara que viveu tantos anos com uma mulher deixa no imaginário de todas as outras que poderia fazer isso de novo, se encontrasse a mulher certa. e, bem, toda mulher se acha pelo menos um pouco certa.

teve ainda aquele lance um pouco cafajeste do Chico que acabara de se separar e pegou uma mulher casada, lembram disso? um encontro na praia, totalmente plantado pela assessoria dele, e que escreveu um “trouxa” na testa do maridão traído. ali começou a se desenhar a imagem de um Chico sexuado, nada tímido, que se deixa fotografar beijando (carinhosamente?) uma bela mulher casada.

Alemão, o Diego do Big Bosta Brasil, também mexeu com os hormônios femininos. as mulheres que se derretem por Alemão querem ser um pouco Siri, a caipira que parece ter conquistado o coração do caçador. Alemão fez todos os truques e jogou todos os joguinhos típicos dos cafajestes, inclusive as artimanhas do bom-moço. as mulheres caíram. e babaram. e eu corro o risco de apanhar só ao escrever isso.

antes que me trucidem, não estou comparando Chico Buarque a Alemão. ouvi Chico a vida toda. gosto mais do Chico antigo do que do Chico atual, mas continuo respeitando seu trabalho. estou falando de algo que vai além de sua obra, de sua poesia e de seu talento: estou falando de um imaginário sobre o “homem Chico”, que faz a maior parte das mulheres simplesmente delirar. algo que talvez nem mesmo o Chico compreenda bem. sobre o Alemão, bem, ele é isso. construiu uma imagem e vai viver dela enquanto o público pagar pra ver. as mulheres sustentam esta imagem, e os homens acabam reproduzindo o que pensam que as mulheres querem. e querem mesmo, a julgar pelas conversas de bar e pelos relatos das minhas amigas.

e House, dio santo? House é cínico até o ossinho. House não acredita em deus. destrói as crenças alheias com o uso do órgão sexual mais poderoso do ser humano: o cérebro. cada avanço de sua engenharia cerebral é um ponto na conquista do meu coração – é, eu sei que esta frase ficou cafona, mas eu sou uma pinta cafona. ele tem aquela mistura indescritível que atrai as mulheres, de um homem que não precisa de ninguém e que ao mesmo tempo precisa muito de qualquer coisa que você estiver disposta a dar, nem que seja um cappuccino. House tem um passado que não usa como moeda de chantagem, mas que está inscrito no corpo para dizer “não nasci ontem, não sou idiota”. não confunde generosidade com complacência. tem humor ácido, ferino, inteligente. e pode morrer com um segredo na boca, se isso for necessário para salvar um amigo.

mais importante que tudo: House sabe viver sozinho. não vai sofrer se você escolher ficar em casa numa sexta-feira enluarada, ou se você decidir sair com um amigo. ele sobrevive à sua ausência. House tem prazer no seu pôquer, no seu sofá e nos seus pacientes – ainda que pareça ter prazer mais pelo desafio da descoberta do que os pacientes têm do que propriamente pelo bem-estar deles. ele tem prazer até mesmo com suas próprias dependências e com seus próprios defeitos, o que significa também que pode aturar os seus defeitinhos, garota – embora todos saibam que nós, mulheres, não temos defeito algum.

House tem aquele olhar pidão de cachorro abandonado que logo esquece a carência e brilha porque alguma idéia interessante lhe passou pela mente. sim, tudo passa naquela mente. existe vida naquela mente. é por isso que eu quero House. porque ele é ateu, cínico, solitário, engraçado, leal, seguro e cheio de pequenas necessidades. mas principalmente porque ele tem aquele cérebro. piu piu.
update: se você chegou a este post pelos mecanismos de busca, talvez queira ler também este aqui, do dia 21 de março de 2008. just in case.

08 abril 2007

thesis

“escrever é cortar palavras”, diz Carlos Drummond de Andrade. “enxugar até a morte”, complementa João Cabral de Melo Neto. de alunos de jornalismo, espera-se que escrevam sem parar e enxuguem até a morte. espera-se que leiam bula de remédio, placas de padaria e William Faulkner. espera-se que bebam literatura, apenas porque querem escrever, vão escrever, precisam escrever.

mas escrever é difícil. a tela está lá, branquinha. um pouco desdenhosa, um pouco dizendo “você não consegue”. meio debochada, meio blasé. escrever é um risco, ao qual a gente simplesmente se atira. e, convenhamos, jornalistas não têm escolha, precisam se jogar neste abismo todos os dias.

na universidade, os futuros jornalistas escrevem menos do que deveriam, menos do que gostariam e muito, muito menos do que de fato poderiam. por problemas que não cabe avaliar aqui — mas que passam pelo imobilismo de certos professores, que inacreditavelmente esquecem o prazer do jornalismo, e por uma certa apatia coletiva dos estudantes — acabamos vivendo ciclos inteiros de paralisia criativa na universidade. o lugar que deveria ser de experimentação, criação e refinamento de textos jornalísticos acaba sendo o lugar do enfado e da obrigação.

na minha disciplina na UFRGS, de jornalismo opinativo, os alunos produzem um texto por semana, com pausas para análise e edição. ela não é trabalhosa: ela é muito trabalhosa. é preciso identificar o estilo de cada um, respeitá-lo e, dentro dos limites deste estilo, aprimorar o texto argumentativo. além disso, são muitas as modalidades de exercício de análise e opinião. quando o cara aprende uma, precisa se aventurar na seguinte.

agora criei um blog para publicar alguns destes textos. vou alimentá-lo devagarinho e com cuidado. é um laboratório, é experimental e eu estou me divertindo. chama-se thesis e é um modo de mostrar que, sim, a UFRGS é uma universidade pública que forma jornalistas talentosos. piu.

atualização: tinha um acento grave ali ("thèsis"), comprovando que pelo menos o meu latim é uma língua morta. já está certinho agora. mortinho, mas sem acento.

04 abril 2007

a vida na organização

os surpreendentes aprendizados da comunicação organizacional. você sabe, você está inserido no mundo. você vive no seio da sociedade, esta peituda. a menos que você seja um eremita que plante seu próprio ópio e fabrique sua própria cerveja, você é obrigado a conviver com os humanos. e, a menos que você seja um humano adulto que tenha herdado o trono da Abissínia, você é obrigado a batalhar pelo pão árabe de todo dia em uma, ui, organização.

e então você almoça no restaurante da organização. aquela coisa que só não é um bandejão por um detalhe semântico. você fala mal do sistema, reclama do contra-cheque, come o fígado dos maus colegas. o de costume. aí você vai ao banheiro dar aquela escovadinha básica nos dentes. afinal, você vive entre humanos. vai falar com eles, bafejar na cara deles, brigar com eles. o básico de quem vive numa sociedade civil organizada.

você adentra o banheiro. e vem aquele cheiro de desodorante vencido. não “vencidinho”. não “levemente vencido”. vencidaço, mesmo. a popular asa. ato reflexo, você pensa “oh god, será que sou eu?”. você entra em uma das casinhas e se fareja em busca de carniça. ufa. deus existe e usa rexona. não é você.

você sai da casinha e começa a escovar os dentinhos. a misteriosa asa continua perfumando o ambiente. que porra. então da outra casinha sai aquela sua colega de trabalho. bem vestida, de saltinho, colarzinho étnico fashion. aquela meiguinha que fala sibilando. o cheiro de asa toma conta do ambiente. definitivamente. ensandecidamente. poderosamente. você só não devolve o valoroso almoço porque suas papilas estão encharcadas de colgate.

incrédula, você olha pra figura. ela sorri. dá uma sibiladinha. e vai embora. sem lavar as mãos.

03 abril 2007

os arrogantes

quero falar, talvez de modo desordenado, sobre um tema que atravessa minha vida há muito tempo: as personalidades tidas como “arrogantes”. tenho ouvido com freqüência, nos últimos dias, a expressão “arrogância intelectual”. ela vem sempre acompanhada de um tom que me inquieta – pejorativo, ressentido, emitido com desprezo.

vivemos em um mundo altamente hipócrita, em que apenas fingimos estimular a opinião e o debate de idéias. na verdade, em geral não suportamos o embate da argumentação. não apenas porque não suportamos a idéia de que nossas certezas não passam de hipóteses relativas. mas também porque não suportamos a idéia de autoria, de sujeito que cria, propõe e desestabiliza.

vivemos imersos em uma grande contradição. de um lado, percebemos a nós mesmos como sujeitos singulares, dotados de inteligência e capacidade inventiva. de outro, negamos ao outro esta mesma singularidade. porque é a capacidade inventiva dele, é o olhar dele que pode nos desestabilizar. e quem quer ter suas crenças postas em xeque, em um mundo de limites já tão tênues onde mal sabemos nos movimentar?

a noção de alteridade, tão cara à filosofia, à psicologia e à linguagem, é o eixo da existência. o fato é que não sabemos lidar com ela. embora eu esteja fazendo uma generalização grosseira, habitualmente não sabemos lidar com o outro. não lhe damos lugar. todo lugar discursivo é nosso, o outro tem direito apenas a uma voz concordante em nosso discurso. parece óbvio que seja assim, em uma sociedade acostumada a reiterar o mesmo e temerosa do que é diferente.

quando o outro se levanta e diz o que não queremos ouvir, diz o que nos incomoda, diz o que consideramos absurdo, intolerável ou mesmo ofensivo, somos obrigados a sair de nosso tedioso e confortável lugar e ir em busca de um argumento. no mínimo, somos obrigados a reconhecer que existe alguém pensando diferente de nós – no mínimo, somos confrontados com a visão desagradável de que o que pensamos não é consenso e talvez não seja “a” verdade.

há muito tempo eu aceitei um traço peculiar de minha personalidade: gosto das pessoas tidas, pela maioria, como “arrogantes”. vejo nelas a coragem da autoria. vejo nelas a ousadia de, mesmo correndo o risco do equívoco, formular um pensamento complexo, fortemente argumentado, e ir até o fim na busca de novas certezas. gosto quando alguém se contrapõe a mim e me desestabiliza. não tenho medo destas pessoas, nem de seu tom incisivo, nem de sua capacidade criadora. acho que o fluxo do mundo depende é destas pessoas, e não daquelas que não se arriscam a expressar um gosto, uma opinião, um ponto-de-vista.

é evidente que o debate exige tolerância. mas não confundo tolerância com aceitação de argumentos inconsistentes. se não aceito um argumento, não sou obrigada a tolerá-lo, é meu direito contestá-lo. talvez seja mesmo minha obrigação, parte de minha honestidade intelectual. por isso eu gosto dos debates quentes e não vejo nenhum problema neles. não me incomodo com pessoas cheias de opinião, que falam na primeira pessoa e arriscam a própria pele. me incomodo, é claro, com os grosseiros de plantão que, sem argumentos, partem para a mera desqualificação do interlocutor. se eles percebessem o quanto isso diz sobre eles mesmos, talvez se abstivessem do vexame.

a tal “arrogância intelectual”, que seguidamente é interposta como desqualificadora de uma idéia, é vazia de sentido. ora, tudo que dizemos advém do que pensamos, e tudo que pensamos é intelectual. não importa nosso nível de formação. quero deixar claro que não estou fazendo uma defesa, aqui, da arrogância que impõe o que é certo e o que é errado – isso é exatamente o que eu abomino. estou questionando o que as pessoas normalmente classificam como arrogância apenas porque diverge do que elas pensam.

paradoxalmente, as pessoas que trazem mais risco para o mundo não são as “arrogantes”, mas precisamente as que se furtam a ter qualquer opinião. primeiro, porque nunca conseguimos compreender exatamente o que estas pessoas desejam, pensam ou do que são capazes. segundo, porque estas, sim, não estão habituadas ao exercício da alteridade. não sabem ouvir o outro, não lhe dão crédito, não lhe dão lugar. não apostam na capacidade inventiva de ninguém. estas, sim, são as verdadeiras arrogantes: auto-suficientes, autocentradas, ególatras. as que se escondem, as que dissimulam, as que se perdem na multidão são as que me causam verdadeiro horror. mas estas nunca se vêem como arrogantes. “arrogante”, como sabemos, é sempre o outro.