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04 outubro 2009

vestida de mar

Mercedes Sosa. a voz quente e o olhar que se derrama sobre qualquer um que se importe, qualquer um que sonhe, qualquer um que permita. de todas as canções, minha preferida é Alfonsina y el mar, de Felix Luna e Ariel Ramirez. Alfonsina Storni, a poetisa que escolheu o mar. o mesmo mar profundo, violento e monumental que poderia ser sinônimo de Mercedes. te vas, con tu soledad. fosforescentes caballos mariños harán una ronda a tu lado.


Por la blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vuelve más
Un sendero solo
De pena y silencio llegó
Hasta el agua profunda
Un sendero solo
De penas mudas llegó
Hasta la espuma.

Sabe Dios qué angustia
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.

Cinco sirenitas
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.

Bájame la lámpara
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas que estoy
Dile que Alfonsina no vuelve
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.

Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigua
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.

29 junho 2009

tudo


e então tudo que posso
reter de ti é: infinito
te desejar é: novamente
e te dizer é: para sempre

28 dezembro 2007

em 2007



vi cenas extasiantes
cobicei peixinhos brilhantes
troquei de telefone
escolhi um sobrenome
bebi absinto gelado
lamentei um sapato furado
perdi tanto a hora
fiz e fiz com demora
tive um amigo sapo
fiz hai-kai em guardanapo
comi lagosta engraçada
adorei a cara amassada

atravessei uma ponte
imaginei falas inteiras
penteei sobrancelhas
e morei num iglu

roubei o mapa de um trem
conheci de novo alguém
usei coisinhas pretas
atropelei borboletas
senti saudade doída
salpiquei pimenta ardida
não ouvi quando devia
amei mais do que podia
errei muitos caminhos
doei alguns carinhos
ganhei urso de cachecol
comi castanhas ao sol

comprei uma meia lilás
guardei um olhar para sempre
tomei uma decisão
e vi o mundo mudar

28 março 2007

gente no mundo

para o Carrion, que está de aniversário daqui a pouco.


Poema em Linha Reta

[Fernando Pessoa]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

14 janeiro 2007

hey you

hey you,
out there in the cold,
getting lonely, getting old,
can you feel me?

hey you,
standing in the aisle,
with itchy feet and fading smile,
can you feel me?

hey you,
don't help them to bury the light
don't give in, without a fight.

hey you,
out there on your own,
sitting naked by the phone,
would you touch me?

hey you,
with your ear against the wall,
waiting for someone to call out,
would you touch me?

hey you,
would you help me to carry the stone?
open your heart, I'm coming home.

but it was only fantasy.
the wall was too high, as you can see.
no matter how he tried, he could not break free.
and the worms ate into his brain.

hey you,
out there on the road,
always doing what you're told,
can you help me?

hey you,
out there beyond the wall,
breaking bottles in the hall,
can you help me?

hey you,
don't tell me there's no hope at all.
together we stand, divided we fall.

[Pink Floyd]

15 dezembro 2006

out of time

se você vai trabalhar em uma sexta-feira de dezembro, que pelo menos seja ao som de “Out of time”, do Blur.

Where’s the love song to set us free
Too many people down,
Everything turning the wrong way round

And I don’t know what love will be
But if we stop dreaming now,
Lord know we’ll never clear the clouds

And you’ve been so busy lately
That you haven’t found the time
To open up your mind
And watch the world spinning gently out of time

Feel the sunshine on your face
It’s in a computer now
Gone to the future, way out in space

And you’ve been so busy lately
That you haven’t found the time
To open up your mind
And watch the world spinning gently out of time

Tell me I’m not dreaming
But are we out of time
We’re out of time
Out of time
Out of time

quando eu morrer, por favor, toquem esta música antes da cremação. é minha trilha para qualquer viagem.

17 novembro 2006

magnífica desordem

Jean-Pierre Verdet é astrônomo do Observatório de Paris. estuda a astronomia antiga e escreveu “O céu: mistério, magia e mito”, que saiu pela Gallimard e foi editado em português pela Objetiva. seu texto, magnífico, fala do homem que se fascina pela noite negra, pela lua e pelas estrelas:

“O universo não passa de um grande vazio povoado de estrelas aqui e ali, em geral agrupadas em miríades. Povoado também de nuvens de gás e de poeira. Há mais de cinco bilhões de anos, uma dessas grandes nuvens cósmicas começava a implodir e dava origem ao Sol e a seu cortejo de planetas.

Inicialmente magma incandescente, o globo terrestre se resfria e se solidifica. Durante um bilhão de anos, a matéria reina sozinha sobre um mundo mineral e aquático. Então, em forma de molécula que mal se distingue da matéria inerte, aparece a vida num mar provavelmente sem margens, e vai se insinuando, adaptando, desenvolvendo, tornando-se mais complexa para enfim desabrochar nos continentes surgidos das águas.

No final do terciário, período geológico que precede o nosso, a paisagem terrestre é semelhante à que conhecemos, mesma geografia, mesma flora, mesma fauna, mas há um grande ausente: o homem. O homem que, no entanto, segundo os paleontólogos, já transparece numa raça de quadrúmanos por descobrir. E, há um milhão e meio de anos, graças a sombrias histórias de colunas vertebrais cujas curvas se compensam, o homem adquire a verticalidade. Há um milhão e meio de anos, o homem está em pé. Há um milhão e meio de anos, ele eleva os olhos para o céu.

Durante milhares de séculos, um silêncio quase absoluto, o homem se cala. De sua atividade técnica, que supõe a inteligência, deixa apenas alguns vestígios: seixos reunidos, artefatos lascados, raspadeiras, enxós. Porém, de sua atividade mental não há qualquer vestígio material. Depois, bruscamente, na última parte da idade da pedra lascada, há cerca de 50 mil anos, o pensamento humano se manifesta: um osso decorado com um pouco de ocre vermelho, contas de calcário onde se insinuam sílices e fragmentos de osso, as primeiras pedras gravadas, os primeiros esboços de esculturas, as primeiras sepulturas são provas emocionantes desse pensamento. Nas primeiras pedras gravadas, reconhecemos grupos de estrelas, constelações. Evidentemente, a astronomia é uma ciência muito antiga.

Muito cedo, a atenção do homem foi atraída pelos grandes fenômenos astronômicos e, logo, pelo mais evidente: a alternância dos dias e das noites. Bem antes de saber escrever, o homem conheceu as fases da Lua, com as quais fez seus primeiros calendários; percebeu o movimento diurno das estrelas, circular e uniforme, e que, toda noite, reconduz as constelações às formas permanentes; constatou a volta periódica das estações. Desde a pré-história, o estudo do céu deve ter provocado um movimento duplo do pensamento: a busca de leis naturais, imutáveis, que, em nenhum lugar como no céu, aparecem de forma tão evidente, e a tentação de colocar no céu, aparentemente inacessível à primeira vista, seres sobrenaturais e todo-poderosos.

Também muito cedo, foram constatadas as relações entre certos fenômenos celestes e terrestres; particularmente, em latitudes médias, entre o desenrolar das estações e o percurso do Sol pelo zodíaco, ou entre as fases lunares e a intensidade das marés. Uma introdução ao princípio da causalidade cuja aplicação irracional teve como conseqüência uma quantidade de crenças ingênuas e a astrologia.

Ao lado dos grandes fenômenos astronômicos periódicos, ocorrem acontecimentos excepcionais, muitas vezes espetaculares, como eclipses do Sol ou da Lua, cometas ou estrelas cadentes.

Também muito cedo, sem dúvida, o passeio dos planetas pelo grande quadriculado fixo das estrelas intrigava. Ademais, o céu às vezes se zanga, mesmo que seja esse aqui perto de nós: ventania violenta, raios, trovões, furacão, chuvas diluviais, trombas d’água ou tornados manifestam a cólera celeste.

Assim, no próprio seio da ordem que múltiplas leis constantes, simples e aparentemente eternas tornam exemplar, inscreve-se a desordem.”

ordem e desordem, permanência e movimento. eixo do imaginário que aparece, em mim, quando vejo o céu de minha sacada. com chuva, com vento, com estrelas salpicando, com silêncio absoluto.

07 setembro 2006

porque é sexta

Caetano já foi muito, muito bom:

onde queres revólver sou coqueiro,
onde queres dinheiro sou paixão
onde queres descanso sou desejo,
e onde sou só desejo queres não
e onde não queres nada, nada falta,
e onde voas bem alta eu sou o chão
e onde pisas no chão minha alma salta,
e ganha liberdade na amplidão

onde queres família sou maluco,
e onde queres romântico, burguês
onde queres Leblon sou Pernambuco,
e onde queres eunuco, garanhão
e onde queres o sim e o não, talvez,
onde vês eu não vislumbro razão
onde queres o lobo eu sou o irmão,
e onde queres cowboy eu sou chinês

ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

onde queres o ato eu sou o espírito,
e onde queres ternura eu sou tesão
onde queres o livre decassílabo,
e onde buscas o anjo eu sou mulher
onde queres prazer sou o que dói,
e onde queres tortura, mansidão
onde queres o lar, revolução,
e onde queres bandido eu sou o herói

eu queria querer-te e amar o amor,
construírmos dulcíssima prisão
e encontrar a mais justa adequação,
tudo métrica e rima e nunca dor
mas a vida é real e de viés,
e vê só que cilada o amor me armou
e te quero e não queres como sou,
não te quero e não queres como és

ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

onde queres comício, flipper vídeo,
e onde queres romance, rock'nroll
onde queres a lua eu sou o sol,
onde a pura natura, o inseticídio
e onde queres mistério eu sou a luz,
onde queres um canto, o mundo inteiro
onde queres quaresma, fevereiro,
e onde queres coqueiro eu sou obus

o quereres e o estares sempre a fim
do que em mim é de mim tão desigual
faz-me querer-te bem, querer-te mal,
bem a ti, mal ao quereres assim
infinitivamente pessoal,
e eu querendo querer-te sem ter fim
e querendo te aprender o total do querer
que há e do que não há em mim

[Caetano Veloso]

18 agosto 2006

mundo, mundo

você
não tá entendendo quase nada
do que eu digo
eu quero é ir embora
eu quero dar o fora
e quero que você venha comigo

você
tem que saber que eu quero correr mundo
correr perigo
eu quero é ir embora
eu quero dar o fora
e quero que você venha comigo

[caetano veloso]

10 julho 2006

alma, tenha calma


Getty Images


Não sei se os astros mandam neste mundo,
Nem se as cartas —
As de jogar ou as do Tarot —
Podem revelar qualquer coisa.

Não sei se deitando dados
Se chega a qualquer conclusão.
Mas também não sei
Se vivendo como o comum dos homens
Se atinge qualquer coisa.

Sim, não sei
Se hei-de acreditar neste sol de todos os dias,
Cuja autenticidade ninguém me garante,
Ou se não será melhor, por melhor ou por mais cômodo,
Acreditar em qualquer outro sol —
Outro que ilumine até de noite —
Qualquer profundidade luminosa das coisas
De que não percebo nada...

Por enquanto...
(Vamos devagar)
Por enquanto
Tenho o corrimão da escada absolutamente seguro,
Seguro com a mão —
O corrimão que me não pertence
E apoiado ao qual ascendo...
Sim... Ascendo...
Ascendo até isto:
Não sei se os astros mandam neste mundo...

Fernando Pessoa

22 junho 2006

ternura

“Não se tem apenas carência de ternura, mas também de ser terno com o outro: estamos encerrados numa bondade mútua, somos reciprocamente maternais: voltamos à raiz de toda relação, lá onde se juntam carência e desejo. O gesto terno me diz: me pede qualquer coisa que possa adormecer teu corpo, mas não esquece que te desejo um pouco, ligeiramente, sem querer possuir nada imediatamente.”

[Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso]