02 março 2006

epifania

um dia, já longe no tempo, passamos a nomear todas as coisas, as concretas e as abstratas. criaram-se então os adjetivos, para diferenciar um olhar tímido de um olhar mentiroso, um toque desajeitado de um toque áspero, uma lua triste de uma lua envergonhada. na sofisticação da linguagem, tentamos sempre, e desesperadamente, encontrar o sentido menos ambíguo, o termo perfeito, a expressão exata. por trás de tudo, por baixo de tudo, permeando tudo, o insistente silêncio, o teimoso silêncio que perturba, desconcerta e, em sua densa escuridão, angustia.

há coisas, porém, que não são nomeáveis. contêm em si tanta beleza ou tanta verdade, que não há palavra capaz de condensá-las. não há verbo que lhes seja suficiente e não há cor que com precisão as represente. quando estes sentimentos são percebidos, quando se tornam repentinamente visíveis embora permaneçam paradoxalmente disformes, somos confrontados com a pobreza de toda linguagem diante do mais cálido silêncio. estes momentos de pura epifania, porém, bastam para alimentar o que temos de mais humano, de mais singular e de absolutamente intransferível para outra pessoa. só aquele nariz é capaz de conter aquela dignidade, só aquela voz pode reter aquele tom, só aquela mão pode ofertar aquela verdade.

não há, no mundo, sentimento mais precioso do que aquele que não cabe em nome já dito. nem calor mais bendito.

Um comentário:

Sean Hagen disse...

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abrindo os trabalhos, cá estou.
não esquece de mandar o convite pra inauguração.


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