07 janeiro 2009

a carta da Força



os arcanos maiores do tarô nos contam a história do Louco e seus 21 companheiros de trajetória. todos são, como em uma boa jornada arquetípica, vivências interiores do Louco. ao longo da narrativa, ele vai reconhecendo o substrato de todo homem e, portanto, também seu. percebe e compreende – em si – o feminino e o masculino, os instintos, a capacidade de ora resistir e ora avançar, a necessidade de ficar só, o idealismo comunitário, a vontade de eternidade.


há controvérsias sobre os arcanos maiores 8 e 11, Justiça e Força. em alguns baralhos de tarô, eles são invertidos. para mim, que sigo o tarô de Marselha porque foi sobre ele que Jung se debruçou para analisar os arquétipos, a carta 11 é a Força. é a carta de 2009.


este arcano maior nos mostra uma mulher dominando um leão. seu chapéu em forma de lemniscata representa o infinito, a magia, o fluxo dinâmico entre dois pólos. para Jung, a lemniscata é o “mistério da conjunção” entre os opostos, especialmente entre o masculino e o feminino que habitam a vida psíquica de todo homem e de toda mulher.


o que temos na carta da Força é o momento em que o Louco inicia uma longa viagem interior, na busca de conciliação entre o racional e o irracional, entre o ego e os instintos primitivos. a sabedoria feminina ensina a domar a selvageria instintual – mas sem eliminá-la. trata-se de buscar no interior, seja homem ou mulher, a parte feminina das consciências pacientes, ou mais: das autoconsciências pacientes. trata-se de não negar os desejos e não extirpar (nem mesmo pretender extirpar) a capacidade intuitiva.


a Força nos diz que estamos prontos para enxergar o que temos de mais rude, agressivo, possessivo ou invejoso. estamos prontos para perceber nossos desejos mais mesquinhos, violentos ou perturbadores. não há um julgamento moral. os instintos não são bons ou maus. é o quanto nos deixamos dominar por eles que diz o que estamos fazendo conosco e com os outros. na jornada do Louco, assim como no ensinamento budista do Caminho do Meio, a busca final é a do equilíbrio. porém, na carta da Força ainda estamos longe da harmonia interna. ainda há diversos arquétipos a serem vivenciados, até que o Louco que mora em nós atinja a plenitude.


o que fica evidente aqui é a necessidade de ver quem somos, sem autocondenação, sem culpa e sem vergonha. somos humanos, e o irracional está inscrito em nosso genoma. é preciso conviver com o inconsciente e seus medos. é preciso reconhecer nossas zonas de sombra. o inconsciente se manifesta nos sonhos, nos atos falhos, nos desejos que tentamos ocultar, naquilo que somos e sentimos “quando ninguém nos vê”. o que aflora deste inconsciente pode ser eventualmente negado ou sublimado, mas não para sempre. existe um leão dentro de nós, pronto para tomar posse de nossa vida. o que o arcano maior da Força nos diz é que, se quisermos, podemos integrar nossos pólos, e que o bom leão é aquele para o qual não damos as costas. o bom leão é aquele que podemos segurar pelos dentes, antes que ele arranque nossa própria cabeça.


isso significa que podemos viver nossa natureza animal. os impulsos, a impetuosidade, a luxúria. reprimir os instintos impede a integração dos pólos. padrões morais obsoletos pisam e ferem nosso leão, alimentando sua fúria e sua voracidade. a Força nos convida à honestidade emocional e nos diz, ao mesmo tempo, que não somos reféns de nossos impulsos. o feminino, aqui, é o mediador entre o primitivo e o consciente. a mulher desta carta pode abrir e fechar a boca do leão. ela exerce seu poder e recorre a seus instintos. a força também está no leão, que espalha seu dourado pelos braços que quem o domina. o leão diz eu quero. a autoconsciência feminina diz eu escuto o que você quer, e em seguida eu permito ou eu não permito. eis a integração.


como tudo na vida, o leão é ambivalente. também os sentimentos nobres e tantas vezes tidos como inofensivos, como o amor, precisam ser domados. isso só ocorre, porém, quando conseguimos ver quem somos. não as personas que vestimos para enfrentar a vida social, mas quem somos intimamente, profundamente. psiquicamente.


arquetipicamente, a Força é um momento vivido por todos nós, em diversas fases da vida. que 2009 seja um ano tão belo quanto sua carta.


3 comentários:

Ana disse...

Bacana...

Maroto disse...

mas q droga, eu vim aqui só pra checar se os endereços do blogger tem* mesmo final .com e estou há um tempão lendo. Assim não dááááá, o prazo é segunda... bem q mamãe me disse pra ir checar num blog ruim

*ouvi q o têm perdeu o chapéu e já botei em ação. Tomara q não seja boataria

Pereira, Hugo disse...

Parfaict.

H.P.