17 julho 2010

do que eu não quero saber *

não quero saber se parece tolo. existe uma única verdade nas datas que ficam vazias: elas doem todo-santo-ano. faça chuva, solaço ou granizo. não importa. o dia está lá, bonito ou não. mas uma pessoa não está. a morte é este reverso da delicadeza. ela arranca o que havia de mais valioso e devolve o nada sobre o qual você irá reconstruir o que puder e o que souber. 

não quero saber se existe limbo, inferno ou paraíso. se existe vida depois da morte, uma luz brilhante que ilumina o caminho ou duendes ou magos ou estrelinhas em neon. o que dói, dói agora. a vida que temos, temos agora. fotos na gaveta, cartas, cartões, bilhetes. presentes. a memória cheia de coisinhas engraçadas, e um vazio implacável que sempre se reposiciona. 

não quero saber se existe aí algum aprendizado memorável. se a tristeza reforça o caráter, se a ausência revela o precioso, se existe uma moral nas curtas fábulas do desaparecimento. é um instante único, irrepetível, e apesar disso retorna todo-santo-ano. retorna em momentos variados, imprecisos, aquele horrível instante acionado por qualquer coisinha tola. e retorna, de forma mais extensa, nas datas agora vazias. 

não quero saber o motivo, a explicação, se existe algum tipo de justiça que os humanos não podem compreender. é injusto, e pronto. dói, e pronto. não faz sentido, e pronto. a única coisa que posso saber, a única coisa que aprendi é que certas lacunas nunca serão preenchidas. não há o que colocar nelas. 

assim têm sido os meus 17 de julho. aniversário do meu irmão. sem o que colocar neste sem-fundo, que não se permite preencher com as argamassas da filosofia. tudo que quero saber é o que vivi com ele. o que não vivemos, o que teria sido, o que talvez estivesse reservado: disso eu não quero saber. especialmente, não quero saber como superar o insuperável. você não supera a morte, você apenas a aceita. e aceita de frente, sem nada a explicar, a ninguém, sobre um dia que pode ter chuva, solaço ou granizo e que será sempre, de um jeito só seu, aquele dia maldito e lacunar.



* postagem temática proposta pelo Sintonizados

12 comentários:

Nina disse...

Vai dar para comentar, não. Chorei muito.


(texto lindo!)

Bjo

Leila Ghiorzi disse...

lágrimas nos olhos, foi isso que teu texto me causou.

lindo.

Adriana Amaral disse...

chorei

Rosana Tibúrcio disse...

É... num deve ser fácil!

Dalys disse...

ay marcita. estoy llorando...
un gran abrazo.

Rafael Caitano disse...

Quero convidar vocÊ a participar deste blog.
http://sobvariosolhares.blogspot.com/

Glayne . disse...

Caramba... Não há o que dizer.

Ana disse...

Já vim aqui e li muitas vezes.
Nada a dizer, além de concordar com cada palavra.

Bel [zynes] disse...

todos partilhamos de algum espaço vazio em comum com todo o resto da humanidade. por perdas ou buracos semelhantes. :)

Bel [zynes] disse...

sou fã do seu blog. by the way

Monica Gomes disse...

Eu chorei ao ler esse teu post. Sinto exatamente o mesmo e entrei aqui numa infeliz coincidência pois daqui há 7 dias completa 2 anos que minha mãe se foi...e eu já estou sofrendo antes.

bjos

Aldema disse...

É , Marcinha! Só me ocorre uma expressão: que merda! e uma vontade de chorar muito.