28 março 2010

invejo


invejo terrivelmente as pessoas de alma serena. as lineares, as constantes, as bem tecidas. invejo terrivelmente esta felicidade lenta que surge em certos sorrisos, os sorrisos que derivam talvez de experiência, talvez de simplicidade, talvez de sabedoria. seja lá o que for: desconheço.

o que conheço é o intermitente, o que é e será mais, o que ainda vai chegar lá. é o que conheço desde sempre, por temperamento, por influência dos astros ou por mera irreflexão. o que sei, e então não sei, e nesta cadência imoderada provoca um futuro a ser outro.

mas. há sempre um mas, para os imoderados. e então, na dinâmica do tempo, mas. como uma suspensão, e nada se move. toda luz é um fogo tímido. todo som, um acorde sumindo no silêncio. toda cena, um gestinho irrelevante. o sentimento que havia já não há; mas, ao morrer, levou consigo o olhar que brilhava e a maravilha das manhãs. levou as palavras, levou as vontades, levou as migalhinhas de pequenas felicidades. acabou, e isso parecia bom, mas.

é por isso que invejo terrivelmente as pessoas de alma serena. aquelas que não se definem por advérbios de intensidade. porque nada é mais terrível, aos passionais, do que o limbo da falta de emoção. o dia interior que nasce igual, a cada manhã, sem nada para maravilhar. conto os dias, e as noites, para ver ressurgir o olhar que brilha. um pequeno abalo interior, uma coisa a querer. uma coisinha qualquer, que me salve.

13 comentários:

Sean Hagen disse...

*



almas serenas invejam a intensidade de tirar daquilo que realmente tem valor a potência máxima.

tempestade e calmaria são opostos que se atraem. assim como o frio e o calor, a fome e a saciedade, as chamas e a água.

domar a intensidade é lobotomizar os sentimentos: raros, intensos e inspiradores pra quem se permite viver; belos, fictícios e invejados pra quem só os conhece lendo.




*

Nina disse...

Que texto!
Invejo...

LU K. disse...

estou em busca deste brilho tb... mas já tomei meu rumo em direção ao sol (o interno e o externo). faça o mesmo! é só se permitir...
beijos

Luciana S. F. disse...

Invejo também! Não entendo a origem de tanta serenidade em certas pessoas enquanto minha alma vive na inquietude. Fico pensando que talvez não tenha aprendido o segredo, mas por outro lado talvez essas pessoas não tenham experimentado o suficiente dessa "droga" chamada emoção e por isso ainda não se viciaram. Entendo você!

Eduardo Nunes disse...

o boi tem a alma serena. devemos invejá-lo?

:P

Luciana S. F. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana S. F. disse...

Boi, alma, inveja! Assunto polêmico! Mas se considerarmos serenidade como ausência de sentimentos mais complexos ou mais profundos (sem querer ofender o boi, afinal respeito todos os animais desde as formas mais primitivas), não vejo o porquê de invejarmos, apenas respeitá-los. Eu mudaria a pergunta para: Pessoas serenas que vivem alheias ao mundo que os cercam, devemos invejar? Na minha opinião acho que Sean Hagen já respondeu em parte a minha pergunta na sua postagem.

Eduardo Nunes disse...

se alcançar a serenidade fosse alienar-se do mundo, bastaria um comprimidinho de soma (TM Huxley Corporation) e a paz reinaria nas almas dos que o engolissem.

mas a minha referência aos nobres representantes do mundo bovino foi apenas uma provocação... admiro bastante os capazes da verdadeira serenidade, que entendo como o oposto da alienação: é fruto de uma compreensão aguda do devir do mundo e da natureza das gentes...

Luciana S. F. disse...

Parece que chegamos a algum lugar! Existem as serenidades oriundas da alienação e as serenidades adquiridas pelo entendimento e aceitação da natureza de todos que nos rodeiam, sem egocêntrismo. Me parece que é essa última serenidade que as almas inquietas almejam! Difícil arte de evoluir!

Fer Quadros disse...

Nem respirei.
Obrigada!

Rogério Andreatta disse...

Pintinha, querida, tão interessante quanto o texto original são os comentários. Enriquecedores, como a tua alma poética, inquieta, investigativa. Sim, têm razão os que dizem que serindade pode ser apenas a inquietude domada, domesticada, adestrada. E, neste caso, ela também é inquietude, só que com freio. E então, embora possa ser sinal de amadurecimento na compreensão das coisas, ainda assim, é a pasteurização da coceira que transforma. E justamente por esta razão é que os espíritos serenos precisam tanto dos "invejosos" espíritos inquietos. Podes continuar invejando se quiseres. Mas continua nos presenteando com os teus sublimes e profundos questionamentos, por favor.

bj
Rogério

Mariana Mesquita disse...

Amém... eu também!

Tai disse...

O final é belíssimo. É quase um "socorro não estou sentindo nada", se é que deva se sentir.

T.Á.