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22 dezembro 2011

muito ar

nunca se sabe ao certo quando é hora de alguma coisa. é um pouco como tatear no escuro. tentar um pouco, recuar, deixar quieto. mas talvez seja hora de voltar ao blog. sim, esta ferramenta do dizer que alguns já declararam morta. e que eu prefiro ver em suspenso, ao alcance da mão quando a mão achar que deve. 

por motivos vários, o ar tem sido um elemento importante pra mim. talvez, nos últimos tempos, "o meu" elemento. (embora sejamos todos, eu e você, feitos de todos os elementos - e da minha lista imaginária constem o titânio e o isopor.)

então, relendo Bachelard e seu maravilhoso "O ar e os sonhos: ensaio sobre a imaginação do movimento", encontro excertos que um pouco dizem, um pouco assopram, um pouco arrasam. como os ares profanos da imaginação.

"Com o ar violento poderemos compreender a fúria elementar, aquela que é só movimento e nada mais que movimento. Encontraremos aí importantíssimas imagens em que se unem vontade e imaginação. De um lado uma vontade forte que não se liga a nada, e de outro uma imaginação sem nenhuma figura, se sustentam uma à outra. Ao viver intimamente as imagens do furacão, aprendemos o que é a vontade furiosa e vã. O vento, em seu excesso, é a cólera que está em toda parte e em nenhum lugar, que nasce e renasce de si mesma, que gira e se volta sobre si mesma. O vento ameaça e uiva, mas só toma forma quando encontra a poeira: visível, torna-se uma pobre miséria. Ele não exerce todo o seu poder sobre a imaginação senão numa participação essencialmente dinâmica; as imagens figuradas dariam dele antes um aspecto irrisório. [...]

"Aliás, se seguirmos em seu trabalho imaginário os grandes sonhadores da cosmogonia, não raro surpreenderemos uma verdadeira valorização da cólera. Uma cólera inicial é uma vontade primeira. Ela ataca a obra por fazer. E o primeiro ser criado por essa cólera que cria é um turbilhão. O objeto primeiro do homo faber dinamizado pela cólera é o vórtice. [...]

"O turbilhão cosmogônico, a tempestade criadora, o vento de cólera e de criação não são apreendidos em sua ação geométrica, mas como doadores de poder. Nada mais pode deter o movimento turbilhonante. Na imaginação dinâmica, tudo se anima, nada se detém. O movimento cria o ser, o ar turbilhonante cria as estrelas, o grito produz imagens, o grito gera a palavra, o pensamento. Pela cólera, o mundo é criado como uma provocação. A cólera funda o ser dinâmico. A cólera é o ato que começa. Por prudente que seja uma ação, por insidiosa que prometa ser, deve ela primeiro transpor um pequeno limiar de cólera. A cólera é um mordente sem o qual nenhuma impressão se impõe ao nosso ser - ela determina uma impressão ativa.

"[...] há atividade da imaginação quando há uma tendência a passar ao nível cósmico. Não é no detalhe da vida que se formam os devaneios valorizados. O primitivo teme mais o mundo que o objeto. O terror cósmico pode realizar depois num objeto particular, mas a princípio o terror existe num universo de ansiedade anterior a qualquer objeto designado. É o assobio violento do vento que faz tremer o homem que sonha, o homem que escuta."

[Gaston Bachelard]

não há criação sem cólera, tensão, tempestade. os hipócritas querem arte, desde que não tenham que lidar com a inteireza estranha de quem cria. e o próprio criador, inserido compulsoriamente em um mundo cínico, tenta expulsar de si o que lhe é mais intenso, singular e gerador. não, não, não. os ventos calmos são divinos. e os ventos furiosos também.
 

01 fevereiro 2008

leitor

o jornalismo só deveria ser produzido pelos conseqüentes. só deveria ser praticado por aqueles que sabem que ao menos um leitor será afetado por suas palavras. e que este único leitor, seja ele assim ou assado, more ele aqui ou acolá, ganhe ele muito ou nada, este único leitor não merece menos do que a verdade.

quando um jornalista profissional se apodera de um texto que não é seu, e o assina como sendo seu, ele não está sendo apenas leviano. também é muito mais do que um crime – previsto em lei – o que ele comete.

ele demonstra seu desprezo pelos princípios basilares do jornalismo. ele revela que o leitor não vale nada. ele mostra como subestima o jornal para o qual escreve e o editor para quem submete “seus” textos. ele exibe seu caráter, ao imaginar que o verdadeiro autor não se sentiria ultrajado. ele evidencia sua incompetência e seu despreparo para exercer a profissão, no mau domínio das leis e do exercício da ética.

eu trabalhei como jornalista. ensino, pesquiso e leio jornalismo. se existe algo inegociável, para mim, é a postura ética do jornalista. entre outras coisas, isso diz respeito a como o profissional se comporta com as fontes, como constrói uma pauta plural e como lida com as informações que vêm das assessorias. tudo isso porque, no final, está um leitor. pouco importa se é um jornal grande ou pequeno. basta um leitor, unzinho só.

o leitor brasileiro é maltratado de todos os lados. pela invasão da publicidade, por certos colunistas que são menos especialistas e mais cães de guarda dos donos das empresas, pela falta de crítica contundente, pela informação cada vez menos contextualizada, por profissionais sem memória, por informações irrelevantes de subcelebridades.

isso já basta para compor um quadro injusto com o leitor. não é preciso somar a ele o ultraje do plágio. é jornal? é jornalismo? é jornalista? então respeite seu leitor.

02 dezembro 2007

marromêno

você sabe que o mundinho ficou mais ou menos quando a notícia do momento é quem vai cair para a segunda divisão, e não quem vai ser campeão.

12 novembro 2007

o Mesmo


Lucian Freud

o Mesmo e o Outro são os personagens de uma história que acaba sempre igual. por mais virtudes que o Outro tenha, o Mesmo tem a maior vantagem: com ele, nada se move. quem escolhe, agarra-se aos conhecidos defeitinhos do Mesmo para argumentar contra o imponderável que o Outro representa.


não importa o quanto o mundo gira e as idéias brilham, as cadeirinhas vão sendo sempre ocupadas pelo Mesmo. e o Mesmo é mantido em seu lugar, dizendo a todos que nada vai mudar – ainda que mudar significasse mudar para melhor.

23 outubro 2007

à deriva

existe algo de muito belo e de muito estranho em saber-se sozinho. nossas zonas de sombra, tão assustadoras e que nos compõem como figuras imprevisíveis, parecem se esgueirar entre as luzes, as formas e os volumes de um mundo concreto que não compreendemos. por que é mesmo que o mundo se marca por estes compassos? por que estes, e não outros?

quem não é feito de claro e escuro? quem não tem ranhuras? é tentador se imaginar máquina – racional, sistemática e coerente. uma máquina pode ser programada, controlada e desligada. já os seres humanos, tão turvos e indomáveis, são perigosos em sua natureza movente.

alguns precisam de raízes, outros apenas ancoram aqui e ali. o fato é que somos, todos, os sujeitos à deriva de Deleuze. somos constantemente empurrados ao mar, uns mais que outros, pois uns mais turbulentos e mais sangüíneos. às vezes, para retornar ou avançar, só nos resta observar as estrelas em total quietude. elas não nos dizem apenas onde estão o norte e o oeste. elas dizem de nosso minúsculo tamanho e de nosso ínfimo poder. dizem que no final, a despeito de tudo, cada um está sozinho na tarefa de lidar com suas sombras, e que há nisso algo de muito doce e de muito assustador.

10 outubro 2007

quase

defina quase. para mim, é mais que um advérbio. quase é uma sensação. quase deu. quase foi. quase é aquilo que você engole em seco. o quase queima e arranha. o quase traz um sofrimento encabulado. o quase é uma frustração. você fez tudo, quis muito, empenhou-se. e ficou no quase. porque, entre o que você queria e o que você podia fazer, interpõem-se sempre outras vontades: o destino, o interesse de alguém, o que você não entende, o que não faz sentido.

é assim que você corre e o ônibus arranca quando você está quase chegando à parada. que seu objeto de desejo desvia o olhar quando você está quase se entregando. que você acorda quando seu sonho está quase lhe dizendo o que precisa dizer. e é assim que, depois de todo esforço consciente e coletivo, você quase consegue receber uma avaliação justa da Capes.

19 setembro 2007

04 setembro 2007

legitimidade

poucos temas são mais intrigantes, para mim, que o sempre retomado tema do poder. existe uma diferença entre a autoridade e a legitimidade no exercício do poder. alguns lançam mão apenas da autoridade – “eu posso, então digo; você não pode, então ouve”. para fazer uso da legitimidade, entretanto, é preciso conquistá-la. a legitimidade não diz respeito à forma como eu me vejo. ela é fruto de reconhecimento. ela é concedida pelos outros.

é assim que, em uma situação clara de hierarquia, uns podem mais e outros podem menos. quem usa apenas sua autoridade eventual, fruto de uma posição de sujeito provisória, pode até se sentir confortável em seu pequeno nicho de poder. é fato, porém, que não avançou um milímetro na conquista de legitimidade – porque esta é concedida por iguais, que não se deixam perturbar por jogos de poder e sabem avaliar, criteriosamente, a consistência e a inconsistência de cada palavra dita.

24 agosto 2007

o que instiga

o Sean fez um post sobre palavras de sons interessantes. o post funcionou como um ímã, para mim, porque algumas idéias são mesmo puro ímã. e fiquei voltando lá, a todo instante, para comentar e jogar palavrinhas.

isso se conectou a uma discussão que tomou forma – no melhor dos trocadilhos – na minha aula de quarta-feira, provando que todas as tardes, inclusive as de quarta, podem ter o sentido que quisermos dar a elas. em plena discussão acalorada, levanta-se o nada óbvio conceito de que a forma é formante: no discurso, a forma e o conteúdo não se separam. e o sentido, que as pessoas habitualmente buscam apenas no que entendem por “conteúdo”, está formado também pela forma. numa redundância proposital, a forma é formante, porque isso constitui um conceito.

no meio de todos os comentários do post do Sean, em que as pessoas foram lançando palavras aprazíveis, pelos sons ou pelos sentidos, Carrion disse algo que me chamou a atenção. e estes pequenos ímãs, que quase nunca se explicam logo de saída, levaram muitas horas para fazer outros sentidos na minha mente confusa. ele postou diversas palavras de que gostava. uma delas era instigante, pela capacidade de sintetizar inúmeros sentidos em um só.

sim, é verdade. instigante é uma das palavras de que mais gosto. não pelo som engraçado, como estava sendo meu raciocínio ao comentar, mas pelos sentidos que provoca, de modo mais abrangente. costumo cheirar algo que me parece bom, porque tenho prazer com certos cheiros. sinto-me instigada, imediatamente, e quase não consigo resistir quando alguém ou algo me parece bom de cheirar.

normalmente meu olho é chamado pelas imagens, cores e volumes que sugerem texturas, pois texturas me instigam. nem sempre posso tocar, e na maioria das vezes não é preciso. o desejo do tato foi acionado, e instigar os sentidos é um grande deleite. quando uma mão macia, que era apenas uma imagem, realmente toca, o que se concretiza é um prazer que só um sorriso interno pode narrar. por isso acabo tocando as capas de certos livros, que me convidam, as tampas de certos objetos e o umbigo do Buda que fica ao lado do meu computador.

mas o que me instiga, mesmo, é uma outra mente instigada. quando um outro bate, rebate e sente prazer no movimento do mútuo instigar-se. este é o meu grande prazer: saber-me na presença de alguém que me instiga e se deixa instigar. quando alguém está cansado do mundo, ou acha que sabe o suficiente, ou se acha suficiente para o mundo, não há nada a fazer a não ser ir embora. quando os olhos brilham com uma idéia, um caminho, uma estradinha, um mapinha, ainda existe algo a fazer.

04 agosto 2007

ovos podres

há algo de podre no reino da Dinamarca. e a Dinamarca é aqui. a ciência avança, a tecnologia avança, os índices de analfabetismo diminuem. em tese, vivemos em uma sociedade cada vez mais civilizada, em oposição a uma era que teria deixado de ser primitiva. não é, porém, o que se percebe no comportamento cada vez mais autocentrado de grande parte das pessoas.

ontem estávamos esperando um sinal abrir, em meio ao trânsito caótico da Cristóvão Colombo. uma calçada destruída, como a maior parte das calçadas da Porto Alegre de Fogaça, era páreo duro para um cego que tentava caminhar. e lá vinham três garotas adolescentes, com suas mochilas caras e suas roupinhas caras. em vez de guiar o cego, o que teria tomado uns 40 segundos de seu precioso tempo, elas riram dele. não, elas gargalharam. na cara dele. que é cego, mas não é surdo. e tem sentimentos, vejam só que coisa incrível.

não é difícil imaginar que espécie de crianças sem limites e sem noções de compaixão estas garotas foram, nem é difícil supor em que tipo de mulheres elas irão se transformar. de certo modo, elas serão como a grande massa de seres de seu tempo.

hoje leio que Boninho, aquele gênio que nos deu de presente o maravilhoso Big Bosta Brasil, o programa que vai do nada a lugar algum e que enche de dinheiro a Rede Globo e as companhias de telefonia, aparece em um vídeo no Youtube dizendo que se divertia atirando ovos podres “em muita vagabunda em São Paulo”. claro, como é um ser altamente qualificado do ponto de vista moral, ele sempre esteve apto a fazer a crítica do comportamento alheio, inclusive uma crítica ovística. e, sim, do alto de seu prédio ele também sabia identificar se uma mulher era “vagabunda” (seja lá o que isso significa, perguntem para ele) ou não era. só não sei se joga ovos na tela da TV enquanto assiste ao programa que ele mesmo dirige todo ano na Bobo. a Rede Globo disse que Boninho não falou sério. estava brincando e “sendo irônico”. aham. a gente notou. não precisavam nem ter se dado ao trabalho de explicar.

no mesmo vídeo que circula no Youtube – e que misteriosamente desaparece de forma sistemática –, a relevante socialite de nome auto-explicativo Narcisa Tamborindeguy confessa que também adora jogar ovos e comida nos outros. mas ela também joga flores. ah, bom.

o dia lá fora é cinza e úmido, e confesso que combina com minha percepção sobre o vazio e o prazer imediato que move muitas pessoas. a alteridade é um conceito em baixa. o outro não existe, portanto não tem sentimentos. talvez seja mais fácil viver assim, pois não preciso parar para pensar se meu prazer sobrevive aos limites do outro. não sei que espécie de sociedade, de modo geral, estamos construindo. infelizmente, Shakespeare continua atualíssimo.

28 junho 2007

surdez e voz baixa



li um post na Adriana, sobre uma carta do tarô, o Eremita, e escrevi um comentário tão grande, que resolvi fazer outro texto. esta é uma das características dos blogs, os comentários que rendem posts (e sem pagar royalties).

todos os arcanos maiores são cartas importantes. um de meus livros permanentes de cabeceira é “Jung e o tarô: uma jornada arquetípica”, em que Sallie Nichols, que foi aluna de Jung, analisa cada arcano como uma etapa da jornada individual. este livro está esgotado, mas, se você encontrar em algum sebo, eu recomendo.

o Eremita é o Velho Sábio. é um arquétipo que fala de uma sabedoria interior, aquela que você não busca nos livros, nos amigos e nos falatórios das ruas, mas dentro de si mesmo, em uma quietude solitária. este velho não é sábio porque tem 90 anos, na verdade estamos falando de um tempo interno, que independe de qualquer contagem óbvia. todos nós, tenhamos 15, 40 ou 80 anos, em algum momento nos recolhemos para uma montanha imaginária em busca de uma resposta existencial.

o Eremita chama a atenção para uma sabedoria que eu chamo de “surdez e voz baixa”. quando você pára de ouvir os outros e pára de gritar o que pensa, porque é hora de ficar quieto para se deixar ouvir, como se você fosse uma outra pessoa e tivesse uma vida de experiências importantes a relatar para si mesmo. Jung diz que nosso inconsciente retém tudo o que nos interessa, como se tivéssemos uma visão periférica que guarda tudo o que vê. arquivamos milhares de informações sobre o mundo e as pessoas, ao longo da vida, porém não estamos acostumados a confiar naquilo que chamamos de “intuição” — a capacidade de tomar uma decisão sem base racional, mas que na verdade está fundada em um conhecimento anterior que está armazenado em algum lugar.

é este Velho Sábio, que surge de vez em quando, quem nos diz que é hora de ficar sozinho e ouvir o que temos guardado. não é preciso abrir um livro, nem recorrer ao melhor amigo, nem ir ao divã. é preciso ter coragem de ficar alguns momentos nesta montanha imaginária, observando o mundo, em silêncio, um pouco surdo aos apelos dos outros, para descobrir o tamanho real de nossas angústias. só então poderemos encontrar uma resposta autêntica — a resposta que serve a nós, e não importa se serve aos outros.

na iconografia do tarô, o Eremita geralmente carrega um lampião e um cajado. a luz representa sempre uma crença no futuro e a capacidade de encontrar um caminho, mesmo que o ambiente pareça soturno. um sábio nunca tem medo da noite e da escuridão, pois de certo modo contém uma verdade iluminadora. na mão, o cajado de quem não teme percorrer o mundo e sabe que a jornada é cheia de caminhos íngremes e áridos. quando mais sábio, mais movente.

para quem não conhece o tarô, esta carta parece um pouco assustadora. ela parece dizer que você está sozinho e não tem com quem contar. no entanto, é o oposto disso. esta é uma das cartas mais impressionantes dos arcanos maiores. significa que você pode contar com a melhor pessoa de todas: você mesmo. significa que você contém uma enorme sabedoria, mas talvez não esteja confiando plenamente no que já aprendeu, no que já reteve de informação sobre o mundo. esta carta representa sua capacidade intuitiva, sua voz baixa e poderosa, a necessidade de quietude para adquirir confiança em suas decisões. e significa, especialmente, que nada do que você viveu foi em vão: todos os seus aprendizados estão retidos, em algum lugar muito importante de sua mente, e é hora de fazer valer sua enorme inteligência para se fazer surdo aos valores dos outros e atento aos seus próprios rumores interiores.

19 abril 2007

o louco



de todas as cartas do tarô, a que mais me fascina é O Louco (ou O Tolo). não por acaso, é a primeira carta dos Arcanos Maiores. é o herói que inicia sua jornada, representado, nos mais diversos baralhos, como um idiota ingênuo que caminha sem olhar onde pisa. em algumas iconografias, ele caminha precisamente para um abismo, levando apenas uma trouxinha nas costas. a despeito da tragédia que o espera, está feliz. e ainda tem a companhia de um simpático vira-latas.

quem conhece o tarô sabe que estamos tratando de arquétipos. e quem conhece Jung e sua arquetipologia, sabe que isso é a vida em seu mais puro psiquismo. não se trata de reconhecer o tarô como ciência ou de lhe dar um estatuto de adivinhação sobre o futuro. francamente, esta é uma discussão que me interessa muito pouco. o que realmente me interessa é compreender a jornada arquetípica dos Arcanos Maiores e o significado dos quatro elementos (água, fogo, terra e ar), no caso dos Arcanos Menores.

o Louco está em você quando você inicia uma jornada. o pressuposto é que a vida é formada por ciclos. mas um novo ciclo só acontece quando outro se encerra, o que significa que algo deve terminar para que outro algo possa começar. e então temos as dificuldades operacionais de abrir espaço, interiormente, aos nossos Loucos.

primeiro, porque geralmente não permitimos que os ciclos se encerrem. temos grande dificuldade em deixar pessoas e projetos “irem”. às vezes isso soa como perda (e pode ser), outras vezes entendemos como fracasso. nossa cultura não nos habituou ao desprendimento, especialmente em relação ao outro. nem sempre vemos que deixar alguém ir, o passado ir, é um ato de generosidade e de coragem.

segundo, porque geralmente temos medo do desconhecido. outras rotinas, com outras pessoas, desafios, linguagens e propostas são coisas que podem nos desestabilizar. é preciso ser um pouco Louco para aceitar começar tudo de novo, colocar uma trouxinha nas costas e ver no que vai dar.

terceiro, porque não admitimos que somos seres altamente imaginativos. estamos tão empenhados em fazer sucesso, obter reconhecimento e ser desejados, que deixamos de lado qualquer coisa que signifique o risco do ridículo ou do patético. não nos permitimos ser Tolos. estamos sempre muito preocupados em olhar firme para o chão que pisamos e em levar uma mala cheia das coisas que poderemos precisar.

os Loucos que moram em nós são constantemente sufocados. alguns velhos ciclos estão pedindo aposentadoria, e ainda assim nós relutamos – por inércia, por medo, por excesso de apego, por erro de avaliação. bastaria pegar a trouxinha, chamar o vira-latas, abrir o sorriso e permitir-se ser Tolo, sob o sol, à beira do abismo. e ver o que há.

09 abril 2007

dr. house



não sei quantas vezes comecei a escrever um post sobre House. não sobre o seriado “House”, mas sobre House, o personagem. aquele que podia dizer “my name is House, Gregory House”, e eu clamaria por umas literais bengaladas.

quando comecei a perceber o fenômeno Chico Buarque – ao qual Juremir Machado da Silva chegou a propor a criação de um genial “chicômetro” para medir “a sanidade das nossas quarentonas” – e um outro fenômeno de massa, o Alemão do Big Brother, foi que me dei conta da pertinência da velha questão freudiana: afinal, o que querem as mulheres? não sei. digam aí, mulheres: o que nós queremos? eu posso no máximo falar por mim. e eu, decididamente, quero House.

por que não quero Chico e por que não quero Alemão, mas quero House? conversas de mesa de bar, banheiros femininos e corredores são sempre muito proveitosas para quem quer entender a misteriosa “alma feminina”, seja lá o que isso signifique. em princípio, parece que a alma feminina gosta de poesia, chora pelos cantos, é delicada e sonha em atirar um buquê de flores de laranjeira para as amigas menos afortunadas. de tudo isso, eu só gosto da poesia, ainda que seja da forte, curta e demolidora. talvez só uma parte da minha alma seja feminina, quem sabe. ou talvez os autores que construíram este ideal romântico tenham esquecido de incluir gostos como os meus entre os próprios das mulheres. o fato é que, em um almocinho despretensioso outro dia, uma amiga disse: “o Alemão é tudo que uma mulher quer, ele é perfeito: é cafajeste e é carinhoso”. bingo.

fico pensando no Chico e acho, bem levianamente e sem pretensão sociológica, que ele faz hoje todo este sucesso com as mulheres porque elas gostariam de ser Marieta Severo. foi com Marieta que ele dividiu a cama e os segredos. o sucesso um tanto histérico com as mulheres não advém exatamente, ou apenas, de sua música. um cara que viveu tantos anos com uma mulher deixa no imaginário de todas as outras que poderia fazer isso de novo, se encontrasse a mulher certa. e, bem, toda mulher se acha pelo menos um pouco certa.

teve ainda aquele lance um pouco cafajeste do Chico que acabara de se separar e pegou uma mulher casada, lembram disso? um encontro na praia, totalmente plantado pela assessoria dele, e que escreveu um “trouxa” na testa do maridão traído. ali começou a se desenhar a imagem de um Chico sexuado, nada tímido, que se deixa fotografar beijando (carinhosamente?) uma bela mulher casada.

Alemão, o Diego do Big Bosta Brasil, também mexeu com os hormônios femininos. as mulheres que se derretem por Alemão querem ser um pouco Siri, a caipira que parece ter conquistado o coração do caçador. Alemão fez todos os truques e jogou todos os joguinhos típicos dos cafajestes, inclusive as artimanhas do bom-moço. as mulheres caíram. e babaram. e eu corro o risco de apanhar só ao escrever isso.

antes que me trucidem, não estou comparando Chico Buarque a Alemão. ouvi Chico a vida toda. gosto mais do Chico antigo do que do Chico atual, mas continuo respeitando seu trabalho. estou falando de algo que vai além de sua obra, de sua poesia e de seu talento: estou falando de um imaginário sobre o “homem Chico”, que faz a maior parte das mulheres simplesmente delirar. algo que talvez nem mesmo o Chico compreenda bem. sobre o Alemão, bem, ele é isso. construiu uma imagem e vai viver dela enquanto o público pagar pra ver. as mulheres sustentam esta imagem, e os homens acabam reproduzindo o que pensam que as mulheres querem. e querem mesmo, a julgar pelas conversas de bar e pelos relatos das minhas amigas.

e House, dio santo? House é cínico até o ossinho. House não acredita em deus. destrói as crenças alheias com o uso do órgão sexual mais poderoso do ser humano: o cérebro. cada avanço de sua engenharia cerebral é um ponto na conquista do meu coração – é, eu sei que esta frase ficou cafona, mas eu sou uma pinta cafona. ele tem aquela mistura indescritível que atrai as mulheres, de um homem que não precisa de ninguém e que ao mesmo tempo precisa muito de qualquer coisa que você estiver disposta a dar, nem que seja um cappuccino. House tem um passado que não usa como moeda de chantagem, mas que está inscrito no corpo para dizer “não nasci ontem, não sou idiota”. não confunde generosidade com complacência. tem humor ácido, ferino, inteligente. e pode morrer com um segredo na boca, se isso for necessário para salvar um amigo.

mais importante que tudo: House sabe viver sozinho. não vai sofrer se você escolher ficar em casa numa sexta-feira enluarada, ou se você decidir sair com um amigo. ele sobrevive à sua ausência. House tem prazer no seu pôquer, no seu sofá e nos seus pacientes – ainda que pareça ter prazer mais pelo desafio da descoberta do que os pacientes têm do que propriamente pelo bem-estar deles. ele tem prazer até mesmo com suas próprias dependências e com seus próprios defeitos, o que significa também que pode aturar os seus defeitinhos, garota – embora todos saibam que nós, mulheres, não temos defeito algum.

House tem aquele olhar pidão de cachorro abandonado que logo esquece a carência e brilha porque alguma idéia interessante lhe passou pela mente. sim, tudo passa naquela mente. existe vida naquela mente. é por isso que eu quero House. porque ele é ateu, cínico, solitário, engraçado, leal, seguro e cheio de pequenas necessidades. mas principalmente porque ele tem aquele cérebro. piu piu.
update: se você chegou a este post pelos mecanismos de busca, talvez queira ler também este aqui, do dia 21 de março de 2008. just in case.

03 abril 2007

os arrogantes

quero falar, talvez de modo desordenado, sobre um tema que atravessa minha vida há muito tempo: as personalidades tidas como “arrogantes”. tenho ouvido com freqüência, nos últimos dias, a expressão “arrogância intelectual”. ela vem sempre acompanhada de um tom que me inquieta – pejorativo, ressentido, emitido com desprezo.

vivemos em um mundo altamente hipócrita, em que apenas fingimos estimular a opinião e o debate de idéias. na verdade, em geral não suportamos o embate da argumentação. não apenas porque não suportamos a idéia de que nossas certezas não passam de hipóteses relativas. mas também porque não suportamos a idéia de autoria, de sujeito que cria, propõe e desestabiliza.

vivemos imersos em uma grande contradição. de um lado, percebemos a nós mesmos como sujeitos singulares, dotados de inteligência e capacidade inventiva. de outro, negamos ao outro esta mesma singularidade. porque é a capacidade inventiva dele, é o olhar dele que pode nos desestabilizar. e quem quer ter suas crenças postas em xeque, em um mundo de limites já tão tênues onde mal sabemos nos movimentar?

a noção de alteridade, tão cara à filosofia, à psicologia e à linguagem, é o eixo da existência. o fato é que não sabemos lidar com ela. embora eu esteja fazendo uma generalização grosseira, habitualmente não sabemos lidar com o outro. não lhe damos lugar. todo lugar discursivo é nosso, o outro tem direito apenas a uma voz concordante em nosso discurso. parece óbvio que seja assim, em uma sociedade acostumada a reiterar o mesmo e temerosa do que é diferente.

quando o outro se levanta e diz o que não queremos ouvir, diz o que nos incomoda, diz o que consideramos absurdo, intolerável ou mesmo ofensivo, somos obrigados a sair de nosso tedioso e confortável lugar e ir em busca de um argumento. no mínimo, somos obrigados a reconhecer que existe alguém pensando diferente de nós – no mínimo, somos confrontados com a visão desagradável de que o que pensamos não é consenso e talvez não seja “a” verdade.

há muito tempo eu aceitei um traço peculiar de minha personalidade: gosto das pessoas tidas, pela maioria, como “arrogantes”. vejo nelas a coragem da autoria. vejo nelas a ousadia de, mesmo correndo o risco do equívoco, formular um pensamento complexo, fortemente argumentado, e ir até o fim na busca de novas certezas. gosto quando alguém se contrapõe a mim e me desestabiliza. não tenho medo destas pessoas, nem de seu tom incisivo, nem de sua capacidade criadora. acho que o fluxo do mundo depende é destas pessoas, e não daquelas que não se arriscam a expressar um gosto, uma opinião, um ponto-de-vista.

é evidente que o debate exige tolerância. mas não confundo tolerância com aceitação de argumentos inconsistentes. se não aceito um argumento, não sou obrigada a tolerá-lo, é meu direito contestá-lo. talvez seja mesmo minha obrigação, parte de minha honestidade intelectual. por isso eu gosto dos debates quentes e não vejo nenhum problema neles. não me incomodo com pessoas cheias de opinião, que falam na primeira pessoa e arriscam a própria pele. me incomodo, é claro, com os grosseiros de plantão que, sem argumentos, partem para a mera desqualificação do interlocutor. se eles percebessem o quanto isso diz sobre eles mesmos, talvez se abstivessem do vexame.

a tal “arrogância intelectual”, que seguidamente é interposta como desqualificadora de uma idéia, é vazia de sentido. ora, tudo que dizemos advém do que pensamos, e tudo que pensamos é intelectual. não importa nosso nível de formação. quero deixar claro que não estou fazendo uma defesa, aqui, da arrogância que impõe o que é certo e o que é errado – isso é exatamente o que eu abomino. estou questionando o que as pessoas normalmente classificam como arrogância apenas porque diverge do que elas pensam.

paradoxalmente, as pessoas que trazem mais risco para o mundo não são as “arrogantes”, mas precisamente as que se furtam a ter qualquer opinião. primeiro, porque nunca conseguimos compreender exatamente o que estas pessoas desejam, pensam ou do que são capazes. segundo, porque estas, sim, não estão habituadas ao exercício da alteridade. não sabem ouvir o outro, não lhe dão crédito, não lhe dão lugar. não apostam na capacidade inventiva de ninguém. estas, sim, são as verdadeiras arrogantes: auto-suficientes, autocentradas, ególatras. as que se escondem, as que dissimulam, as que se perdem na multidão são as que me causam verdadeiro horror. mas estas nunca se vêem como arrogantes. “arrogante”, como sabemos, é sempre o outro.

15 março 2007

inveja, esta incompreendida

Sean escreveu um post instigante sobre a inveja e o ciúme. o tema gera polêmica e revira nossas experiências. é preciso remexer um pouco em si mesmo para falar sobre isso. porém, mais do que ser polêmico ou intimista, o tema é instigante porque toca fundo no problema da linguagem: as definições que necessitamos criar para sensações fluidas, os sentidos de que “precisamos” revestir (com precisão lingüística?) o mundo abstrato dos sentimentos.

em seu post, ele chamou de ciúme o que eu julgo ser inveja. numa longa conversa de bar, ontem, não chegamos a consenso algum. tracei emaranhadas filosofias a respeito da inveja e do ciúme, fiz mapinhas com o dedo riscando a toalha, simulações do sujeito A com o sujeito B e o sujeito C. ele retrucou com outras filosofias enozadas, definiu termos com sua paixão singular pelo debate, para no final concluirmos que não havia conclusão possível. bem como devem ser as melhores conversas de bar.

o problema todo está nas definições. para ele, a inveja é essencialmente má. os dicionários concordam com ele, ou ele com os dicionários, não importa. para mim, porém, é a moral que interpõe à inveja um sentido intrinsecamente mau. esta noção de que invejar algo é necessariamente destrutivo – no meu entender, volto a frisar – é cultural, aprendida e, por isso, não me serve como essência.

usei um exemplo banal ontem. tenho uma amiga que tem um talento espetacular para usar as cores. além de conhecimento e experiência, ela é talentosa no equilíbrio e contraste de suas propostas imagéticas e extremamente criativa. eu reconheço nela este talento, é algo que admiro nela. no entanto, não a invejo por isso. não é algo que eu particularmente gostaria de possuir, não é algo de que sinta falta. apenas admiro, sinceramente, sem invejar. isto é admiração: o reconhecimento de que o outro tem algo que eu não tenho, algo que é bom ou especial. e ficamos por aí. é bom admirar coisas e talentos nos outros, me dá a certeza de que o mundo é plural, é vasto, é maior do que as minhas potencialidades. é um alívio saber que outras pessoas podem fazer tantas coisas melhor do que eu. sim, admirar é bom.

tenho outra amiga que tem algo que eu invejo: uma coragem imensa para superar dificuldades. uma coragem que tantas vezes me falta, pois eu me acanho onde ela se joga. no entanto, não quero que ela deixe de ter a coragem que eu não tenho e não quero que ela se dê mal em função desta coragem. apenas gostaria de ter também o que vejo nela. invejar, então, começa a se definir pelo simples reconhecimento de algo que existe fora de mim e que eu gostaria que existisse também em mim. isto é intrinsecamente mau? não. o certo e o errado, o bom e o mau começam a existir a partir do que eu desejo para o outro (e, claro, a partir do que eu decido fazer concretamente).

se quero privar o outro ou puni-lo pelo que sobra nele e em mim faz tanta falta, esta é a inveja má. esta é a inveja corrente, dicionarizada, restrita pela cultura e sua moral. esta é a inveja que faz alguém puxar o seu tapete, inventar algo que você não disse, ironizar qualquer conquista sua, fazer um comentário maldoso sobre seus avanços. esta é a inveja que corrói, seguindo a lógica do desdém (quem desdenha quer comprar?) ou a lógica do cinismo.

mas... e se eu invejo algo que outra pessoa tem (ou sabe) e quero ter para mim também, sem que o outro perca? não é apenas admiração, pois posso admirar algo sem desejar ser ou ter aquele algo. é mais que admiração, é o que eu chamo de inveja boa: vejo algo que me encanta e me faz falta, vejo alguém em que posso de certo modo me espelhar. quando penso nesta amiga e em sua coragem, sempre concluo “eu gostaria de ser assim”. tenho aquela pontinha de inveja que me impulsiona para algo, sem desejar nem por um momento que ela perca sua coragem apenas porque eu não a tenho.

o que quero dizer, com tudo isso, é que a linguagem é traiçoeira quando estamos tratando de sentimentos. é difícil transitar neste labirinto de definições, porque sempre acabamos esquecendo que as conceituações decorrem de um longo processo cultural, impregnado de moralidade. quando limpamos um termo de seu conteúdo moral, chegamos à nossa humanidade. e nossa humanidade é socialmente perigosa, pelo que contém de subversivo.

eu invejo quem cozinha bem e sabe manejar facas ao cortar cebolas. eu invejo quem sabe andar de bicicleta, quem não sua, quem dorme bem. eu invejo quem come e não engorda, quem tem dinheiro para viajar, quem lê Goethe no original, quem entende de cinema, quem faz a Europa de mochila. eu invejo quem compreende Nietzsche, quem dança tango, quem sabe escolher vinhos, quem entende de moda, quem goza sete vezes, quem faz belos poemas. eu não admiro, apenas, as pessoas que têm todos estes saberes. eu gostaria de saber e fazer tudo isso também. mas isso não significa que eu fuzile com o olhar o cara da bicicleta, deboche de um amigo que teve uma excelente noite de sono ou deseje que todos suem bicas na Porto Alegre de fevereiro. isto seria mau, mesquinho e destrutivo. que nome eu poderia dar a todas estas sensações, quando reconheço em alguém algo que me faz falta? não é inveja?

o problema todo é que, como fomos ensinados a compreender a inveja como essencialmente má, nós jamais admitimos ter inveja de alguém. a inveja é um dos sete pecados capitais, diz a ideologia cristã. todos os sete pecados, que na verdade foram criados para não deixar a luxúria reinando sozinha (tornando fácil desqualificá-la como um pecado), são absolutamente morais. quando digo que são morais, reconheço que em sua formulação existe uma tentativa de regramento social, pois é a partir da moral que certos limites são impostos para que a vida em sociedade não vire um jogo de vale-tudo. mas, quando pensamos sobre isso, acho interessante cutucar mais fundo para despir os sentimentos da roupagem cultural.

quanto ao ciúme, é certamente um dos sentimentos que mais faz sofrer. ele é parente da inveja, mas é muito pior do que ela. o ciumento quer o outro para si, não aceita dividir, basicamente por insegurança. tem medo de perder se houver uma comparação, tem medo de não ser mais o objeto merecedor de atenção, amor e desejo. o alvo do ciúme se sente tolhido, cerceado e vê sua lealdade posta em xeque, o que é altamente destrutivo. o ciumento se sente menor, humilhado, impotente e ridículo. o ciúme nada tem de positivo ou enriquecedor, pois traz consigo uma noção triangular: eu só tenho ciúme de alguém em relação a um terceiro, e neste movimento eu acabo tirando deste alguém a sua liberdade e individualidade. o ciúme arrefece com a maturidade, quando a gente compreende que amor bom é amor livre, é amor que fica porque quer ficar – para todo o resto, existe Mastercard.

18 fevereiro 2007

e pronto

dei uma oficina de texto esta semana na Fabico. na primeira aula, uma aluna disse: “é difícil, as palavras sempre fogem”. na hora me lembrei de um poema do Paulo Leminski:

RAZÃO DE SER

Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

escrevo porque preciso. preciso porque estou tonto. e pronto. não tem que ter por quê.

por puro prazer, reli recentemente “Seis propostas para o próximo milênio”, do Italo Calvino. um livro inteirinho dedicado aos valores literários que, na opinião dele, deveriam ser preservados no século 21. um deles me diz muito, o que ele chamou de visibilidade. o texto é sempre uma tentativa de tornar visível uma idéia mental, de materializar discursivamente uma imagem. para escrever, é preciso ter coragem de viver a imaginação.

quando, há algum tempo, decidi estudar este campo magnífico do imaginário, as motivações não me eram muito claras. dizia para mim mesma que o motivo era minha crença de que o jornalismo expressa nossa humanidade, e nossa humanidade ancora-se em uma ancestralidade ou universalidade que é anterior à cultura. internamente, porém, eu sabia que meu interesse era egoísta, mundano e nada tinha a ver com a academia. eu estava interessada em nossa constituição arquetípica, que se revela em tudo aquilo que a ciência despreza: as cartas do tarô, as linhas da mão, as lendas, os mitos, os rituais, as bruxas, os enigmas, os sentimentos que atravessam a história sendo sempre retomados e recontados.

ao ler com mais afinco Jung, Bachelard e Durand, compreendi por que a imaginação foi sendo sistematicamente desprezada e encurralada no canto escuro da sala ao longo dos tempos. a igreja e a política não toleram a imaginação, pois esta é amoral. para uma sociedade regrada, parece fundamental transformar a imaginação na “louca da casa”.

o fato é que todos nós, em algum momento, ficamos tontos. e então precisamos expressar esta condição. as palavras nos fogem porque é difícil expressar exatamente o que sentimos, pensamos e desejamos. e também porque liberar nossos monstros internos tem um quê de perigoso: nunca se sabe o que o outro, em seu próprio gesto de interpretação, vai pensar de nós.

a maior parte de nós, porém, vive aprisionada na caricatura de um personagem que foi lentamente criado pela cultura e que nos diz como devemos ser e agir. o custo de permanecer na dramaturgia deste papel social é perder a chance de viver todas as outras personas que vivem em nós.

quando alguém me diz “não sei escrever” ou “não tenho talento”, eu vejo ali um sujeito criativo cerceado por uma crença: a de que as palavras fluem sem dor e sem esforço para quem “tem talento”. é um equívoco imaginar que escrever seja uma tarefa fácil. Hemingway reescreveu o parágrafo final de “Adeus às armas” trinta vezes.

por tudo isso, sou fascinada pelo mundo maravilhoso dos blogs. navego muito e sempre caio em páginas de que não gosto. para mim isso não importa. o que importa é que alguém escreveu o que queria, da forma como escolheu se expressar. se não gosto, não volto. se gosto, volto. e cada um que seja feliz com seus textos e suas palavras fugidias. eu mesma tenho outros dois blogs (não, não dou o endereço), onde exercito outras faces da minha imaginação. ninguém é um só. a imaginação é libertária. por trás de um anônimo ou de um personagem fake, existe uma faceta da personalidade de alguém real.

por isso, quando você quiser escrever, apenas escreva. reescreva. e pronto. não tem que ter por quê.

26 janeiro 2007

um sapinho na lagoa

tem um dia, assim, em que as coisas dão errado? em que você se sente um sapo estranho, a coachar no vazio? é, tem. um dia em que você ouve um “não”. um dia em que seus sonhos imediatos não se concretizam. um dia em que você sente falta de alguém para compartilhar seu silêncio.

às vezes a vida é esta coisinha mais ou menos, que nos deixa perplexos diante de sua falta de critérios. por que algo dá errado? por que um projeto naufraga? por que aquela pessoa não está? não sei. ah, se pudéssemos saber.

o que eu sei é que um dia nasce depois que uma noite morre. os monstros noturnos não parecem tão assustadores durante o dia, e a sombra que mora em cada um de nós mostra seu avesso, cheio de inspiração. o que eu sei é que a vida tem seus caminhos tortuosos para ensinar do que precisamos, o que interessa e quem interessa nesta curta vida.

os sucessos e os fracassos são provisórios. acima de tudo, eles são um gesto de interpretação. o que você vê como um fracasso, eu posso compreender como lição. o que você entende como sucesso, eu posso perceber como ilusão.

a cada sapo, a cada dia, sua lagoa. por vezes iluminada, por vezes chuvarenta. a lagoa que nos rouba pessoas importantes e projetos é a mesma lagoa que nos inspira outros trajetos. e assim vamos, coachando devagar. coachando no silêncio, mas nunca no vazio.

(postinho dedicado a um sapo que coacha belamente.)

22 janeiro 2007

perturbador


tem uma lua linda lá fora. um fio de lua, um risquinho no céu. e uma mulher, no meu prédio ou em outro, chora em desespero. as luzes de dois apartamentos de repente se apagaram, como que por respeito. tento entender de onde este choro vem, mas na verdade gostaria de saber por que ele vem. é doído, sincero. é alto, uivante, perturbador.

por que a gente chora quando sofre? nunca compreendi bem o mecanismo do choro, o descontrole em que somos jogados por um sentimento que precisa se expressar, mas não encontra palavra alguma. somos um pouco animais, um pouco selvagens, um pouco dementes. e não há como não tremer, quando alguém chora assim e não nos deixa saber por quê.