13 fevereiro 2010

abril


Geraldo de Barros, 1948

o coração dá pinotes, e os pneus rodam devagar à procura de uma casa em um bairro que desconheço. god saves the google maps. 38 graus lá fora, mas sinto o pulso gelado. o clima é árido, um Atacama urbano de oficinas mecânicas. desponta o número 49, numa rua um pouco sem esperança. é um chalé de madeira, de um verde desbotado que combina com as plantas ressecadas para além do portão.

na minúscula sala, grita um telejornal histriônico chamado Balanço Geral. penso que é um nome um tanto irônico para o que vou fazer ali. na parede, uma foto enorme, destas que parecem plastificadas, ostenta os filhos da cartomante. ele faz cara de mau, com suas correntes prateadas. ela faz cara de princesa. uma cortina azul se move muito lentamente e esconde o resto da casa. exceto um quarto, que posso ver na diagonal. fico em pé, um ventilador de teto mal girando o ar mínimo. todo mundo tem direito a um pouco de ilusão, tento me convencer.

quando entro no quarto, enrolo o pé numa colcha de crochê. porque eu jamais iria a um lugar assim sem cometer uma gafe. e porque a vida é pura metáfora. numa mesinha redonda, o baralho. ela pergunta meu nome e começa a trabalhar. "Iemanjá vai te abrir todas as portas este ano", já escancarando o sincretismo e a balbúrdia.

a saúde está boa, mas a imunidade está baixa. minha mãe está deprimida e com dificuldade para caminhar. ei, ela conhece minha mãe. "te prepara, ela vai travar este ano." hmm. ela podia ser mais gentil.
estou muda, evitando mandar qualquer sinal, e ela segue. "tu acha que ama uma pessoa, mas já não ama mais. tô te dando a barbada, tu não ama mais." opa. o sangue das cartas tem poder. "tua vida recomeça em abril." ah, abril. um ano de desabamento. seria um bom jeito de comemorar, dizer tchau. assim, dizer de verdade.

e ela segue. desfia vidências com mais e com menos sentido. engraçadas, alarmantes, inesperadas. faço perguntas, vasculho sentimentos, pergunto o que não deveria querer saber. na saída, encontro um cachorro entediado que me olha sem se mexer. abro meu caderninho de anotações, aquele que comprei apenas porque traz na capa as garrafas de leite do Geraldo de Barros. e, enquanto anoto, penso que a arte concreta e abstrata dele combina com abril.

6 comentários:

LU K. disse...

puxa... recebi promessas (não de uma cartomante!) tambem para abril. espero esta concretização. já estou cansada deste inferno astral!!! hehe

Eduardo Gomes Rosa disse...

tava com saudade desses teus textos. dos grandes, digo. cheios de verdade e muito bons de ler.

Maria Rita disse...

Assino embaixo do que diz Eduardo

Demétrio de Azeredo Soster disse...

uma vez, na rodoviária de sta cruz, uma cigana lascou: "você vai viver 96 anos". estranha gente essa que não enxerga apenas, sentencia.

Dalys disse...

Me hacían falta tus escritos! Me hiciste recordar una experiencia con una madre de santo, en un terreiro en el ABC paulista.

Sean Hagen disse...

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abril despedaçado, apesar de não ser um bom filme do walter, salles, tem uma fotografia supimpa do walter caravalho, em tons quase preto e branco, amarelos esmaecidos, bege-sertão.

passou os números da mega também?




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