17 junho 2009

o jornalista e a babá

"a comunicação de idéias há de ser permanentemente livre", disse agora há pouco o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal. já que ele autorizou e não pode me processar, vou comunicar aqui, de forma permanentemente livre, as minhas breves idéias sobre o julgamento histórico que o STF realizou hoje, derrubando a exigência do diploma para o exercício profissional do jornalismo.

foi uma exibição pública e patética da mais impressionante ignorância da elite jurídica do país sobre o que seja o jornalismo. o jornalista foi comparado a corretor de imóveis, detetive particular, designer de interiores, modelo, chef de cuisine, motoboy e babá.

ouvi os doutos magistrados dizerem que jornalismo é arte, que jornalismo é literatura, que jornalismo é poesia. mais: que jornalismo é "exercício de pura intelectualidade". citaram Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez para sustentar o que diziam. exemplos contemporâneos e bem generalizáveis, claro.

toda a argumentação dos oito ministros que votaram pelo fim da obrigatoriedade do diploma baseou-se na liberdade de expressão, um argumento totalmente equivocado. a regulamentação profissional nunca feriu o direito de expressão.

Celso de Mello perguntou: "onde está a especificidade?". olha, Mello, passa duas semanas trabalhando a fu numa redação, para ver se descobre onde se escondeu a especificidade. constrói uma rede sólida de fontes, traduz documentos para uma linguagem palatável, organiza informações que vêm na espiral do caos, edita uma primeira página, cruza informações, monta uma matéria de TV com lógica, seleciona notícias por critérios válidos. faz uns títulos aí que não recorram à Constituição de 1891, faz um texto aí sem citar Borges de Medeiros e Demétrio Ribeiro, e talvez você descubra onde está a especificidade.

bom, eu já sabia e já tinha dito aqui, em outubro do ano passado. eram favas contadas, desde que a coisa começou a ser tratada como mero corporativismo. o fim do diploma não é o fim do mundo. o jornalismo já não anda lá estas coisas, só vai piorar um pouco, ou talvez só vá piorar mais rapidamente. algumas faculdades vão fechar, alguns alunos vão desistir do curso, alguns professores vão ficar sem emprego. normal. os pisos salariais, que hoje são aviltantes, vão desabar. vai ter gente comendo fígado de gente e se vendendo por muito pouco para derrubar os colegas de seus postos. e os jornalistas que estão comemorando o fim do "resquício da ditadura" talvez um dia tenham que proteger seus fígados da massa faminta que vem por aí.

é bom também outras carreiras ficarem atentas. o STF abriu hoje a porta da desregulamentação de toda profissão "intelectual". ou seja: se não tiver um bisturi na mão ou uma lista de compêndios a decorar (com muita expressão em latim, para demarcar bem o conhecimento especializado), é provável que não haja "especificidade".

registre-se que o ministro Marco Aurélio foi o único a votar pela exigência do diploma, lembrando que vamos ter jornalistas com ensino médio ou, talvez, apenas o ensino fundamental. eu diria até: talvez sem nível de ensino algum. já pensou que maravilha, aquele dono de jornal do interior, que agora vai poder contratar o filho do amigo, porque o filho do amigo "escreve bem"? vai ser lindo. pura arte.

termino com uma citação do Barão de Itararé que descreve bem as minhas expectativas sobre os ministros do STF: "de onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada". ponto.


21 comentários:

Lu K. disse...

nunca vi tanta ignorância entre ministros da principal corte jurídica deste país!
meu deus, cheguei a rir ao ouvir tanta bobagem!!! o q é isso??? é piada???
salve apenas o marco aurélio. o mais coerente, o menos vendido.

Adriana Amaral disse...

fiquei pasma, são muito ignorantes. to ate agora sem saber o que falar para os meus alunos

Débora Elman disse...

Eu ainda não estou acreditando no que eu escutei, estou pasma!

Eduardo Gomes Rosa disse...

os ministros do STF, que se acham os donos da verdade, mostraram apenas o quão ignorantes são.

Solon disse...

"ouvi os doutos magistrados dizerem que jornalismo é arte, que jornalismo é literatura, que jornalismo é poesia. mais: que jornalismo é "exercício de pura intelectualidade". citaram Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez para sustentar o que diziam. exemplos contemporâneos e bem generalizáveis, claro."

passei a Fabico inteira ouvindo professores dizendo a mesma coisa, e ninguém nunca pareceu se importar. justiça poética, talvez?

Marcia disse...

olha, Solon, de mim você nunca ouviu que jornalismo é literatura, arte ou poesia. nunca.

e os exemplos citados são de outra época ou de outro lugar, portanto seria bom se os ministros tivessem contextualizado (mas não lhes interessava).

as opiniões são divididas, e eu respeito. a minha opinião é que a decisão foi lamentável e exibiu publicamente o desconhecimento dos doutos ministros sobre o que é o jornalismo.

Solon disse...

não pude acompanhar o julgamento em si, mas a julgar por seu histórico e pelo que pessoas como tu dizem, não duvido que nossos magistrados realmente tenham demonstrado total ignorância sobre o assunto. é de praxe, afinal de contas.

porém, acho que a decisão, em si, é ótima. junto com a queda da lei de imprensa, me faz ter um pouquinho mais de fé nesse país. e torcer para que faculdades de jornalismo país afora comecem a ter um foco menos técnico e mais teórico.

Marcia disse...

respeito, Solon. e também não cabe discussão a uma decisão judicial em última instância. é apenas: cumpra-se.

minha aula de Teoria do Jornalismo 2 hoje foi dedicada a pesquisadores que mapeiam a identidade profissional do jornalista. foi quase uma ironia do destino que esta aula estivesse programada para hoje.

mas coca-cola é isso aí.

Anelise disse...

Não dá nem para acreditar. Juro que ainda estou naquele estado de incredulidade que antecede a indignação(embora racionalmente há meses achasse que aconteceria). Vc está coberda de razão do início ao fim do seu post.

Bjs de uma jornalista triste e, mais uma vez, envergonhada do (pelo) nosso judiciário.

Carlos Eduardo Carrion disse...

Não sei por que tanta surpresa. São tantos os espantos que se vê neste país, que um mais, ou menos, não deveria nos admirar.
talvez seja um indicativo de uma volta ao Positivismo na sua forma mais "albanesa", quando existiam os práticos na odontologia, os construtores na engenharia, os rábulas no direito e até mesmo médicos formados por uma faculdade que se chamava ".... Cirúrgica",aqui em Porto Alegre, que formava práticos em MEDICINA.

Caíque Pinheiro disse...

vim com sede pra ler sobre isso. Vale lembrar como funciona o STF: ministros com cargo garantido até a aposentadoria compulsória, aos 70 anos. = Gilmar Mendes pode permanecer até 2025.

Ana disse...

Tu viu a nota da Rede Globo?
Nesse link:

Portal da Imprensa


O melhor é o comentário que tem lá (até agora, único).

Maitê disse...

Gostei muito do seu texto, Marcia.

Não tenho nem o que acrescentar.

Pobre do meu fígado desempregado.

Bjos

luís felipe disse...

perfeito. Irretocável. Nada a acrescentar.

Mirella disse...

"já pensou que maravilha, aquele dono de jornal do interior, que agora vai poder contratar o filho do amigo, porque o filho do amigo "escreve bem"? vai ser lindo. pura arte."

isso já não acontece?

Jousi disse...

achei teu post muito importante para o registro do que essa patuscada jurídica representa para o Jornalismo. pessoalmente, tenho sorte de ter optado por melhorar minha formação e conseguir ingressar num mestrado. lamento por tantas pessoas que, como eu, não querem mudar de profissão e são competentes no trabalho que realizam mas que não vêem nenhuma perspectiva em se realizar decentemente como jornalista. e o resultado? acabam migrando para outras áreas confirmando o estereótipo do 'doutor em nada'. sem ter tido ao menos a oportunidade de entender as raízes sociológicas de um bom jornalismo.

Rosamaria disse...

quando ouvi a notícia lembrei logo de vocês. é uma barbaridade como muitas outras que vem acontecendo no Brasil, comandado por essa gente sem capacidade.

bjim.

Lu Bemfica disse...

Oi! Indiquei teu blog para um selo dos meus blogs preferidos. O selo e as regras estão nesse link:
http://lubemfica.blogspot.com/2009/06/recebi-esse-selo-da-renata-malachias.html

Arnaldo disse...

Márcia, querida,

Permita-me discordar de você.

Na verdade, embora não reconheça nestes magistrados autoridade para tomar esta decisão, sempre fui a favor o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista para trabalhar em jornal.

Sou engenheiro e tenho uma pós graduação em administração de empresas. Ter feito estes cursos foi importante para que eu tivesse conseguido trabalhar nas empresas em que trabalhei, mas nenhuma delas nunca me exigiu que mostrasse o diploma ou que tivesse algum. O que sempre se exigiu de mim foi o conhecimento, que eu adquiri não só na universidade. Atrevo-me, aliás, a dizer que a maior parte do conhecimento que adquiri para exercer minha profissão foi obtido fora das salas de aula.

O diploma de engenheiro só é exigido para assinar projetos de obras, isso para proteger a sociedade, nunca o profissional. O de administrador de empresas, nem mesmo isso.

Não acredito que as empresas de jornalismo deixem de exigir diploma para contratar jornalistas, dando espaço para aqueles que não tenham capacitação para o exercício da profissão. Aliás, se faculdade de jornalismo garantisse qualidade, não teríamos tão péssimos jornalistas no mundo, da mesma maneira que temos péssimos engenheiros e péssimos médicos, todos com diplomas.

Percebo que fiz uma confusão danada, mas tenho certeza que você conseguiu entender o que eu quis dizer. Afinal, você sabe ler e escrever muito melhor que eu e, tenho certeza, saberia fazê-lo, mesmo que não tivesse estudado jornalismo.

Marcia disse...

Arnaldo, não precisa pedir licença pra discordar.
aqui tá sempre liberado. :)

esta discussão é muito complexa. ninguém pode imaginar que um curso de graduação possa fornecer todo o conhecimento necessário para uma profissão. em qualquer caso, o cara vai ter que aprender também fazendo, e ao longo do tempo se aprimora. no jornalismo não é diferente.

o que me incomoda é dizer que o jornalismo não tem especificidades. você escreve bem e poderia ser um ótimo crítico de música ou literatura. mas não sei se seria um bom editor de notícias.

eu escrevo bem, trabalhei em rádio, mas não domino as técnicas de telejornalismo. o jornalismo é tão específico, que não existe um único professor que seja capaz de ensinar qualquer disicplina, há sempre os nichos onde o professor vai se mover. nossos professores de TV não ensinam rádio, e vice-versa. eu trabalho só com impresso e teoria. não posso dar aula de telejornalismo, não tenho os conhecimentos.

não sei o que vai acontecer com os pequenos jornais do interior, por exemplo. não é possível prever, apenas imaginar. :(

e o jornalismo que anda sendo praticado é ruim por muitos motivos. o menor deles, pode acreditar, é o fato de o cara ter passado por uma universidade.

josecarlos disse...

Realmente Marcia, é uma discussão complexa, mas é um tanto descabida tua indignacão ao ser comparada a "corretor de imóveis, detetive particular, modelo, chef de cuisine, etc...". Pelo menos deste grupo por ti citado, os maus proffisionais nunca causaram tanto mal como causam os maus jornalistas neste país, todos estes com diploma. Por outro lado, velho como sou, tive muito tempo para ler bons jornais antes da ditadura de 64 que criou a exigência do diploma. Posso te garantir, o nível dos jornais feito por jornalistas que não tinham passado por uma escola de jornalismo, como os de hoje, era muito superior.Quem quiser, pode pesquisar. Por que acreditar que a exigência de diploma vai melhorar o padrão de nossos jornais?