21 abril 2008

Beto

na madrugada de domingo, a morte, esta senhora implacável, arrancou-me mais um. para muitos, ele foi reitor da UFSM, professor, secretário do Ministério da Educação, do Ministério da Ciência e Tecnologia e, por fim, da Confederação Nacional das Indústrias. tudo isso é verdade, mas insuficiente para dizer quem será, para sempre, o Beto tatuado na minha história. o Beto que era meu tio e meu padrinho.

aos quatro anos, fui aia do casamento dele com a Sônia. entrei na igreja, vestida de princesa, carregando uma cestinha de prata com as alianças. lembro de mim pequena, sentada na cadeira do escritório do apartamento dele, na rua Dona Luísa. adorava uma lâmpada incrível que ficava sobre sua mesa de trabalho, além de uma estante que ia até o teto com muitos livros.

são inúmeras as histórias do Beto pregador de susto nos ingênuos. se tapava com um lençol e saía gritando para assustar crianças, trocava comidas que estavam em compotas na geladeira, imitava outras pessoas ao telefone. adorava uma palhaçada. colocar chapéu de rena no Natal, andar com nariz bolota de palhaço, enfiar dentinhos de plástico para ficar dentuço, sair encurvado em direção ao oponente – geralmente uma criança feliz que gritava histérica – com os dedos na testa, como se fossem chifres.

era um grande contador de piadas, daquele tipo que começa a contar e você começa a rir. também era o rei do trocadilho. alguns eram ótimos, outros eram péssimos. e tinha um prazer especial em tapar nossas conversas de trocadilhos, me provocando até eu dizer “tu já foi melhor”.

depois do churrasco, vasculhava o local em busca da poltrona mais confortável e era lá mesmo, em meio à conversa confusa e gritada de uma família italiana, que dormia até roncar. volta e meia acordava com um de nós enfiando um palito, um garfo ou um guardanapo em sua boca, porque toda sacanagem dá direito a revanche. e acordava dando gargalhada. uma vez apostamos quanto tempo ele ia ficar com o guardanapo grudado no lábio, pendurado, até acordar. lembro destas coisas como jóias preciosas de uma vida de afeto, humor e leveza.

era totalmente apaixonado pela Sonia e pelas duas filhas, Geórgia e Letícia. e depois pelas três netas, Gabi, Gigi e agora Luísa, recém-nascida. “adoro cheiro de bebê” foi uma das muitas frases surpreendentes que ouvi dele. apenas uma, entre tantas histórias reais de sua experiência, suas viagens, os desafios colocados por seu idealismo.

éramos vizinhos, e todo dia ele ia em nossa casa conversar com meu avô. ficava lá, ouvindo as mesmas histórias daquele homem grande, cuja sabedoria simples ele sempre respeitou. meu avô falava “peripício” e “cocodrilo”, mas sabia muito da vida e das leis não escritas que valem pelos princípios e pela honra.

a longa carreira do Beto na universidade, ética e dedicada, me ajudou a entender o que é um compromisso assumido e, especialmente, o que é ter compromisso com um ideal que você escolhe para guiar suas atitudes.

era altamente democrático e ótimo articulador em busca de conciliação. é histórica uma assembléia que organizou no estádio da UFSM, reunindo professores, funcionários e alunos. estava lá, como reitor, para ouvir reivindicações, explicar procedimentos e limites legais e assimilar novas propostas. eu, aluna de Jornalismo, rebelde e politizada, estava na arquibancada.

sempre protegeu o direito dos estudantes de se manifestar, mesmo quando fazíamos coisas como quebrar os vidros da Reitoria e agir como adolescentes malcriados. enfrentou a Brigada Militar, quando esta quis entrar no campus para dissipar um protesto na Casa dos Estudantes: “aqui é território federal, a Brigada não entra”. botou a força bruta a correr.

depois, nos encontrávamos em casa para falar da vida e de como é possível ser diferente, ser autêntico, sem que isso signifique nada além de ter uma outra opinião. uma das coisas mais importantes que aprendi com ele é a tolerância com opiniões diferentes. não era retórica, era prática derivada de sua personalidade e sua autoconfiança.

quando me tornei diretora da Fabico, conversei longamente com ele. ouvi muitas experiências, de sucesso e de fracasso, e o que ele havia aprendido sobre os interesses que reinam em uma universidade. acima de tudo, ouvi um sábio conselho. agradeci muitas vezes por aquela conversa, pois foram suas palavras que me guiaram em situações impressionantes.

Beto também tinha muitos amigos e era espiritualizado. tinha uma fé especial e uma forte sensibilidade para com pessoas humildes, de menos instrução do que ele, sofridas, calejadas por uma vida de trabalho sem recompensa à altura. quando penso nele, penso em uma mente arguta com um coração gigantesco. ele era exatamente isso.

agora, não vamos mais ter nossas conversas pontuais. não vou mais vê-lo e, mais importante, não vou mais ouvi-lo. não haverá qualquer chance de jantar com ele, como fizemos em uma de suas vindas sozinho a Porto Alegre, nem qualquer oportunidade de voltar a abraçá-lo. é uma dor pretensiosa, pois sei que ausência mesmo quem sentirá serão a Sonia, a Geórgia e a Letícia. mas tenho a minha saudade, a minha dor e uma necessidade urgente de recolhimento.

haverá sempre a filosofia, a psicanálise ou a religião para colocar a morte em algum lugar supostamente mais digerível. mas a verdade, em sua forma crua, é que a morte é implacável. não há a quem recorrer. não há meios de revertê-la. a morte é uma senhora fria que vem tomar o que julga ser seu e, num ato, desfere a sentença que vai transformar o mundo de quem fica.

17 comentários:

Penkala disse...

lamento, Pintinha, embora seja até meio besta a gente ouvir que os outros lamentam a dor que a gente tá sentindo. é estranho como a morte nos tira tudo, porque o que nós somos está espalhado nas pessoas que amamos. se elas se vão, não tem como tu te recuperar, e o vazio sempre fica.
fica bem e pensa que ele também deve lamentar muito ficar sem ti, que também é dessas pessoas que a gente sempre quer ter por perto.

;)

MC disse...

a penka disse tudo. fica bem :)

Rosamaria disse...

também concordo com a penkala. e o pouco da convivência que tive com ele, lembro da simpatia e que gostava de contar piadas, mas, sobretudo, da competência.
bjim, pinta.

mimi disse...

força aí, fia.
:o*

Maroto disse...

A morte leva essas pessoas incríveis como leva as medíocres, como vai levar a gente também. Só que ela se engana quando pensa que leva tudo no caso de alguém como descreves que foi o teu tio. O que ele fez de bom, o tanto de amor que fez desabrochar em ti e em outros, os risos que causou, todas essas coisas, elas ficam, como um enorme desaforo para a Dona Morte, cuja grande tarefa é cuidar que, um a um, a gente desapareça. Que ele viva em ti e em muitos!

Anônimo disse...

Quero um abraço grande,Márcia.Quero te dar um abraço também. Saudade é isso mesmo: alegria de ter tido, tristeza de não ter mais.Temos, entretanto,tantas lembranças boas.Mas que está difícil...está!

sylvia moretzsohn disse...

Eu queria ter a capacidade de demonstrar minha solidariedade em silêncio.
Numa hora dessas lembro sempre do "lado fatal" da Lya Luft: não me digam nada... da minha dor sei eu.

Leonardo disse...

...

cida disse...

Receba o meu abraço solidário por essa tua dor.

Sentir e reconhecer o que a pessoa nos deixou de amor e de ensinamento nos conforta e nos permite seguir.

Que Deus dê força para ti e a família dele.
Abraço carinhoso

Carmencita - geleiairreal.wordpress.com disse...

Mein Beileid.

Adriana Amaral (Lady A.) disse...

um grande abraço...

Graziana disse...

lendo teu texto lembrei muito do meu dindo, que tambem ja se foi. forca, sinto muito, o que fica e a saudade dos encontros que nao teremos, mas tambem, as lembrancas e o amor! beijos

Reges.ts disse...

um momento daqueles em que eu não consigo dizer nada. há palavras, mas elas não preenchem tudo.

abraço

Sean Hagen disse...

*




em textos como esse, a gente vê quem foi referencial na vida.
e percebe o quanto os ideais desse outro se tornaram ideais nossos.
carregamos, sem ver, o que de melhor alguém nos deixou.

muito do que vc descreveu do beto, vc se tornou.
o que devia o deixar tremendamente vaidoso.




*

Ana disse...

Pintinha
Nem sei quantas vezes vim aqui, li tudo de novo, e fui embora sem conseguir falar nenhuma palavra.
Não há o que dizer e tudo já foi dito...
Só um abraço, com carinho.

cris simon disse...

Um abraço, Marcia.
:*

maristela disse...

Triste, pinta. é uma dor que todo mundo diz que passa, mas a gente sabe que ela na verdade nos perpassa, e como diz sean, o que tem de vida fica na gente, vindo do outro. bj