19 novembro 2006

ética? onde?

assassinatos nem sempre são notícia. quando se trata de um duplo homicídio a facadas, quando os mortos são um casal na faixa dos 70 anos, quando a cena do crime é um bairro de classe média de São Paulo e quando um filho de 40 anos, também ferido, sobrevive ao crime, vira notícia de primeira página. até aí, nada demais. como jornalista, entendo e defendo a noticiabilidade de um fato como este. eu daria na primeira página.

o problema começa nos desdobramentos. todo homicídio tem um assassino. às vezes tem mesmo um mandante altamente interessado. e todo homicídio deste porte acaba nas mãos de um delegado que investiga e posteriormente oferece a denúncia para que a Justiça faça seu trabalho.

os jornalistas sabem como tudo isso funciona. sabem, ou deveriam saber, a diferença entre um suspeito, um acusado e um culpado. a polícia não julga a culpabilidade, apenas indica um acusado, depois de averiguar o suspeito ou, como se haveria de esperar, os suspeitos.

no entanto, os jornalistas continuam sendo levianos no uso do poder que detêm. basta que um delegado apressado indique o filho como suspeito, para que a notícia ganhe uma chamada sensacional — o parricídio, como bem lembra o Träsel, ainda nos parece o crime mais horrendo, pelos tons de ingratidão e frieza que carrega.

o que aconteceu no caso do Sumaré pode ser deduzido: os jornalistas perguntam “o filho é suspeito?”. o delegado afirma “sim, é uma das linhas de investigação”. em vez de dizer “não podemos afirmar”, o inábil delegado fornece aos ávidos jornalistas o que faltava para tornar tudo ainda mais sensacional.

os jornalistas, que temem ser furados pela concorrência e estão pouco preocupados com as conseqüências de suas palavras, indicam o filho como suspeito. o pobre coitado, além de sofrer uma agressão injustificável e ter de lidar com a perda dos pais, ainda se vê atirado à opinião pública como uma espécie de monstro. imediatamente a casa é pichada com “assassino”. imediatamente encontra-se um culpado, pois a sociedade não espera que as etapas de um Estado democrático se cumpram: o que importa é resolver aqui e agora o que nos incomoda. apontar o dedo e dizer “você é culpado, dane-se você”.

hoje o assassino se entregou à polícia: um vizinho, que entrou na casa para roubar. do delegado apressadinho, não se ouviu falar. dos jornalistas levianos, tampouco. alguns dirão que a palavra “suspeito” ou a relativização do “teria assassinado” bastam para eximir o jornalismo de responsabilidade. não é o que eu penso. o jornalismo, pela legitimidade de um discurso que “diz a verdade”, tem uma repercussão que nem podemos imaginar quando redigimos nossas notícias. ao longo dos anos, temos acompanhado casos como este, que se repetem e se repetem sem que os editores aprendam nada com o passado.

o que está faltando, exatamente? penso rapidamente em três elementos: maturidade e vivência dos repórteres, em um corpo profissional cada vez mais jovem e sem experiência de vida; responsabilidade dos editores, que têm a obrigação de compreender o papel que exercem socialmente e o peso das palavras que editam; formação ética nas universidades. podemos ficar felizes por viver em um país que exige diploma de jornalismo para jornalistas, porém é preciso analisar o que está sendo efetivamente ensinado nas escolas de jornalismo. ética não deveria ser uma disciplina opcional, e sim um saber obrigatório. ética é mais do que conhecimento da legislação, é compreensão sobre o outro, sobre o leitor, as fontes e os investigados. é capacidade de analisar a própria atitude e pôr em prática determinados princípios morais.

mas para muitos ética é uma coisa cansativa, defendida por gente antiga, chata e estressada. como eu.

14 comentários:

Maitê disse...

Oi Márcia. é, vai que ela resolveu se redimir dos seus pecados e escolheu o Tom Cruise pra isso. É provável. Sobre este caso, quando eu li na Folha que ele era o culpado, no caso, o filho, logo me lembrei do Caso Richthofen. E isso fecha também com o caso Gil Runai (acho que é assim o nome daquele rapaz). Parece que quando a mídia, digamos assim, consegue acertar alguma previsão, como fez no caso da Suzane e do Gil, eles acham que todos os crimes que estão ocorrendo com certeza tem o dedo do filho. Que tudo se repete. E isso acontece bem como vc diz, na necessidade de competir, de dar a notícia primeiro. Eles não fazem nenhuma pesquisa, eles simplesmente dão a primeira coisa que aparece. A imprensa está parecendo revistas e tablóides britânicos sobre celebridades. Alguém disse que alguém fez alguma coisa, aquilo já se torna notícia. Qualquer especulação vira matéria. Falta ética. Lembra uma vez que eu te contei daquele garoto que inventou a entrevista, baseado em umas linhas que eu tinha escrito pra ele. Pois é, naquele caso, explícito de falta de ética, até hoje aquele guri é defendido por um monte de gente. E ousam dizer que eu deveria ter ficado agradecida por ele ter feito uma entrevista com a minha pessoa, mesmo eu não tendo dito uma palavra daquilo. Infelizmente, quase ninguém mais tem ética. E principalmente o professor daquela disciplina, que só soube dar risada do acontecido. Falta de ética é lamentável. E é só a gente ver o perfil dos profissionais que estão se formando. Eles só querem passar por cima das pessoas. E quem se preocupa com ética é sempre a pessoa mais boba, que está por fora da realidade. Desculpe o textão... ABs

Anônimo disse...

Chata, estressada, never mind.

Graziana disse...

Marcia, assino em baixo...

falta ética a começar pelo delegado...

Ana disse...

É mesmo impressionante... desconheço os bastidores dos jornais, mas imagino que é a pressa, o furo, a urgência que acaba falando mais alto! Inclusive se antecipando aos burocráticos e demorados trâmites da polícia e da justiça!
Que bom que ainda tem gente séria, antiga, chata e estressada!

Leonardo disse...

Pinta, você acha que cada leitor tem a imprensa que merece?

Beijo,

Anônimo disse...

Reflexöes sobre ética, como as que desenvolve no texto, sem dúvida deveriam nos ocupar, tanto em nosso processo de formaçao acadêmica, quanto em nossos fazeres profissionais; lembro, apenas, que ética tem sempre um “objeto” ao qual se dirige: no caso em discussäo, o objeto da ética é o critério de noticiabilidade, justamente aquilo que, naturalizado em nossa prática profissinal, tendemos a defender e concordar.
Norberto Kuhn Jr., estudante de Ciencias da Comunicaçäo (nkjunior@uol.com.br)

Simone disse...

Incrivel seu texto. SE todos os jornalistas pensassem assim, viveriamos em um mundo melhor. Ou melhor, se todos os profissionais pensassem assim...

Sean Hagen disse...

*


o complicado é a gente lembrar que o jornalismo expressa o tempo e a época de uma cultura. os valores estão em xeque e a ética deixou de ser moeda corrente na justiça e nas relações corporativas e interpessoais.

o jornalismo, por ser um campo pequeno e fechado, teria mais 'facilidade' em não perder de vista a ética, que figura como nosso fiel da balança. somos ou não um serviço voltado à sociedade?

mas hoje, qual editor deixa de dar uam possível falsa acusação mesmo sabendo que será desementida? qual repórter tem formação suficiente para se botar no lugar do cidadão e perguntar ao delegado o quão leviano está sendo ao jogar aos leões alguém por uma suspeita muito vaga?

defendo a formação universitária pra jornalista até a morte. é na academia que essas questões devem ser abordadas com rigor e profundidade, expondo todos os lados dos envolvidos e as conseqüências de cada ato. mas claro, é preciso urgentemente rever currículos e a formação de muitos professores.

do contrário, vamos cada vez achar mais normal situações como essa.

falei demais. lementável :(

*

Carrion disse...

BRILHANTE, BRILHANTE!!! O Autor! O Autor! Como se diria lá na minha Macondo fronteiriça: Te passaste Marcita! Hay que hoderse pá um comentário desses. Tivesse dinheiro sobrando mandava colocar na grande imprensa como "a pedido".
Beijão
Carrion
PS. No teste left/right fiquei com -1,63 e no Libertarian/Authoritariam fiquei com -3,23.
Ou seja, não sou tão direita e reacionário como as más linguas tentam divulgar com o torpe intuito de denegrir a minha imagem.
Bjs.
Carrion

sylvia moretzsohn disse...

Quero dar minha pequena contribuição a esse debate pedindo desculpas, desde logo,pela extensão do texto.

Em primeiro lugar, reproduzo trecho de entrevista de um aluno meu a uma jornalista (produtora) da Globo, para a disciplina Ética e Jornalismo, na UFF: "quero dizer a você, com a minha experiência profissional, que tudo que você aprende na faculdade pode embrulhar e jogar pela janela. Entendo que você está fazendo esse trabalho para passar na matéria, enfim, se formar. Mas saiba que no mercado é tudo muito diferente, muito mais dinâmico".

Muito mais dinâmico, claro.

Quanto ao espanto da Maitê, que não conheço mas a quem presto minha humilde solidariedade, recordo que o Elio Gaspari fazia algo muito parecido, e até pior, no início de sua vitoriosa carreira. Está no livro do Mário Sérgio Conti, que ele elogiou na época do lançamento: "...[Gaspari] estava numa agência de notícias no Galeão. O aeroporto era o ponto de passagem dos poderosos da República. Os políticos, ainda em trânsito da antiga para a nova capital, embarcavam nos vôos matutinos para Brasília. No Galeão desembarcavam as celebridades estrangeiras que visitavam o Rio. Como se podia entrar na área da alfândega, os jornalistas circulavam e faziam entrevistas. Os repórteres da agência tinham de falar com os passageiros famosos, redigir as matérias na sala de Imprensa, tirar cópias num estêncil a álcool e mandá-las para os jornais. Gaspari logo constatou que o tempo médio de embarque e desembarque, vinte minutos, era escasso. Enquanto entrevistava um deputado, perdia outros três que entravam no avião para Brasília. Passou a acordar de madrugada para ler os jornais e, com base neles, escrever pequenas entrevistas de políticos comentando os assuntos do dia. Se concordavam com as respostas, passavam a ser os entrevistados de fato e de direito. Assim, podia mandar aos jornais três, quatro entrevistas, em vez de uma. Os entrevistados agradeciam porque, além de estarem nos jornais, às vezes pareciam mais inteligentes ou engraçados do que realmente eram. Em Veja, o método foi refinado e usado anos a fio. Gaspari inventava um raciocínio para avivar uma matéria, geralmente de madrugada, no calor do fechamento, e mandava um repórter achar alguém famoso que quisesse assumir a autoria. (...). Tinha algo de molecagem, mas ficava nos limites das normas jornalísticas, na medida em que ninguém era forçado a encampar uma declara-ção. O seu fim último era levar um fato novo ao leitor".

Pois então é assim: tudo dentro das normas jornalísticas.

Nós é que devemos estar errados.

Aliás, soube recentemente que uma aluna minha comentou, a meu respeito, com um professor do curso: "Não tenho culpa se ela (eu) se deu mal no mercado...".

Temos aulas obrigatórias de ética, não sei se todos os cursos têm (falo dos particulares), mas não sei se adianta.

sylvia moretzsohn disse...

A propósito do caso em questão, não sei se é possível classificar tão categoricamente como culpado o sujeito que se apresentou como tal. Acho que em relação a ele deveria haver os mesmos cuidados que (não) houve quando se apontou quase com certeza a culpa do filho do casal. Acho que há muitos buracos nessa história (pelo menos na história que saiu nos jornais e na TV). Por que o cara escolheu aquela casa, tendo passado pelo telhado de outras três? Faz sentido chegar lá às 2h30 e ficar esperando quatro horas (sem dormir...) até que alguém abrisse a porta dos fundos? Não sei, seria preciso um trabalho de perícia cuidadoso para a obtenção de provas materiais antes de dar o caso por encerrado. A história pode até ter sido essa mesma, mas a confissão só não basta. Mesmo porque, sabemos como certas confissões são obtidas... inclusive porque é preciso achar logo um culpado, e se não foi o filho que seja o vizinho, ainda por cima preto e pobre.

Sean Hagen disse...

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SYLVIA
se a gente abrir mão de discutir ética dentro da faculdade, o que sobra pro mercado?
como eu disse antes, acho que tem que qualificar muitos professores também, mas perder esse espaço, nunca.


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sylvia moretzsohn disse...

Claro, Xôn... temos que manter e ampliar esse espaço. Quando digo que não sei se vale a pena, estou apenas manifestando meu estado d'alma. Coisa de balzaca descendo a ladeira. Mas sempre vale a pena.

Agora essa sua foto, vou te contar... é o típico amante latino, "se te pego com outro te mato"!

Sean Hagen disse...

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acha que engano, Sylvia?
por sinal, é boa com a cam?
tô precisando fazer boas fotos.
pra botar no meu portfólio.
:p



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