29 Janeiro 2007

relicário

um dia, assim, você acorda e está diferente. sem explicação. você apenas está. já não vê certas coisas do mesmo jeito. você dizia “eu não ligo”, e agora liga. você dizia “isso eu não faço”, e agora se pega querendo fazer. você pensa em lugares que não estavam no seu roteiro. imagina coisas que não vão acontecer. não, não vão.

estas sensações que não conseguimos nominar são sempre tão severas. fincam, fincam. quem te entendia já não entende mais. não sabe, não vê. deixou de te ler. apenas não está. foi embora?

“o que está acontecendo? o mundo está ao contrário e ninguém reparou?”, pergunta Cássia Eller, “por que você está fazendo assim?”. e então você pensa: “nada que uma keep cooler bem gelada não resolva”. porque, de repente, você liga. você passou a ligar.

28 Janeiro 2007

Politburo tupiniquim

já tinha lido sobre isso, e hoje vi um post no blog da Adriana. não posso deixar de comentar as decisões do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) sobre os Jogos Pan-Americanos que acontecerão no Rio em julho. não tenho subsídios para avaliar as políticas de esporte, que envolvem hoje muito dinheiro e muito poder. mas me sinto razoavelmente competente para opinar sobre jornalismo e informação.

a organização do Pan instituiu restrições a atletas, dirigentes e jornalistas. durante os Jogos, os atletas não poderão manter blogs, videologs ou fotologs. a preocupação, fica evidente, é com os textos e imagens que podem circular e fugir ao controle do Comitê e dos patrocinadores.

sobre as restrições aos jornalistas, é ainda mais complexo. seis emissoras de TV (Band, Globo, Record, BandSports, ESPN-Brasil e SporTV) e três emissoras de rádio (Rádio Bandeirantes, Rádio Itatiaia e Sistema Globo de Rádio) detêm o direito de exibir os Jogos. para proteger este direito, o Comitê decidiu que os sites jornalísticos não podem produzir conteúdo próprio, sendo obrigados a reproduzir as imagens que forem liberadas pelo Comitê: 15 minutos de imagens selecionadas sobre as provas do dia, que serão distribuídas aos sites. você pode pensar “bem, mas direitos são direitos”. sim, mas o fato é que o UOL tentou comprar estes mesmos direitos. o COB recusou a oferta, com o argumento de que não haverá comercialização para a internet.

em nota oficial, o Comitê de organização diz ainda que “permitirá aos sites credenciados a gravação das entrevistas coletivas de imprensa”, mas estas “só poderão ser veiculadas seis horas depois de ocorridas”. seis horas. seeeeeeis horas.

as decisões do COB colocam em relevo dois assuntos polêmicos: a liberdade de expressão propiciada pela internet e o acesso à informação jornalística. se um burocrata proíbe a atualização de um blog, eu não posso lhe dar menos que o meu desprezo. o princípio fundamental da internet é a liberdade de postar informações e opiniões, em um processo auto-regulatório que ainda está longe de ser compreendido pelas mentes mais autoritárias. na internet temos de tudo. o que há de melhor e o que há de pior está na internet, pois a rede reproduz os interesses, talentos, delitos e preconceitos da humanidade. há sempre quem queira controlar com mão-de-ferro este ambiente virtual, e a história provará que suas tentativas serão um fracasso.

quanto ao jornalismo, não sei em que mundo estes burocratas vivem, mas certamente não é no meu. faz muito tempo que deixei de ter a televisão como principal fonte de informação. há anos busco nos sites com credibilidade o que desejo saber. concordo que cobertura jornalística é coisa para profissional. concordo com o credenciamento de jornalistas profissionais, pois são eles que devem fazer jornalismo. porém, quem desconsidera os sites jornalísticos como veículos de informação está precisando estudar um pouco, ler mais e ter uma mente mais contemporânea. na própria internet estes burocratas poderão encontrar excelentes artigos, teses e dissertações sobre a questão — se souberem o usar o mouse, claro.

o “centralismo democrático” deste Politburo tupiniquim é mais uma demonstração de que certos gestores brasileiros não estão à altura de seu povo nem de seu tempo. são pessoas que simplesmente vivem fora do tempo. deveriam ser processados por todos os internautas por incompetência e por abuso de poder. e por nos fazer passar vergonha.

26 Janeiro 2007

um mais um?

todo mundo sabe que Pedro Bial enterrou seu passado como jornalista quando assumiu o comando do Big Brother. o que a gente ainda não sabia é que ele também sepultara a matemática simples. falando sobre uma votação do público, na noite de quinta-feira, ele decretou: “foram 64% dos votos. não foi assim uma maioria absoluta, foi apenas uma grande maioria”. a-hã. no meu tempo maioria absoluta era 50% dos votos, mais um. unzinho só. mas isso era no meu tempo, antes do Baita Bosta.

concorre facinho a pérola do ano.

um sapinho na lagoa

tem um dia, assim, em que as coisas dão errado? em que você se sente um sapo estranho, a coachar no vazio? é, tem. um dia em que você ouve um “não”. um dia em que seus sonhos imediatos não se concretizam. um dia em que você sente falta de alguém para compartilhar seu silêncio.

às vezes a vida é esta coisinha mais ou menos, que nos deixa perplexos diante de sua falta de critérios. por que algo dá errado? por que um projeto naufraga? por que aquela pessoa não está? não sei. ah, se pudéssemos saber.

o que eu sei é que um dia nasce depois que uma noite morre. os monstros noturnos não parecem tão assustadores durante o dia, e a sombra que mora em cada um de nós mostra seu avesso, cheio de inspiração. o que eu sei é que a vida tem seus caminhos tortuosos para ensinar do que precisamos, o que interessa e quem interessa nesta curta vida.

os sucessos e os fracassos são provisórios. acima de tudo, eles são um gesto de interpretação. o que você vê como um fracasso, eu posso compreender como lição. o que você entende como sucesso, eu posso perceber como ilusão.

a cada sapo, a cada dia, sua lagoa. por vezes iluminada, por vezes chuvarenta. a lagoa que nos rouba pessoas importantes e projetos é a mesma lagoa que nos inspira outros trajetos. e assim vamos, coachando devagar. coachando no silêncio, mas nunca no vazio.

(postinho dedicado a um sapo que coacha belamente.)

24 Janeiro 2007

um minutinho de silêncio, plis

eu não ia falar sobre isso, porque ainda dói muito. mas acabou sendo noticiado pela Reuters, correu o mundo e está ali, no Terra, exposto publicamente. então acho que não adianta mais guardar o sofrimento no seio da família.

aconteceu na China. um cachorro latiu e um menino de 4 anos começou a gritar desesperadamente. gritou tão alto, mas tãããooo alto, que apavorou 443 frangos. os bichinhos, sem entender nada, em um lugar sem placas de sinalização da saída de emergência, pisotearam-se uns aos outros até morrer. todos, todinhos. um frangocídio terrível e trágico que jamais sairá da memória de todos nós.

um juiz multou o pai do menino. afinal, estes frangos tinham família. determinou uma indenização de 230 dólares. não para cada um dos meus primos de olhinhos repuxados, mas para o conjunto dos estabanados. não sei se vocês notaram a humilhação. 50 cents por cabeça. é isso que eu valho, 50 cents. quiçá menos, dada minha infantilidade.

por favor, respeitem minha dor. e não gritem. piu.

22 Janeiro 2007

perturbador


tem uma lua linda lá fora. um fio de lua, um risquinho no céu. e uma mulher, no meu prédio ou em outro, chora em desespero. as luzes de dois apartamentos de repente se apagaram, como que por respeito. tento entender de onde este choro vem, mas na verdade gostaria de saber por que ele vem. é doído, sincero. é alto, uivante, perturbador.

por que a gente chora quando sofre? nunca compreendi bem o mecanismo do choro, o descontrole em que somos jogados por um sentimento que precisa se expressar, mas não encontra palavra alguma. somos um pouco animais, um pouco selvagens, um pouco dementes. e não há como não tremer, quando alguém chora assim e não nos deixa saber por quê.

adeus, Copacabana

meu irmão estava em Porto Alegre ontem. decidimos jantar no Copacabana, italiano tradicional da Cidade Baixa. minha presença no Copa é bissexta, pois particularmente não acho a cozinha tão boa quanto dizem. os molhos vermelhos geralmente têm gosto de tarantella ou pomarola, a famosa vitela com batatas é um pouco seca para o meu paladar e o atendimento é desleixado. ainda assim, de vez em quando vou lá, na esperança de que algo tenha mudado para melhor. quer dizer, de vez em quando eu ia lá.

então estávamos tagarelando felizes, comendo nossa saladinha e esperando pelo filé a parmegiana. você sabe, aquele ritual das saladas. corta o tomate, espalha a cenoura ralada, esfacela o alface, aquelas enormes rodelas de beterraba pintando as folhinhas. tempera, brinca um pouco com a comida, manda ver.

e eis que o Nando diz “hum... o que é isso?”. sinto todas as peninhas arrepiarem. já penso logo na pior coisa que se poderia achar em um matagal verdinho: aquele ser nojento que começa com b e termina com ata. mas não. para meu alívio, é apenas uma larva. uma pequena e albina larvinha. ou um larvinho, já que não tive tempo de conferir o sexo. se retorcendo no prato, e depois gentilmente colocada na toalha para ser melhor examinada, onde continuou rebolando.

chamo o garçom, bastante irritada: “o que é isto?”. e ele, com a maior cara de pau: “ah, um intruuuso”. dá as costas, pega uma colher e vem recolher o furão da festa. “pronto, agora não tem mais”, com um sorrisinho amarelo. fico olhando incrédula para ele. recolhe o prato da salada e vai embora. a salada, é claro, aparece na conta final. o café não foi oferecido, nem a sobremesa, pois descaso é a regra do Copacabana. mas a conta estava inteirinha lá, para os trouxas pagarem. afinal, do que reclamar, se ainda ganharam uma proteína extra? devem ter olhado a pintinha e pensado “que fofa, vamos lhe dar uma larva de brinde”.

como bem lembrou o Nando depois, o bom de se morar em Porto Alegre é que você pode nunca mais colocar os pés em um restaurante ruim. tem muitas outras opções, e você pode simplesmente riscar do mapa quem te serve larva no jantar. no Copacabana eu obviamente nunca mais volto.

20 Janeiro 2007

espírito gótico

as coisas que você não faz, mas pensa. as coisas que você não diz, mas sente. ah, as coisas. e um dia, sem querer, deixa escapar uma frase. como aconteceu meses atrás, conversando com a Débora, minha orientanda de mestrado que pesquisa a revista Vogue. falando sobre estilos, eu disse: “ah, eu tenho um espírito gótico”.

e então nesta semana fui surpreendida por um presente. ah, os presentes. eles sempre dizem algo sobre quem dá e sobre quem recebe. sobre quem dá, eles dizem o quanto prestam atenção, sua capacidade de entender alguém para além do óbvio. sobre quem recebe, dizem que leitura pode ser feita sobre seus gestos e suas necessidades. os presentes dizem sempre o afeto e as percepções.

“Goth Chic: um guia para a cultura dark”, o belo livro que ganhei da Débora nesta semana, não é aquele tipo de livro que você senta pacientemente para ler. não é como os contos de Truman Capote que ando degustando, e também não é como os livros acadêmicos que exigem um esforço de inscrição em paradigmas de pensamento. não pede paciência e não demanda esforço. já li trechos, pulei páginas, devorei as fotos. em cada trecho encontro uma parte de um eu bastante íntimo (como ando íntima neste blog) que reluta em se expressar, mas que parece tão, tão, tão consistente.

eu poderia falar aqui de tantos presentes que recebi ao longo da vida, e que me ajudaram a ver melhor as pessoas que me deram. sempre lembro um pote de balinhas de goma amarelas, em uma sacolinha bonita, que recebi em um dia difícil, mas importante. aquelas balinhas eram bem mais que balinhas. também lembro de uma bolinha minúscula do Grêmio (sim, eu sou colorada) que eu tivera nas mãos durante algum tempo, enquanto um gremista me contava o grande sonho da vida dele. e no fim eu disse algo como “eu não presto, fico brincando com esta bolinha enquanto você me conta a coisa mais importante da sua vida”. no dia seguinte, ganhei a tal bolinha dentro de uma caixinha vermelha, com um bilhete que dizia “brinque com a minha vida para sempre, eu deixo”. e assim os presentes, os inusitados e significativos presentes, me dizem quem estas pessoas são, quem eu sou e o que mora dentro deles e de mim. ah, o que mora dentro.

18 Janeiro 2007

palavras

são duas e meia da manhã. cheguei de uma festa, fui direto ao banho, não posso dormir. céu fechado e sem estrelas. um pouco, ou muito, de champanhe na cabeça me obriga a escrever, talvez postar, o que sinto neste momento. tenho uma amiga que concluiu hoje seu doutoramento, e é da festa dela que volto agora.

não é uma amiga qualquer. é alguém que admiro por muitos motivos. e que faz meu coração ficar apertado, um pouco doído, quando penso nela. porque, ao pensar nela, penso em mim e nas pessoas que eu amo.

a vida tem um tanto de dureza e um tanto de doçura. a dureza se manifesta nas coisas sobre as quais não temos controle, mas que nos forçam a tomar nas mãos a vida que temos, seja lá como ela for. a doçura se revela em gestos pequenos, gestos de delicadeza, gestos que fazem toda a diferença em meio ao céu revolto das tempestades interiores.

quando penso na vida, é com uma estranha freqüência que penso nesta amiga. e me vêm à mente os caminhos tortuosos da vida um tanto dura e um tanto doce, os caminhos que me levam a certas pessoas capazes de fazer toda a diferença. a aridez do mundo só se dissipa quando me sei perto de alguém de gestos precisos e gentis, o bastante para fazer tudo valer a pena. e em minha mente um pouco alucinada tudo se mistura, se dilata e se fortalece.

há pessoas que não sabem o que é viver. pessoas que se lamentam por um copo que se quebra ou por um bilhete que se rasga. pessoas que sofrem desmesuradamente diante de suas pequenas dores. pessoas pouco dignas dos presentes cotidianos que recebem.

mas há pessoas que entendem o sentido de cada sol que desponta. pessoas que, embora sofram, se levantam a cada manhã porque compreendem que a vida é única, bela e merece ser sorvida. pessoas que não têm receio de dizer que estão ali, bem ali, ao alcance de sua mão. pessoas que, para dizer de modo um pouco cafona, têm um coração.

a esta amiga eu seria capaz de dedicar mil palavras. ela diz que as palavras são mágicas, e eu só posso humildemente concordar. sim, são mágicas, porque por meio delas podemos enfim dizer: não vá embora, não me deixe, eu sou pouco mais que nada sem a sua presença gentil. o amor, este sentimento confuso, nem de longe se compara ao entendimento do que seja uma verdadeira amizade. aquela que nos faz íntimos e despidos de controle. a esta amiga, que todos os dias me lembra o valor do sol que desponta, eu só posso dizer obrigado. ao amigo de belo cavanhaque e gestos gentis, eu só posso dizer obrigado. chove lá fora, e eu chovo um pouco por dentro. e talvez agora possa dormir.

16 Janeiro 2007

os primeiros cem



você quer derrubar aquele governo, encher os tubos daquele estilista que mata chinchilas ou simplesmente incomodar sua sogra? seus problemas acabaram!!! chegou o aluguêitor de manifestantes tabajara. isso se você morar na Alemanha, claro. lá você pode alugar um manifestante por módicos 150 dólares, e ele irá gritar as palavras de ordem que você quiser, segurar as faixas que você mandar, invadir qualquer prédio público. e, como é tudo muito fino, você pode escolher seus próprios manifestantes em um book virtual. vem com carimbo de certificação ideológica.

parece que, se você alugar bastante gente, leva de graça um apito e este lindo megafone. mas é só para os primeiros 100 que ligarem. não perca. ligue djá.

15 Janeiro 2007

genocídio

e então a vida é assim. a pessoa se rasga para escrever um artigo. fica dias trancafiada em casa, enquanto um mundo desconhecido e sempre mais interessante gira lá fora. enquanto alarmes disparam e o sol se põe. enquanto os vizinhos brincam na piscina e martelam pregos.

e a pessoa, já mentalmente esfacelada, vai à cozinha e pega aquele pêssego. doce, suculento e cheio de texturas que não podem ser descritas em blogs de censura livre. a pessoa come o pêssego, o maravilhoso e inesquecível pêssego. e esquece o carocinho, o maldito carocinho, num pratinho em cima da pia. quando um pouco depois a pessoa volta à cozinha, o que aconteceu? ela ganhou na mega-sena? não. ela foi surpreendida por um telefonema com uma passagem para Barcelona? não. ela encontrou cem dólares presos na porta da geladeira, naquele ímã de Buenos Aires? não.

o que ela encontra são centenas de minúsculas formigas fazendo a festa no carocinho. pretinhas, agitadinhas, mal-educadas formiguinhas que saíram sabe-se de onde, que vivem às suas custas sem ao menos ajudar no condomínio. centenas delas, preteando a pia, o pratinho e atiradas de boca no carocinho. praticamente uma orgia pessegal.

o que a pessoa faz? liga para uma ONG de proteção aos animais? não. procura o número dos bombeiros e pede ajuda? não. telefona para a Célia Ribeiro para saber o que é educado fazer num caso visível de quebra de etiqueta como este? não. a pessoa sente os olhos brilharem e, em sua infinita maldade de ser superior, mata todas elas. todas. todinhas. trucida as bichinhas. em grupo, em bloco. genocídio.

quem mandou não saber se comportar.

14 Janeiro 2007

hey you

hey you,
out there in the cold,
getting lonely, getting old,
can you feel me?

hey you,
standing in the aisle,
with itchy feet and fading smile,
can you feel me?

hey you,
don't help them to bury the light
don't give in, without a fight.

hey you,
out there on your own,
sitting naked by the phone,
would you touch me?

hey you,
with your ear against the wall,
waiting for someone to call out,
would you touch me?

hey you,
would you help me to carry the stone?
open your heart, I'm coming home.

but it was only fantasy.
the wall was too high, as you can see.
no matter how he tried, he could not break free.
and the worms ate into his brain.

hey you,
out there on the road,
always doing what you're told,
can you help me?

hey you,
out there beyond the wall,
breaking bottles in the hall,
can you help me?

hey you,
don't tell me there's no hope at all.
together we stand, divided we fall.

[Pink Floyd]

11 Janeiro 2007

calafrio

com atraso que ainda me atordoa, acabo de ler a novela “Calafrio”, de Henry James – versão de Portugal para “The turn of the screw”, publicada no Brasil como “A volta do parafuso”. falha grave no meu currículo, mas de Henry James eu só sabia que era irmão de William James, o filósofo do Pragmatismo. sabia que era um grande escritor e que, de certo modo, se você gosta de Virginia Woolf, acabará gostando de James. bem, eu gosto de Virginia Woolf.

meu primeiro contato com ele foi inesperado: na epígrafe da dissertação do Sean. aquela epígrafe ressoou em mim durante muito tempo, pela beleza e pela consciência de si mesmo: “Trabalhamos no escuro – fazemos o que podemos – damos o que temos. Nossa dúvida é nossa paixão e nossa paixão é nosso dever. O resto é a loucura da arte”. eu a reli muitas vezes e pensava por que ainda não lera Henry James.

este livro dormiu na minha estante durante dois anos. silencioso e paciente. neste início de ano achei que era hora de retomar a literatura, uma das paixões que abandonara pelo excesso de outras leituras. e então mergulhei na leitura na esperança de um afago da imaginação, um sopro forte que pudesse me trazer de novo a este universo de personagens e histórias sem jargões da ciência, sem regras da ABNT, sem limites de estilo e sem deadline.

em “A volta do parafuso”, você vai encontrar uma história de suspense do século 19. mais que uma história, vai encontrar uma atmosfera. em uma casa de campo, uma jovem mulher é responsável pela educação de duas crianças. aos poucos, o impossível torna-se tangível e concreto, narrado a partir de um ponto de vista intimista, psicológico, lento e lacunar. o movimento entre a maldade e a inocência, entre o saber e o não saber constrói o eixo da ambigüidade que torna o texto tenso, consistente e formidável.

depois de tantos roteiros óbvios de cinema e tanto enfado moderno com o mesmo que se repete e repete, Henry James me devolveu o prazer dos finais surpreendentes. o prazer de esperar o próximo passo, a página a seguir, o avanço rumo a um psicológico sobre o qual não temos domínio pela racionalidade. o prazer de uma imaginação radical.

isso tudo em meio ao trabalho intenso de escrever um artigo para a Compós. cujo deadline, diga-se, é segunda-feira. e eu aqui, falando de pequenos prazeres. parece que vou arder no inferno do obscurantismo científico. piu.

09 Janeiro 2007

a China é aqui?

o vídeo de Daniela Cicarelli com o namorado em Cádiz já deu o que tinha que dar (com o perdão do trocadilho). acho o assunto tão menor, que nem me dei ao trabalho de comentar aqui quando tudo aconteceu. mas agora deixou de ser apenas um assunto de mesa de bar, com seu lado um tanto folclórico, e passou a ser de fato tema público. cumprindo ordem judicial, a Brasil Telecom já bloqueou o acesso ao YouTube, e Telefônica e Embratel devem fazer o mesmo.

é bom recolocar as coisas nos seus lugares. não estamos falando de uma mocinha ingênua, e sim de uma celebridade – do baixo clero, mas ainda assim uma celebridade. ela sabe que é famosa, especialmente na Espanha. sabe que pode ser reconhecida, fotografada e filmada. acima de tudo, sabe que sua imagem vende. li em vários lugares que ela foi vítima da mídia, dos invejosos, dos conservadores e dos moralistas. li um artigo de um psicanalista que geralmente admiro, Contardo Calligaris, defendendo sua postura como uma livre e pura expressão de amor. sem contar os textos dizendo que ela estava sendo atacada pelos machistas que não suportariam o livre exercício da sexualidade de uma mulher.

balela. besteira. bullshit. quem não consegue distinguir o mundo privado e o mundo público não está falando sério. não importa, para ninguém, o que você faz em sua vida privada. se gosta de chicotes, morangos ou uvinhas, problema seu. não cabe interpor a suas taras, desejos e fetiches uma questão moral. defenderei sempre o direito de cada um se expressar como quiser, porque sexo só precisa de uma palavra: consentimento. ponto.

porém, em um lugar público os seus direitos são relativos. os seus, os meus e os da Cicarelli. se ainda assim você for em frente, esteja disposto a pagar o preço. e o preço pode ser alto, se lembrarmos que vivemos em uma era de comunicação participativa, em que qualquer um com acesso à internet pode compartilhar o que pensa e o que viu.

o YouTube é o mais famoso site de compartilhamento de vídeos. de uma forma totalmente nova, é democrático porque recebe qualquer coisa. o que Daniela Cicarelli fez, depois de ter um surto de tesão na praia? viveu e deixou viver, como parecia ser seu lema? não. ela acionou seus advogados. processou o Globo, o iG e o YouTube por danos morais. o sexo gostoso e implícito no mar virou uma pendenga judicial, envolvendo dinheiro e, obviamente, muita mídia. a mocinha que estava apenas exercendo a sexualidade feminina (ah, como tremulam as bandeiras do gênero) está deitando e rolando. é de novo manchete da BBC e de outros tantos veículos de referência. mais mídia, mais dinheiro.

mas até aí, sinceramente, para mim a discussão ainda era menor. quando uma ordem judicial acarreta o bloqueio a um site, porém, vira um tema que me interessa. vira tema público. o desembargador Ênio Zuliani diz que ordenou o bloqueio, aos internautas brasileiros, dos vídeos da Cicarelli e não do site. as operadoras, ao que parece, não encontraram um modo de cumprir esta decisão com precisão. então o seu direito, e o meu, de acessar o YouTube foi restringido.

eu nem costumo acessar o YouTube, mas isso não tem nenhuma importância. o que importa aqui é o conceito de liberdade, em um país democrático. estamos vivendo o primeiro caso concreto de uma sociedade que não está preparada para lidar com as ferramentas contemporâneas de comunicação, que não entende a natureza da internet e não tem legislação adequada para lidar com os danos à imagem neste meio. o que pode vir em seguida? a China?

05 Janeiro 2007

penaredo

o filme se chama “A Promessa”. “vale cada centavo”, dizia a mini-resenha do Unibanco Artplex. ah, eu adoro estas promessas sobre cada centavinho suado (ui). mas nos primeiros dois minutos você percebe que perdeu dinheiro e vai sobrar muita cadeira.

a música onipresente, orquestrada e ocidental poderia embalar uma fuga de campo de concentração polonês, uma perseguição no Central Park, uma disputa de gangues em Amsterdam. qualquer coisa, menos uma fábula chinesa que pede ding-lings e zing-pings.

sou fã de Zhang Yimou, que fez os belíssimos “O Herói” e “O Clã das Adagas Voadoras” — filmes para quem abre mão da realidade em troca de uma boa história com falas econômicas e poderosas, além da estética obsessivamente trabalhada para suspender o fôlego. pois neste “A Promessa”, o diretor Chen Kaige tenta imitar Yimou. não tem, porém, o mesmo talento e a mesma persistência de Yimou. e tudo que consegue é fazer um filme risível, chato e pra lá de cafona.

mesmo uma pinta como eu acaba achando que tem pena demais neste filme. é um penaredo que não termina mais. tudo tem penas: todos os mantos, todas as vestes, todas as lanças. até os cavalos e os touros têm penas e franjas coloridas. imagino o trabalhão que deu criar este figurino carnavalesco. fiquei procurando o Joãozinho Trinta nos créditos finais, mas acho que assinou sob pseudônimo.

a mesma capacidade de voar que Yimou imprime a seus heróis e bandidos está lá, só que sem graça, sem técnica e sem medida. de repente, vemos a tal princesinha envolta em penas (of course) e amarrada em um imenso cordão vermelho, sendo puxada por um escravo valente de cabelo sujo. uma espécie de mulher-pandorga, solta ao vento e protegida pelo herói, como a Lois Lane do Superman. sim, sempre a mesma mulher retomada, frágil e leve, se deixando levar pelo amor generoso e protetor que não se revela.

o filme tem duas mulheres: a princesinha amaldiçoada e uma espécie de fada que dá o tom sobrenatural ao proferir sentenças de mau agouro. esta fadinha do mal chega invariavelmente pelo ar e seus cabelos estão sempre ao vento. daria uma boa propaganda kitsch de xampu.

as cenas de batalha são um balé que mistura movimentos gays com macheza violenta. a inserção de leques que abrem e fecham (uh) e a paradinha dos pés faz lembrar um flamenco mal posto. talvez uma China tentando globalizar suas referências milenares?

tudo é over. tudo é hiper-real. pude imaginar Baudrillard às gargalhadas. um simulacro pobre, com cenários toscos, cores que querem significar por si mesmas, figurino pesado, muito dourado, vermelho, branco e prata. penas, plumas, franjas. sininhos que tocam de modo inconveniente ao menor gesto, máscaras e capacetes, corpos que se liquefazem após voar.

e as frases de efeito moral? ah, as frases. ditados profundos como um pires, esbanjando sabedoria sobre honra, confiança, lealdade, servilismo e amor verdadeiro (aquele que se reconhece ao primeiro olhar e dura para sempre, sabe qual?).

se você quer uma boa história, vá pagar suas promessas em outro terreiro. nem Forrest Gump pode com aquelas peninhas semióticas. mas justiça seja feita: este filmeco de quinta é um prato cheio para uma emplumada patifaria.

02 Janeiro 2007

o Rio de Janeiro continua lindo

o novo governador do Rio, Sérgio Cabral, quer as Forças Armadas na rua. honestamente, eu também quero. não suporto ver pessoas inocentes morrendo apenas pelo azar de estar no lugar errado na hora errada. tenho amigos que moram no Rio. fico imaginando onde andam Fernando Resende, Sylvia Moretzsohn, Luciano Medeiros, Marcos Pereira. se estão seguros, se estão na rua, se podem sofrer algum tipo de violência.

hoje o Luciano fez 60 anos. é um engenheiro de extrema inteligência que conheci na Bahia. Luciano fez um doutorado canadense e jamais esquecerei do que conversamos sobre viver no Canadá, um sonho distante que ainda tenho. Luciano caminha de manhã, chega feliz para o café, conta piadas, está aberto ao mundo, tem uma casa com cachorros.

Fernando é especial. estuda o que eu estudo, lê mais do que eu, sabe mais do que eu e compartilha sem receio aquilo que sabe. é engraçado, tem um olhar silencioso, palavras certeiras, um jeito seguro e suave de fazer a crítica. Fernando tem projetos, um deles comigo, e de modo muito egoísta eu não quero que nada de ruim aconteça a ele.

Sylvia? bem, a Sylvia só conhecendo para entender. aquela risada peculiar, a língua destravada, sempre debochando do meu sotaque. mas bah. poderosa Sylvia, de idéias limpas e força doce. piadista sem freio, patife por natureza.

e o Marcos, gaúcho que zarpou como ave migratória para trabalhar na Petrobras. filósofo, jornalista, mente aguda. é gremista e no momento está um tanto obcecado pela vitória do meu time, mas isso passa. piu piu.

o que os meus amigos têm a ver com o tráfico de drogas, a formação de milícias, a corrupção da polícia, a lentidão da Justiça? nada. portanto, Cabral, bota o Exército, a Marinha e a Aeronáutica na rua. gente de coturno e arma na mão, fazendo alguma coisa que interessa para um país que não está em guerra e não precisa de centenas de militares jogando truco nos quartéis.