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23 agosto 2009

cinismo



a imagem acima refere-se a esta matéria publicada na Zero Hora de ontem. engoli em seco ao ler o título, "MST ganha seu mártir". foi um soco no estômago, mesmo em se tratando de uma empresa que sabidamente defende os grandes interesses privados (certamente não os meus interesses privados) e ataca os movimentos sociais. mesmo em se tratando da RBS, foi uma paulada.

venho estudando o discurso jornalístico há muito tempo. é meu ofício, como já foi, antes, estar numa redação e fazer títulos, inclusive títulos de primeira página. hoje ensino e pesquiso jornalismo. tenho visto, arquivado e analisado muitas estratégias discursivas, buscando compreender como a escolha de imagens e palavras pode estruturar a percepção do outro sobre a realidade. raramente, confesso, encontro um título que reúna tamanha carga de insensibilidade e cinismo em apenas quatro palavras.

o sem-terra Elton Brum da Silva morreu após ser alvejado pelas costas (veja as fotos neste blog). nenhuma arma de fogo foi encontrada com o MST. pelo menos uma espingarda calibre 12 da Brigada Militar tinha balas letais, e não balas de borracha. o subcomandante da BM encarregado da operação foi afastado, como diz a própria Zero Hora deste domingo.

mas não quero falar sobre o MST, quero falar sobre jornalismo. este título, bem como o início da "reportagem", são exemplos da postura antiética que tem pautado grande parte do jornalismo brasileiro no seu compromisso junto ao leitor: apurar, verificar, cruzar fontes e informações, entregar uma informação comprometida com os fatos concretos.

quer opinar? use o espaço do editorial, convide um articulista, faça um box assinado como análise ou opinião. deixe claro ao seu leitor que está tomando uma posição. mas, por favor, não entregue uma opinião travestida de reportagem. isso se chama abuso de poder, quebra de contrato com o leitor. isso se chama mau jornalismo, ou talvez nem seja jornalismo.

este título é muito significativo, não apenas pelos sentidos óbvios. ele aponta para o espírito individualista e niilista que vem se consolidando socialmente. o espírito do jornalista que não percebe (não quer perceber) que o mundo é maior e mais complexo do que sua casa, seu círculo de referência, seus próprios valores. o espírito do jornalista que simplesmente não se importa com o que é diferente dele, porque ele se toma como parâmetro de normalidade e moralidade.

este título, pelo tom de desprezo e pelo descomprometimento profissional com a apuração da verdade, vai reverberar durante muito tempo na minha memória. ele é emblemático, porque resume meu mal-estar diante do jornalismo, minha profunda decepção. não sei o que dizer a meus alunos, a não ser o que repito há anos: isto não deve ser feito.

em sua coluna dominical na edição de hoje, o diretor de redação de ZH, Ricardo Stefanelli, diz que "não há nada como uma reportagem construída sobre palavras ciosamente escolhidas, cada uma ocupando seu lugar exato em frases e parágrafos harmoniosos". não se refere à reportagem que estou citando aqui, e sim à edição de domingo. mas percebam: palavras ciosamente escolhidas.

o azar de Zero Hora é que nem todo mundo é como este jornal imagina que todo mundo seja.

03 agosto 2009

revival

tenho evitado falar sobre política, porque me deprime. mas isto não posso deixar de comentar. quem saiu hoje em defesa de Sarney, com garras, dentes e maus modos? Renan Calheiros e Fernando Collor. o que mais é preciso dizer?

28 junho 2009

in-fer-naaallll

eu só queria saber, assim, se alguém puder me explicar, por favor. no ano que vem, teremos que ouvir durante toda a Copa do Mundo aquele barulho infernal das cornetinhas africanas? aquele zumbido de bilhões de abelhas assassinas?

não há ouvido que resista. vai me dando uma coisa, sabe, uma irritação, vai subindo um calor e eu quero sair matando quem inventou a democracia e a livre manifestação cultural.

17 junho 2009

o jornalista e a babá

"a comunicação de idéias há de ser permanentemente livre", disse agora há pouco o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal. já que ele autorizou e não pode me processar, vou comunicar aqui, de forma permanentemente livre, as minhas breves idéias sobre o julgamento histórico que o STF realizou hoje, derrubando a exigência do diploma para o exercício profissional do jornalismo.

foi uma exibição pública e patética da mais impressionante ignorância da elite jurídica do país sobre o que seja o jornalismo. o jornalista foi comparado a corretor de imóveis, detetive particular, designer de interiores, modelo, chef de cuisine, motoboy e babá.

ouvi os doutos magistrados dizerem que jornalismo é arte, que jornalismo é literatura, que jornalismo é poesia. mais: que jornalismo é "exercício de pura intelectualidade". citaram Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez para sustentar o que diziam. exemplos contemporâneos e bem generalizáveis, claro.

toda a argumentação dos oito ministros que votaram pelo fim da obrigatoriedade do diploma baseou-se na liberdade de expressão, um argumento totalmente equivocado. a regulamentação profissional nunca feriu o direito de expressão.

Celso de Mello perguntou: "onde está a especificidade?". olha, Mello, passa duas semanas trabalhando a fu numa redação, para ver se descobre onde se escondeu a especificidade. constrói uma rede sólida de fontes, traduz documentos para uma linguagem palatável, organiza informações que vêm na espiral do caos, edita uma primeira página, cruza informações, monta uma matéria de TV com lógica, seleciona notícias por critérios válidos. faz uns títulos aí que não recorram à Constituição de 1891, faz um texto aí sem citar Borges de Medeiros e Demétrio Ribeiro, e talvez você descubra onde está a especificidade.

bom, eu já sabia e já tinha dito aqui, em outubro do ano passado. eram favas contadas, desde que a coisa começou a ser tratada como mero corporativismo. o fim do diploma não é o fim do mundo. o jornalismo já não anda lá estas coisas, só vai piorar um pouco, ou talvez só vá piorar mais rapidamente. algumas faculdades vão fechar, alguns alunos vão desistir do curso, alguns professores vão ficar sem emprego. normal. os pisos salariais, que hoje são aviltantes, vão desabar. vai ter gente comendo fígado de gente e se vendendo por muito pouco para derrubar os colegas de seus postos. e os jornalistas que estão comemorando o fim do "resquício da ditadura" talvez um dia tenham que proteger seus fígados da massa faminta que vem por aí.

é bom também outras carreiras ficarem atentas. o STF abriu hoje a porta da desregulamentação de toda profissão "intelectual". ou seja: se não tiver um bisturi na mão ou uma lista de compêndios a decorar (com muita expressão em latim, para demarcar bem o conhecimento especializado), é provável que não haja "especificidade".

registre-se que o ministro Marco Aurélio foi o único a votar pela exigência do diploma, lembrando que vamos ter jornalistas com ensino médio ou, talvez, apenas o ensino fundamental. eu diria até: talvez sem nível de ensino algum. já pensou que maravilha, aquele dono de jornal do interior, que agora vai poder contratar o filho do amigo, porque o filho do amigo "escreve bem"? vai ser lindo. pura arte.

termino com uma citação do Barão de Itararé que descreve bem as minhas expectativas sobre os ministros do STF: "de onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada". ponto.


18 maio 2009

bola fora

é isso que dá manter colunistas que não entendem os modos de viver contemporâneos e a complexidade do ser humano. é isso que dá manter colunistas intolerantes. é isso que dá manter o Paulo Sant'Ana. a bola fora é dele, mas é especialmente da Zero Hora.

poucas coisas me dão mais nojo do que racismo e homofobia. alguém deveria avisar a RBS de que já estamos no século 21. porque, francamente, eles ainda não perceberam.

18 abril 2009

a entrevista oficialesca

quinta-feira eu vi a governadora Yeda Crusius sendo entrevistada em um programa de debates na TVE. quantos erros existem na frase anterior? pelo menos um. o programa, Frente a Frente, não foi de debate. os convidados para entrevistar Yeda eram dois jornalistas conhecidos pelos gaúchos: Políbio Braga (jornal O Sul) e Rogério Mendelski (Rádio Guaíba). acuado em um canto, eu diria um pouco constrangido, estava o apresentador do programa, Ricardo Azeredo.

como este é um mundo de livre expressão, acho que posso reformular a frase: quinta-feira eu vi um longo pronunciamento oficial da governadora Yeda Crusius, na TV estatal, travestido de jornalismo. teria sido mais honesto, embora provavelmente menos eficaz, se a governadora tivesse solicitado 60 minutos para falar aos gaúchos. há uma diferença entre propaganda e jornalismo, porém. o jornalismo confere credibilidade a seus discursos. o efeito de verdade obtido em um programa de entrevistas, um programa "de debates", é infinitamente maior do que o obtido em qualquer fala oficial.

sentada em uma cadeira imperial no Piratini, Yeda disse muitas coisas. reclamou de uma mídia persecutória. falou da inauguração de cisternas e trechos de asfalto. propagou elogios recebidos por prefeitos da oposição. disse que é "naturalmente candidata" à reeleição. e contou que ficou muito emocionada ao ser aplaudida por um grupo de jovens, em Rio Grande, enquanto comia um pastel de peixe em um bar.

foi como um jogo de vôlei. Políbio e Mendelski levantavam a bola. Yeda cortava. sem bloqueio, é claro. quase um Silvio Santos sendo "entrevistado" em um programa "de debates" no SBT. Políbio dizia "é o que eles querem", referindo-se aos oposicionistas. Mendelski sugeria mais propaganda dos atos do governo. apoio e consultoria.

para quem estuda discurso, este programa é um prato feito. basta degustar. três jornalistas, um político. ambiente discursivo: uma TV comandada pelo próprio político. um dos jornalistas é pago pelo dono da TV, tenta cumprir a tarefa com o mínimo de comprometimento. os outros dois jornalistas seriam o lugar da pluralidade, do confronto de idéias, das perguntas de relevância pública. mas estão concentrados em defender suas posições ideológicas, as mesmas do político a ser entrevistado. a "entrevista" deixa de ser jornalismo, embora mantenha seu formato.

há outros detalhes que merecem ser estudados. Yeda acusa a mídia de perseguição. e depois confessa que não lê mais a mídia. Yeda minimiza o efeito que as manifestações constantes em frente ao Palácio teriam sobre ela, diz que são normais em uma democracia. mas depois se mostra ofendida com o que é obrigada a ouvir. Políbio diz, de relance, que os acusadores da governadora são mentirosos. o que ela não diz, ele diz.

o mais interessante, porém, é o que não está visível. por que agora? por que falar neste momento? enquanto assistia ao programa, ia se formando em mim a sensação de que Yeda está vulnerável. sempre que alguém decide mostrar força, a gente remexe as cortinas e vê alguém enfraquecido. a coluna da Rosane Oliveira de hoje confirma o que percebi. Yeda está isolada e se sentindo isolada. sem ter em quem confiar, fruto de sua incrível capacidade de destruir a própria base aliada, começa a bater na tecla do abstrato "carinho dos gaúchos". talvez ela acredite que esta idéia fluida possa levá-la a sentar naquela cadeira imperial até 2014.


06 fevereiro 2009

tortura?

tem gente que não tem mais o que fazer. (inclusive eu, que deveria estar escrevendo um artigo para um congresso, mas fico galinhando na internet. à noite o fantasmus academicus vai puxar meus pés. certeza.)

o Ministério Público do Rio recebeu denúncias de que teria havido tortura no chinfrim "quarto branco" do Big Bosta. ééééé, aquele quartinho merreca em que três caras tinham que ficar por dois dias, mas um deles não suportou. ééééé. tor-tu-ra.

não é grotesco apenas porque desloca pessoas ocupadas, que exercem funções importantes, para tratar de uma bobagem. é grotesco especialmente pela banalização do termo tortura. no meu tempo, tortura era outra coisa. não incluía brownie e ar condicionado. não acenava com a promessa de um milhãozinho no final. e o torturado não se submetia voluntariamente.

vergonha, sabe? vergonha alheia.

14 outubro 2008

o morto

este país está precisando estudar. a intelligentsia brasileira está precisando estudar. urgentemente.


o debate sobre a exigência do diploma de Jornalismo é perigosamente ingênuo. toma uma parte do problema e ignora a sua complexidade. o problema é “o jornalista” – este ser corporativo que quer manter seus privilégios, este ser egoísta que não quer dividir com o resto da sociedade a tarefa simples de fazer Jornalismo.


Jornalismo é técnica, sim. não entendo o que há de errado nisso. é domínio técnico de como apurar, de como cultivar as fontes, de como se portar numa entrevista, de como encarar uma fonte relutante ou manipuladora, de como verificar a informação com outras fontes, de como reconhecer o que é banal e o que é notícia, de como fotografar um acontecimento, de como produzir infográficos relevantes. e, finalmente, domínio técnico de como relatar os fatos, de como organizá-los no texto, de como fazer títulos ou chamadas, de como editar páginas ou programas.


no entanto, Jornalismo não é só técnica. é também teoria e é também ética. é isso que boa parte dos nossos intelectuais não consegue aceitar. é mais fácil relegar o Jornalismo a um “simples fazer” do que conceder-lhe um lugar teórico. não sei bem onde dói, mas pelo jeito dói. quando dizemos que existem teorias específicas do Jornalismo, alguns riem. são aqueles que nunca leram sobre isso, aqueles que desconhecem a natureza do campo. são aqueles que imaginam que o jornalista é uma mistura de psicólogo com antropólogo, historiador, sociólogo e escritor. são aqueles que desconsideram a responsabilidade da profissão. confundem consciência social com corporativismo. aderem a uma lógica neoliberal sem jamais admitir que é isso que move seus argumentos. e, cereja do bolo, recorrem à falácia do cerceamento à liberdade de expressão para sustentar seu discurso.


é compreensível que os grandes meios de comunicação defendam a desregulamentação – estão em seu papel, querem o fim dos sindicatos que garantem os direitos mínimos dos profissionais, querem o fim dos pisos salariais (aviltantes), querem esvaziar a profissão de qualquer reflexão sistemática. é compreensível também que pessoas alheias ao campo defendam a desregulamentação – elas geralmente não compreendem as relações de poder que estão em jogo, o que move as obscuras relações entre mídia, política e economia.


é menos compreensível que magistrados defendam a desregulamentação, dando-se o direito de refazer a lei. antigamente a Justiça cumpria a lei, agora ela a refaz. mas é totalmente incompreensível, para mim, que intelectuais e pesquisadores, que por dever de ofício precisam ver o mundo de modo complexo, tratem do tema de forma superficial, ingênua e redutora. isto não é apenas lamentável. isto é estarrecedor.


não sou otimista. acho que esta é uma batalha perdida e o STF vai extinguir a exigência do diploma. vai ignorar o que dizem os profissionais, os professores e os pesquisadores da área, sob o argumento de que estes setores são “interessados”. os críticos da qualidade do ensino dirão que a culpa é da universidade, esta instituição de ombros largos tão responsabilizada pelas mazelas do mundo. não vai demorar muito para que o nosso já trôpego Jornalismo role escada abaixo, quebre o pescoço e se torne a voz oficial das fontes oficiais. quando nossa intelligentsia sair do coma, o morto já terá sido cremado.

08 outubro 2008

impressões

assisti ontem ao debate entre Barack Obama e John McCain, pela GloboNews. a tradução simultânea melhorou muito. McCain tem auto-controle, mas demonstra estar sempre a um passo de explodir. ele se contém, mas deixa a impressão de que gostaria de resolver tudo numa queda-de-braço, e rapidamente. ele quer mesmo é chegar logo à Casa Branca e trabalhar do seu jeito. imprime a sua fala um certo tom de desprezo por Obama e pelo próprio debate.

Obama fala pausadamente e se move de modo mais natural. não se exalta, mesmo quando agredido, e parece estar gostando de debater. não tem medo do oponente, mas não o subestima. evidentemente está numa posição muito mais confortável, pois pode atacar os oito anos de Bush sem perdão.

a blogosfera está comentando o “aquele lá” que McCain usou para se referir a Obama. duas coisas me chamaram a atenção no debate. o “aquele lá”, que foi deselegante e sintomático, e a frase de McCain quando tentava caracterizar Obama como um inexperiente: “não há tempo para aprender no cargo, meu amigo”. são detalhes, mas o diabo mora nos detalhes. chamar o candidato democrata de “that one” e o sarcasmo do “my friend” apenas revelam o quanto McCain está irritado. e, se ele está irritado, é porque sabe que o outro é mais forte.

nunca acompanhei as eleições norte-americanas. mas, claro, nunca houve eleições como as deste ano. desde as prévias democratas, é uma sucessão de emoções e estereótipos muito interessantes. é impressionante, também, ver o residual dos Kennedy no imaginário deste país. o apoio dos Kennedy a Obama foi decisivo. no fundo, todo mundo quer acreditar em um herói. e parece que a era John Wayne está acabando.

08 setembro 2008

orkut

os administradores do Orkut deletaram minha conta. segundo eles, o acesso foi suspenso porque violei algum termo de uso. a mensagem ainda tem a delicadeza de dizer que “o Google tem o direito de excluir sua conta a qualquer momento, por qualquer razão, com ou sem notificação”. e me manda reler os termos de uso antes de criar outra conta.

certamente alguém fez uma denúncia contra meu perfil. o motivo? não sei. como diz o Google, eles não informam o motivo – não precisam dizê-lo. e, como se pode ver, também não verificam a denúncia. alguém sentiu o cheiro de autoritarismo?

é uma falsa democracia, que confere poder de fogo a quem não deveria tê-lo e isenta de responsabilidade quem deveria exercê-la. uma coisa é uma denúncia. outra coisa, bem diferente, é a execução de uma penalidade. todos podem fazer as denúncias que quiserem, fundadas ou não. já a aplicação de uma penalidade deveria ser guiada pelo senso de justiça.

estava no Orkut desde 2004. conheci gente legal e utilizei a rede para manter afetos, especialmente com meus sobrinhos, que vejo pouco. acho tremendamente estúpido que uma rede deste porte não tenha mecanismos de controle justos. obviamente não violei nenhum termo de uso. mas perdi, por incompetência dos administradores do Orkut, depoimentos que me eram caros e scraps memoráveis.

o que eu penso do Orkut e de seus péssimos administradores? melhor não dizer.

04 setembro 2008

que feio

e então o Paulo Sant’Anna escreve* hoje, em seu blog (leia aqui), texto que simplesmente não é jornalismo. é propaganda da Maiojama e propaganda da prefeitura de Viamão. por razões óbvias, ambas interessam à RBS. lamentável.


* avisada pelo Träsel, no Twitter.

27 agosto 2008

Veja, a complexada

Veja é uma revista complexada. não quer fazer jornalismo, quer decidir os rumos da nação. talvez, quem sabe, ocupar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU? não o Brasil, mas a revista Veja, a editora Abril, os Civita. afinal, a revista sabe exatamente o que deve ser feito para que o Brasil alcance um patamar de civilidade digno do século 21. de unha encravada ao sistema educacional brasileiro, todas as respostas estão em Veja. é um manualzão de como deveríamos ser, se fôssemos civilizados.

Veja só não é uma revista perfeitamente ridícula porque a perfeição não existe. mas é sua meta, e eu tenho fé que ela em breve seja perfeitamente ridícula, perfeitamente patética e perfeitamente dispensável. para ela, o ensino brasileiro é marxista-leninista. os professores são idiotas que repetem Marx (onde, gente?) sem nunca terem compreendido o “velho barbudo” que teve um furúnculo. isso é que é contextualizar um autor, hã?

a revista critica os professores por supostamente não lerem grandes obras e apenas repetirem chavões. e, para justificar o que diz, utiliza um excerto de Hannah Arendt. sim, da grande Hannah Arendt, que por razões evidentes não foi compreendida por quem produz Veja.

tudo isso seria anedótico (para usar uma expressão da revista), se Veja não tivesse definido Paulo Freire como um educador “sem contribuição efetiva à civilização ocidental” e “autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização”. observação perfeitamente estúpida, para dizer o mínimo.

mas numa coisa eu preciso concordar com a revistinha: só mesmo a má qualidade do ensino pode explicar que Veja tenha mais de 1 milhão de assinantes. se estivéssemos na Finlândia, como sugere Veja, certamente as pessoas cancelariam a assinatura.

p.s.: a Penka também comentou.

17 agosto 2008

Iberê

finalmente fui conhecer o Museu Iberê Camargo. era um final de tarde ensolarado, e a luz que invade o museu é parte significativa da fruição. o prédio fala no seu ouvido. você realmente está em um espaço, não apenas as obras.

descer os corredores é pura sinestesia, com as paredes se estreitando e se alargando ao longo do caminho. as janelinhas, de onde o Guaíba surge em sua calmaria, são pontos de observação do mundo que corre lá fora, quase sem domínio.

sempre gostei da arte perturbada de Iberê, fechada em suas poucas cores e de traço desconcertante. a fantasmagoria é o que temos de humano, o tormento que nos move ou paralisa. instante captado por uma espécie de radiografia que exibe aquela alma, as muitas almas ou uma alma só – quem poderia dizer?

o prédio de Siza é uma escultura branca rebatida pelo sol, pela luz e pelo vento. não é preciso tocar para sentir a textura. não é preciso saber para compreender.

no entanto, o museu é para poucos. de longe pode ser observado, mas entrar nele é para quem pode. o entorno não facilita a vida de quem não tem carro. quem tem carro, paga 7 reais por 90 minutos em um reduzido estacionamento. a sinalização do prédio é pós-moderna, enigmática e intimidadora. os elevadores são baixinhos. o elevador para cadeirantes que vai do estacionamento ao térreo joga a pessoa na rua, sem proteção contra a chuva. para completar, o Press Café é caro e ruim. tomamos uma coca e um cappuccino, comemos um sanduíche (frio, duro, ruim, em que a mostarda Dijon não deixou nem lembrança) e uma palha italiana minúscula, e por estas coisinhas pagamos 30 reais. valeu pelo pôr-do-sol, que estava belíssimo. mas o sol ainda se põe gratuitamente, e ainda é tão belo quanto a obra de Siza.

plantão Zero Hora



clique na imagem para aumentar. credo.

porre

é sempre bom ter eleições. significa que vivemos numa democracia (rá-rá-rá). mas algumas coisas me irritam profundamente:

1. os carros de som (muuuiiiiiitos decibéis de som) que andam pela cidade com musiquinhas e slogans infames;
2. minha caixa de e-mail abarrotada de propaganda que não quero receber;
3. a cidade com trânsito engarrafado por causa do recapeamento do asfalto que o Fogaça, assim, sutilmente (néam?), decidiu fazer agora, três meses antes da eleição;
4. a cobertura da Zero Hora, que não entra no que interessa: as propostas, os compromissos de bastidores dos candidatos, a discussão sobre o futuro da cidade.

o prefeito mora numa casa de três andares, dança com a filha e tem um cachorro? tá. e-da-í?

12 julho 2008

inimigo na trincheira

estão todos com saudade da Ellen Gracie na presidência do Supremo Tribunal Federal, como eu? o que será que acontece com Gilmar Mendes, o presidente do maior tribunal do Judiciário brasileiro, quando suspende a decisão de outro juiz e manda soltar o banqueiro Daniel Dantas?

que é legal, ninguém duvida. é para isso que o STF serve: para decidir sobre recursos em instância superior. que é legítimo e dentro da constitucionalidade de um Estado de direito, ninguém duvida também. se é ético, se é digno, isso sim podemos perguntar.

de nada adianta a Polícia Federal, o nosso FBI tupiniquim, e a Justiça tentarem fazer o que lhes compete, se nas camadas superiores um outro juiz favorece o suspeito. neste caso, vale lembrar, um suspeito bastante incomum e em situação privilegiada.

para completar, Gilmar Mendes critica o juiz federal Fausto Martin de Sanctis, que decretara a prisão preventiva de Dantas, acusando-o de insurgência contra o STF. rapidamente, mais de cem juízes assinaram um documento defendendo a autoridade de Sanctis. Gilmar Mendes mandou cópias de sua decisão, com críticas a Sanctis, à Corregedoria Geral da Justiça Federal e ao Conselho da Justiça Federal. era só o que faltava, neste país imerso na lama: quem é correto e competente passar a ser investigado por ser correto e competente.

volta, Ellen. volta. plis.

21 maio 2008

rumo ao limbo

é chocante a decadência da IstoÉ. desde janeiro acompanho todas as edições desta revista, além das edições de Veja, Época e Carta Capital, para a pesquisa que desenvolvemos na UFRGS com apoio do CNPq. entre as quatro principais revistas brasileiras semanais de informação, IstoÉ se revela a mais fraca.

nesta semana, a revista se atirou sem pára-quedas em direção ao limbo. sua reportagem de capa é “Como interpretar seus sonhos: aprenda com os especialistas a decifrar as mensagens que recebemos durante o sono e as pistas que elas podem dar sobre seu futuro”. mal consigo encontrar as palavras para descrever como isto é inadequado, tanto pela abordagem quanto como escolha de matéria principal.

no miolo, seis páginas tratam desta pauta, com muita ilustração e muita citação de fonte. uma arte decifra o significado dos símbolos água, serpente, dentes, nudez e morte. a interpretação é primária. Jung, citado já na abertura da matéria, deve estar se revirando no túmulo ao ver como seus conceitos de arquétipo e de inconsciente coletivo foram apropriados para construir uma capa de auto-ajuda.

as revistas semanais dão grande valor às pautas de comportamento. cada vez mais, a se julgar pela presença destas temáticas, os leitores se vêem seduzidos por guias de comportamento, sempre recheados de citações de “especialistas”. não tenho como avaliar se esta capa aumentou a vendagem em bancas – pela promessa do “aprenda” ou pela promessa de que seria possível prever o futuro.

o que é possível afirmar é que IstoÉ está em queda livre. o jornalismo praticado é de baixíssima qualidade. suas capas são irrelevantes, suas abordagens são superficiais e presumem um leitor idiotizado. leio agora no Comunique-se que o Grupo Três, que edita IstoÉ, entrou em acordo com seus credores para evitar o processo de falência. a dívida chega a R$ 750 milhões.

é melancólico ver tudo isso. especialmente para quem se lembra, como eu, da excelência de IstoÉ Senhor. quem abandona o rigor e a qualidade, em nome de um jornalismo simplista, não tem salvação neste mundo. deveria ter?

17 maio 2008

mi-mi-mi

existe alguém mais patético que Sérgio Mallandro? seu espírito histriônico, seus mi-mi-mi, seu eterno boné anti-envelhecimento e seu ar de galã cafajeste decadente são insuportáveis.

agora leio que João Gordo entrevistou esta figura ridícula. e que, na entrevista, Mallandro disse que João Kléber lucrou muito em cima de suas criações – como, por exemplo, o fajuto “Teste de Fidelidade”.

é engraçado, porque Sérgio Mallandro e João Kléber estão sempre associados na minha mente. se um é citado, logo eu penso no outro. para mim, são praticamente gêmeos. a diferença é que Mallandro sempre se portou de forma bufa, e João Kleber fica tentando dar um verniz para o que é absolutamente rasteiro. o fato é que eles sintetizam o que de pior a televisão brasileira já produziu, pela irrelevância, pela forma de tratar as pessoas, pelas armações que subestimam a inteligência do público.

uma vez eu estava em um hotel, esperando meu acompanhante para jantar. fiquei alguns minutos assistindo ao tal “Teste de Fidelidade”. no começo achei engraçado, pois tudo que é excessivamente estúpido me faz rir. depois aquele troço foi me dando o que chamo de náusea filosófica – uma enorme vergonha da pertencer à espécie humana – e muita fúria por ver uma TV, que é concessão pública, dar espaço nobre para algo tão grotesco.

outro dia, zapeando, peguei um trecho do programa do João Gordo. ele estava entrevistando Eliana, aquela que as crianças de outrora chamavam de “Eliana Dedinhos”. adivinhem o que ele estava dizendo para a ex do Roberto Justus. sim, adivinharam. ele estava fazendo uma piada de péssimo gosto sobre onde ela, agora, colocava seus dedinhos.

isso tudo me faz pensar onde anda o projeto original da MTV. e como uma emissora que poderia ser realmente alternativa acabou caindo neste abismo cultural. João Gordo dando espaço para o patético Sérgio Mallandro, Penélope Nova se fazendo de gatchinha e dando conselhos hediondos sobre sexualidade. é o fim da várzea. mi-mi-mi.

02 maio 2008

morte ao ar quente

é muito bom quando o frio chega. com chuva, com sol, com vento. para mim, tanto faz. adoro tanto os dias cinzas de frio quanto as tardes de solzinho aconchegante.

o que não dá para entender é por que as pessoas ligam o maldito ar quente em tudo que é lugar. como no supermercado Zaffari, por exemplo. ainda não entendi se é uma espécie de sadismo ou se eles querem ver se as moças estão com lingerie nova.