dei uma oficina de texto esta semana na Fabico. na primeira aula, uma aluna disse: “é difícil, as palavras sempre fogem”. na hora me lembrei de um poema do Paulo Leminski:
RAZÃO DE SER
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram letras no papel,
quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
escrevo porque preciso. preciso porque estou tonto. e pronto. não tem que ter por quê.
por puro prazer, reli recentemente “Seis propostas para o próximo milênio”, do Italo Calvino. um livro inteirinho dedicado aos valores literários que, na opinião dele, deveriam ser preservados no século 21. um deles me diz muito, o que ele chamou de visibilidade. o texto é sempre uma tentativa de tornar visível uma idéia mental, de materializar discursivamente uma imagem. para escrever, é preciso ter coragem de viver a imaginação.
quando, há algum tempo, decidi estudar este campo magnífico do imaginário, as motivações não me eram muito claras. dizia para mim mesma que o motivo era minha crença de que o jornalismo expressa nossa humanidade, e nossa humanidade ancora-se em uma ancestralidade ou universalidade que é anterior à cultura. internamente, porém, eu sabia que meu interesse era egoísta, mundano e nada tinha a ver com a academia. eu estava interessada em nossa constituição arquetípica, que se revela em tudo aquilo que a ciência despreza: as cartas do tarô, as linhas da mão, as lendas, os mitos, os rituais, as bruxas, os enigmas, os sentimentos que atravessam a história sendo sempre retomados e recontados.
ao ler com mais afinco Jung, Bachelard e Durand, compreendi por que a imaginação foi sendo sistematicamente desprezada e encurralada no canto escuro da sala ao longo dos tempos. a igreja e a política não toleram a imaginação, pois esta é amoral. para uma sociedade regrada, parece fundamental transformar a imaginação na “louca da casa”.
o fato é que todos nós, em algum momento, ficamos tontos. e então precisamos expressar esta condição. as palavras nos fogem porque é difícil expressar exatamente o que sentimos, pensamos e desejamos. e também porque liberar nossos monstros internos tem um quê de perigoso: nunca se sabe o que o outro, em seu próprio gesto de interpretação, vai pensar de nós.
a maior parte de nós, porém, vive aprisionada na caricatura de um personagem que foi lentamente criado pela cultura e que nos diz como devemos ser e agir. o custo de permanecer na dramaturgia deste papel social é perder a chance de viver todas as outras personas que vivem em nós.
quando alguém me diz “não sei escrever” ou “não tenho talento”, eu vejo ali um sujeito criativo cerceado por uma crença: a de que as palavras fluem sem dor e sem esforço para quem “tem talento”. é um equívoco imaginar que escrever seja uma tarefa fácil. Hemingway reescreveu o parágrafo final de “Adeus às armas” trinta vezes.
por tudo isso, sou fascinada pelo mundo maravilhoso dos blogs. navego muito e sempre caio em páginas de que não gosto. para mim isso não importa. o que importa é que alguém escreveu o que queria, da forma como escolheu se expressar. se não gosto, não volto. se gosto, volto. e cada um que seja feliz com seus textos e suas palavras fugidias. eu mesma tenho outros dois blogs (não, não dou o endereço), onde exercito outras faces da minha imaginação. ninguém é um só. a imaginação é libertária. por trás de um anônimo ou de um personagem fake, existe uma faceta da personalidade de alguém real.
por isso, quando você quiser escrever, apenas escreva. reescreva. e pronto. não tem que ter por quê.
18 Fevereiro 2007
17 Fevereiro 2007
o não-carnaval
chuvinha boa, cidade deserta. os carnavalescos rumam para a praia, lotam os clubes, fazem seus blocos. os portais de notícia estão repletos de dicas para sobreviver às noites de festa, notinhas sobre os trios elétricos, fotos de bundas e peitorais, fofocas de celebridades dando piti em camarotes. uma beleza, o jornalismo desta época.
já eu, que vivo na contramão do espírito carnavalesco, pego a estrada segunda-feira para uma semana de sono, rede, preguiça e bons livros. sem internet e sem compromissos.
já eu, que vivo na contramão do espírito carnavalesco, pego a estrada segunda-feira para uma semana de sono, rede, preguiça e bons livros. sem internet e sem compromissos.
16 Fevereiro 2007
hcb









sou apaixonada pelas fotos de Henri Cartier-Bresson. a geometria e a luz. o ponto exato de uma vida que veio de algum lugar e continua não se sabe para onde.
leio que uma foto dele foi vendida por 204 mil dólares. se eu fosse rica, gastaria tudo em um dia, em coisas lindas assim.
leio que uma foto dele foi vendida por 204 mil dólares. se eu fosse rica, gastaria tudo em um dia, em coisas lindas assim.
12 Fevereiro 2007
muito justo
se você quer conhecer uma pessoa, comece por seu lixo. não pelo que contém, pois isso só interessa a cada um, e sim pela forma como ela acondiciona o material. mal amarrado? coisas saindo pela lateral? vazando? pode apostar, o dono do lixo é um preguiçoso egoísta. pouco importa se o lixeiro vai se cortar, arranhar ou infectar. problema dele.
e aí leio no Última Instância esta notícia sobre duas negligências abomináveis: o descaso com o lixo hospitalar e a lentidão da Justiça. eu disse Justiça? desculpe, foi por hábito. um gari contraiu o vírus da Aids em Brusque em 1995, ao lidar com o lixo de um hospital. processou a Prefeitura. a Justiça disse que a Prefeitura não era responsável. não era, não. a responsável era a minha mãe, todo mundo sabe disso.
o gari recorreu. nove anos depois, saiu em segunda instância a decisão a seu favor, estabelecendo uma indenização de R$ 75 mil. o caso foi parar no Superior Tribunal de Justiça, que acaba de confirmar a responsabilidade da Prefeitura. doze anos depois, a indenização está em R$ 140 mil — e o gari está em estado terminal. é a Justiça brasileira ajudando as pessoas a construir uma poupança.
e aí leio no Última Instância esta notícia sobre duas negligências abomináveis: o descaso com o lixo hospitalar e a lentidão da Justiça. eu disse Justiça? desculpe, foi por hábito. um gari contraiu o vírus da Aids em Brusque em 1995, ao lidar com o lixo de um hospital. processou a Prefeitura. a Justiça disse que a Prefeitura não era responsável. não era, não. a responsável era a minha mãe, todo mundo sabe disso.
o gari recorreu. nove anos depois, saiu em segunda instância a decisão a seu favor, estabelecendo uma indenização de R$ 75 mil. o caso foi parar no Superior Tribunal de Justiça, que acaba de confirmar a responsabilidade da Prefeitura. doze anos depois, a indenização está em R$ 140 mil — e o gari está em estado terminal. é a Justiça brasileira ajudando as pessoas a construir uma poupança.
11 Fevereiro 2007
10 Fevereiro 2007
ser banido

vi há alguns dias “A Noiva Síria”. é reconfortante assistir a um filme em que a música narra a cena, com força e precisão, ao contrário das orquestrações onipresentes que têm sido tão habituais no cinema hollywoodiano. música que sabe estar e sabe calar, na medida para tocar seu emocional. o árabe é tremendamente sonoro e belo, e então ouvir o filme é também ver o filme.
a história transita entre o drama e o humor — como a vida. lá estão representadas a burocracia burra e negligente, a morte em vida, a geopolítica que separa irmãos, a intransigência de uma religião moralista, a submissão imposta a certas mulheres, a falsa sabedoria dos conservadores.
o que poderia ser confuso para quem não vive cotidianamente a expatriação e as distinções entre drusos, sírios e israelenses torna-se inteligível. e torna-se inteligível porque o fio condutor são temores universais: de ser banido por uma decisão que outros não compreendem, de ser apartado de uma terra que você sabe ser sua, de ser tolhido pela força ilegítima, de ser julgado por outra cultura, da saudade terrível e antecipada de quem se ama, da política de gabinete que desconsidera o fluxo da vida.
a direção, do israelense Eran Riklis, não chega a ser um primor. mas o roteiro constrói diálogos econômicos e norteadores sobre as personalidades, os contextos e o que vai dentro de cada um. com uma fotografia árida, o filme cresce em direção à intimidade. o final é emocionante porque escorre para dentro do personagem central – que não é a noiva, nem a irmã. o protagonista é este herói arquetípico que decide enfrentar sua jornada. finalmente decide.
passarinho
05 Fevereiro 2007
ding ling ping
quando você pensa que vai inventar um personagem, vem o jornalismo e te joga na cara: “sorry, baby, mas a vida real é mais incrível”. e é assim que um chinês de 80 anos lavou seu cabelo depois de 26 anos sem ver um xampuzinho amigo. o cabelo tem quase a minha altura. a família gastou 5 horas e 3 caixas de sabão em pó. não há registro de que tenham usado condicionador. nem de quem encarou o pente.
mas eu gostei mesmo foi do nome do jornal que deu a história: Chongqing Morning Papers. “chongqing.” quase tão bonitinho quanto “profiterólis”. piu piu.
mas eu gostei mesmo foi do nome do jornal que deu a história: Chongqing Morning Papers. “chongqing.” quase tão bonitinho quanto “profiterólis”. piu piu.
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